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O sono e o fim de uma arte

02/10/2014 22:04:59
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Um debate é – ou deveria ser – uma espécie de mostra coletiva de artistas da retórica, ou oratória. Lembra também uma apresentação de esgrima, na qual a performance de um provoca a performance do outro, numa sequência dialética de habilidades. Seja como for, não há dúvida de que é arte – e das maiores: arte de efeitos imediatos, que tem na inteligência e na palavra seus materiais.

Na Idade Média e no Renascimento, a retórica fazia parte do trivium, a base do ensino universitário, juntamente com gramática latina e lógica. Falar bem significava pensar bem. Saber usar as palavras  e tirar delas o melhor proveito eram como empregar bem um bisturi ou um cinzel; sem as palavras, as ideias não nasceriam.

De certo modo, mesmo com todas as mudanças culturais e tecnológicas, a beleza e a eficácia da oratória continuaram valendo até pouco tempo atrás. Na metade do século 20, os líderes das nações em conflito na Segunda Guerra cultivavam o discurso como armas poderosas a seu serviço. Cada um a seu modo, Churchill e Hitler eletrizaram a opinião pública mundial. Sem o “nunca tantos deveram tanto a tão poucos” (Never in the field of human conflict was so much owed by so many to so few) a Inglaterra talvez não tivesse aguentado as bombas alemãs. E sem a Inglaterra, não haveria mais mundo.

Mesmo sem tradição no cultivo da estética da palavra, e nem mesmo no bom e simples emprego rotineiro da língua, o Brasil produziu grandes oradores. Havia o gosto pela forma da expressão e pela riqueza das ideias. Era possível ver aqui e ali, no tosco país sem escola, um pouco da nossa herança cultural latina na admiração popular pela grande arte da oratória. O povo ia a comícios e a júris ouvir oradores de talento; e não havia líderes que desprezassem o instrumento da oratória, mesmo que não fossem brilhantes.

Agora, um debate não é mais nem esgrima nem mostra coletiva de artistas. Até mesmo um debate que reúne candidatos ao mais alto cargo da República é, quando muito, um bom sonífero. A quantidade de clichês e lugares-comuns é uma verdadeira canção de ninar. Alguns desempenhos – especialmente entre aquela turma do Fundo Partidário Kids – baixam a qualidade do debate ao chão de Zorra Total.

Do lado de cá da televisão, a gente espera que, quando falam em investir em educação, os candidatos pensem não só nas crianças e adolescentes, mas também neles próprios. A oratória vai continuar como um bom visor das ideias que lhes frequentam a cabeça. Vamos anotar uma observação de Hegel: “As ações se revelam também como discursos”.

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Um debate é – ou deveria ser – uma espécie de mostra coletiva de artistas da retórica, ou oratória. Lembra também uma apresentação de esgrima, na qual a performance de um provoca a performance do outro, numa sequência dialética de habilidades. Seja como for, não há dúvida de que é arte – e das maiores: arte de efeitos imediatos, que tem na inteligência e na palavra seus materiais.

Na Idade Média e no Renascimento, a retórica fazia parte do trivium, a base do ensino universitário, juntamente com gramática latina e lógica. Falar bem significava pensar bem. Saber usar as palavras  e tirar delas o melhor proveito eram como empregar bem um bisturi ou um cinzel; sem as palavras, as ideias não nasceriam.

De certo modo, mesmo com todas as mudanças culturais e tecnológicas, a beleza e a eficácia da oratória continuaram valendo até pouco tempo atrás. Na metade do século 20, os líderes das nações em conflito na Segunda Guerra cultivavam o discurso como armas poderosas a seu serviço. Cada um a seu modo, Churchill e Hitler eletrizaram a opinião pública mundial. Sem o “nunca tantos deveram tanto a tão poucos” (Never in the field of human conflict was so much owed by so many to so few) a Inglaterra talvez não tivesse aguentado as bombas alemãs. E sem a Inglaterra, não haveria mais mundo.

Mesmo sem tradição no cultivo da estética da palavra, e nem mesmo no bom e simples emprego rotineiro da língua, o Brasil produziu grandes oradores. Havia o gosto pela forma da expressão e pela riqueza das ideias. Era possível ver aqui e ali, no tosco país sem escola, um pouco da nossa herança cultural latina na admiração popular pela grande arte da oratória. O povo ia a comícios e a júris ouvir oradores de talento; e não havia líderes que desprezassem o instrumento da oratória, mesmo que não fossem brilhantes.

Agora, um debate não é mais nem esgrima nem mostra coletiva de artistas. Até mesmo um debate que reúne candidatos ao mais alto cargo da República é, quando muito, um bom sonífero. A quantidade de clichês e lugares-comuns é uma verdadeira canção de ninar. Alguns desempenhos – especialmente entre aquela turma do Fundo Partidário Kids – baixam a qualidade do debate ao chão de Zorra Total.

Do lado de cá da televisão, a gente espera que, quando falam em investir em educação, os candidatos pensem não só nas crianças e adolescentes, mas também neles próprios. A oratória vai continuar como um bom visor das ideias que lhes frequentam a cabeça. Vamos anotar uma observação de Hegel: “As ações se revelam também como discursos”.

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