Blog POLÍTICA

A comédia da vida pública

09/10/2014 20:52:59
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H. L. Mencken, o mais famoso jornalista americano da primeira metade do século 20 (parou de escrever em 1948), era especializado em falar mal. Há no Brasil um livro com textos dele, reunidos e traduzidos por Ruy Castro; seu título é fiel à acidez que contém: O livro dos insultos de H.L.Mencken.

Sobre o presidente Roosevelt, herói da democracia e da pujança econômica dos EUA – político que ele particularmente detestava –, Mencken escreveu: “Se Roosevelt achar que se converter ao canibalismo pode lhe render votos, mandará engordar um missionário no quintal da Casa Branca”. Em raros momentos o jornalismo foi mais exato na descrição do pragmatismo eleitoral dos políticos. Só mesmo o riso pode dar conta desse fenômeno.

Em 1987, na Itália, uma moça chamada Ilona Staller, nascida na Hungria, concorreu ao parlamento exibindo os peitões em todos os seus comícios e eventos. Era radialista e atriz pornô; sob o pseudônimo de Cicciolina, foi a segunda mais votada naquelas eleições. Em São Paulo, nas eleições municipais de 1959, o campeão de votos foi um rinoceronte do zoológico conhecido como Cacareco (votava-se com cédulas individuais impressas).

Políticos quase sempre merecem o ridículo a que são expostos. Quando Tiririca se candidatou pela primeira vez, seu tema de campanha era perguntar o que faz um deputado – concluindo em seguida: “Também não sei, mas vote em mim que eu te conto”. Tiririca, Cicciolina ou Cacareco são instrumentos da sociedade para rir-se de uma casta que a seu ver a oprime ou no mínimo a engana, não lhe devolvendo em serviços os salários e benefícios que recebe.

Talvez seja inerente à atividade comportar-se ridiculamente. Os políticos estão o tempo todo sob holofotes e são chamados a opinar sobre uma gama infinita de assuntos públicos. E muito diferentemente das outras atividades humanas, não são estimulados e menos ainda treinados para o reconhecimento dos próprios limites. Arrogância e autoelogio são o leito por onde corre seu discurso. Sendo assim, a sociedade às vezes lhes manda um bilhete avisando que pode trocá-los, sem prejuízo, por um animal de zoológico.

São raros os políticos que sabem ou querem ler o bilhete.

O mais ridículo procedimento dos políticos é aquele no qual eles próprios, conscientemente, abrem as portas para a Cicciolina. Foi o que se viu nas eleições recentes. Justiça seja feita: nem o Fidélix nem o Everaldo criaram o Fundo Partidário e seus regulamentos, assim como não inventaram a obrigatoriedade da sua inclusão nos debates.

O tal PRTB, partido do Fidélix, fundado por ele próprio, sem representação no Congresso, recebeu do Fundo Partidário, este ano, em torno de um milhão de reais. (Se o rico dinheirinho tivesse sido doado ao Memorial dos Galgos Afegãos de Higienópolis teria sido mais bem empregado). Nos debates e na propaganda eleitoral “gratuita”, lá estava o Fidélix, à vontade, como se estivesse no seu habitat, chamando os debatedores de “cara”, censurando com veemência atitudes políticas de concorrentes quarenta anos atrás, ou condenando bravamente o uso indevido do aparelho excretor em detrimento de outros aparelhos.

Fidélix, assim como Everaldo, não estavam como penetras no horário “gratuito” e nos debates. Entraram porque a legislação eleitoral permite ou até exige. Que se saiba, nem o Fidélix nem o Everaldo foram autores dessas leis. Elas só vigoram porque outros políticos – ditos políticos “sérios” – as aprovaram e, mais tarde, ainda recorreram ao Supremo Tribunal Federal para garantir sua vigência.

Por que fizeram isso, se um Fidélix ridiculariza mais que um rinoceronte? Porque estavam em busca dos dois ou três votos representados pelos nanicos. Estavam engordando seu missionário no jardim.

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H. L. Mencken, o mais famoso jornalista americano da primeira metade do século 20 (parou de escrever em 1948), era especializado em falar mal. Há no Brasil um livro com textos dele, reunidos e traduzidos por Ruy Castro; seu título é fiel à acidez que contém: O livro dos insultos de H.L.Mencken.

Sobre o presidente Roosevelt, herói da democracia e da pujança econômica dos EUA – político que ele particularmente detestava –, Mencken escreveu: “Se Roosevelt achar que se converter ao canibalismo pode lhe render votos, mandará engordar um missionário no quintal da Casa Branca”. Em raros momentos o jornalismo foi mais exato na descrição do pragmatismo eleitoral dos políticos. Só mesmo o riso pode dar conta desse fenômeno.

Em 1987, na Itália, uma moça chamada Ilona Staller, nascida na Hungria, concorreu ao parlamento exibindo os peitões em todos os seus comícios e eventos. Era radialista e atriz pornô; sob o pseudônimo de Cicciolina, foi a segunda mais votada naquelas eleições. Em São Paulo, nas eleições municipais de 1959, o campeão de votos foi um rinoceronte do zoológico conhecido como Cacareco (votava-se com cédulas individuais impressas).

Políticos quase sempre merecem o ridículo a que são expostos. Quando Tiririca se candidatou pela primeira vez, seu tema de campanha era perguntar o que faz um deputado – concluindo em seguida: “Também não sei, mas vote em mim que eu te conto”. Tiririca, Cicciolina ou Cacareco são instrumentos da sociedade para rir-se de uma casta que a seu ver a oprime ou no mínimo a engana, não lhe devolvendo em serviços os salários e benefícios que recebe.

Talvez seja inerente à atividade comportar-se ridiculamente. Os políticos estão o tempo todo sob holofotes e são chamados a opinar sobre uma gama infinita de assuntos públicos. E muito diferentemente das outras atividades humanas, não são estimulados e menos ainda treinados para o reconhecimento dos próprios limites. Arrogância e autoelogio são o leito por onde corre seu discurso. Sendo assim, a sociedade às vezes lhes manda um bilhete avisando que pode trocá-los, sem prejuízo, por um animal de zoológico.

São raros os políticos que sabem ou querem ler o bilhete.

O mais ridículo procedimento dos políticos é aquele no qual eles próprios, conscientemente, abrem as portas para a Cicciolina. Foi o que se viu nas eleições recentes. Justiça seja feita: nem o Fidélix nem o Everaldo criaram o Fundo Partidário e seus regulamentos, assim como não inventaram a obrigatoriedade da sua inclusão nos debates.

O tal PRTB, partido do Fidélix, fundado por ele próprio, sem representação no Congresso, recebeu do Fundo Partidário, este ano, em torno de um milhão