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Nem sempre é crime ser conservador

08/10/2014 14:07:15
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20141008_AECIO_ARQ01Aécio tem a chance de ajudar pensamento conservador a se reconciliar com a civilização.

Nada define com mais exatidão o Brasil do que as disparidades entre grupos da sua população. No mundo todo, a ideia de Brasil remete aos desequilíbrios sociais, às gritantes diferenças entre ricos e pobres. Em reportagens sobre o país, a mídia estrangeira costuma explicar que “lá, nos bairros ricos das cidades grandes e médias, vive-se no padrão do mundo desenvolvido; em minutos, pode-se estar num cenário de miséria africana”.

Alguém discorda?  Só mais um pouco de Brasil, para ilustrar: num único estado da federação, Minas Gerais – um dos três mais ricos, os sócios majoritários do poder político nacional –, alguém deixa a Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, toma um bimotor na Pampulha e pousa, trinta minutos depois, numa pista de terra do Vale do Jequitinhonha – uma das regiões mais pobres do Brasil, uma fatia do Maranhão sarneyco esquecida no Sudeste. É tudo Minas!

A Minas da Praça da Liberdade, que poderia ser uma praça de Bruxelas ou de Boston, segundo o discurso de campanha de Aécio Neves tem a melhor educação do Brasil. A outra Minas, às margens do Rio Jequitinhonha, com 75 municípios, tem é prostituição infantil em números escandalosos, desemprego, meio ambiente devastado pela mineração, uma economia arcaica, miserável e estagnada.

A qualquer hora do dia ou da noite, aprecie o trânsito da Rua Suécia, no Jardim Europa, em São Paulo. Olhe as calçadas, as residências, os escritórios. Depois, se a família concordar que você corra tanto risco, observe com a mesma atenção as pessoas subindo para casa ao pé de qualquer favela do Rio de Janeiro, de Porto Alegre, do Recife ou da própria S. Paulo. Veja o sofrimento daqueles calcanhares, a obesidade que aumenta na proporção inversa à renda e à escolaridade.

É quase impossível que, depois desses dois passeios, qualquer pessoa com senso moral básico ainda acredite em tarefa mais urgente por aqui do que encarar o secular deboche da desigualdade brasileira.

Essa obrigação moral não quer dizer votar necessariamente no PT, em Lula ou Dilma, menos ainda em Luciana Genro. Sempre houve quem preferisse outros caminhos, sem deixar de condenar a nossa atrocidade social. O pensamento conservador nunca teorizou muito sobre nada, nem costuma afastar-se do visível, do imediato – ou, no oximoro de Fernando Henrique Cardoso, da “utopia do possível”. Mas seu imediatismo rude nunca o impediu de produzir crítica e gestos destinados a melhorar a realidade social brasileira.

Quando Aécio Neves desembarca no segundo turno da eleição presidencial, traz consigo uma história de conservadorismo. Uma concepção de ação política que se contrapõe à ideia quase romântica, quase utópica da igualdade social buscada pela esquerda, que prefere pisar no acelerador da história e acredita que a moralidade está no avanço e não na cautela (muitas vezes sem fim) recomendada pela direita.

Ser conservador não é ser indiferente (pelo menos, nem sempre). No Brasil, conservadores e reacionários – uns querem preservar valores que lhes parecem essenciais; os outros querem garantir privilégios que acreditam ter por direito divino – muitas vezes andaram juntos. Nossa última ditadura, a aventura de 1964, é exemplo perfeito. Naquele golpe, conservadores não reacionários embarcaram alegremente para em seguida ser alijados e declarados tão inimigos quanto militantes da luta armada.

O país agora é outro, em certo sentido. Mas continua o mesmo, em outro sentido: um país mundialmente identificado com a injustiça social. Nossa única ação moral possível é superar essa herança maldita – esta, sim – do latifúndio e da escravidão.

Em toda parte, conservadorismo não reacionário é apenas um dos modos civilizados de entender e atuar na vida política e social. Para discordar da esquerda, não é preciso descambar para o direitismo hidrófobo, como nazistas de carnaval acham que deve ser o conservadorismo.

Agora, presidenciável para valer, Aécio Neves tem a chance de emergir da sua eterna adolescência e ajudar o pensamento conservador brasileiro a se reconciliar com a civilização: primeiro, já na disputa do segundo turno, desautorizando a barbárie raivosa e discutindo ideias. E se vencer, lembrando todo dia, ao usar a sala de ginástica do Alvorada, que estadista não é garçom dos banqueiros.

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20141008_AECIO_ARQ01Aécio tem a chance de ajudar pensamento conservador a se reconciliar com a civilização.

Nada define com mais exatidão o Brasil do que as disparidades entre grupos da sua população. No mundo todo, a ideia de Brasil remete aos desequilíbrios sociais, às gritantes diferenças entre ricos e pobres. Em reportagens sobre o país, a mídia estrangeira costuma explicar que “lá, nos bairros ricos das cidades grandes e médias, vive-se no padrão do mundo desenvolvido; em minutos, pode-se estar num cenário de miséria africana”.

Alguém discorda?  Só mais um pouco de Brasil, para ilustrar: num único estado da federação, Minas Gerais – um dos três mais ricos, os sócios majoritários do poder político nacional –, alguém deixa a Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, toma um bimotor na Pampulha e pousa, trinta minutos depois, numa pista de terra do Vale do Jequitinhonha – uma das regiões mais pobres do Brasil, uma fatia do Maranhão sarneyco esquecida no Sudeste. É tudo Minas!

A Minas da Praça da Liberdade, que poderia ser uma praça de Bruxelas ou de Boston, segundo o discurso de campanha de Aécio Neves tem a melhor educação do Brasil. A outra Minas, às margens do Rio Jequitinhonha, com 75 municípios, tem é prostituição infantil em números escandalosos, desemprego, meio ambiente devastado pela mineração, uma economia arcaica, miserável e estagnada.

A qualquer hora do dia ou da noite, aprecie o trânsito da Rua Suécia, no Jardim Europa, em São Paulo. Olhe as calçadas, as residências, os escritórios. Depois, se a família concordar que você corra tanto risco, observe com a mesma atenção as pessoas subindo para casa ao pé de qualquer favela do Rio de Janeiro, de Porto Alegre, do Recife ou da própria S. Paulo. Veja o sofrimento daqueles calcanhares, a obesidade que aumenta na proporção inversa à renda e à escolaridade.

É quase impossível que, depois desses dois passeios, qualquer pessoa com senso moral básico ainda acredite em tarefa mais urgente por aqui do que encarar o secular deboche da desigualdade brasileira.

Essa obrigação moral não quer dizer votar necessariamente no PT, em Lula ou Dilma, menos ainda em Luciana Genro. Sempre houve quem preferisse outros caminhos, sem deixar de condenar a nossa atrocidade social. O pensamento conservador nunca teorizou muito sobre nada, nem costuma afastar-se do visível, do imediato – ou, no oximoro de Fernando Henrique Cardoso, da “utopia do possível”. Mas seu imediatismo rude nunca o impediu de produzir crítica e gestos destinados a melhorar a realidade social brasileira.

Quando Aécio Neves desembarca no segundo turno da eleição presidencial, traz consigo uma história de conservadorismo. Uma concepção de ação política que se contrapõe à ideia quase romântica, quase utópica da igualdade social buscada pela esquerda, que prefere pisar no acelerador da história e acredita que a moralidade está no avanço e não na cautela (muitas vezes sem fim) recomendada pela direita.

Ser conservador não é ser indiferente (pelo menos, nem sempre). No Brasil, conservadores e reacionários – uns querem preservar valores que lhes parecem essenciais; os outros querem garantir privilégios que acreditam ter por direito divino – muitas vezes andaram juntos. Nossa última ditadura, a aventura de 1964, é exemplo perfeito. Naquele golpe, conservadores não reacionários embarcaram alegremente para em seguida ser alijados e declarados tão inimigos quanto militantes da luta armada.

O país agora é outro, em certo sentido. Mas continua o mesmo, em outro sentido: um país mundialmente identificado com a injustiça social. Nossa única ação moral possível é superar essa herança maldita – esta, sim – do latifúndio e da escravidão.

Em toda parte, conservadorismo não reacionário é apenas um dos modos civilizados de entender e atuar na vida política e social. Para discordar da esquerda, não é preciso descambar para o direitismo hidrófobo, como nazistas de carnaval acham que deve ser o conservadorismo.

Agora, presidenciável para valer, Aécio Neves tem a chance de emergir da sua eterna adolescência e ajudar o pensamento conservador brasileiro a se reconciliar com a civilização: primeiro, já na disputa do segundo turno, desautorizando a barbárie raivosa e discutindo ideias. E se vencer, lembrando todo dia, ao usar a sala de ginástica do Alvorada, que estadista não é garçom dos banqueiros.

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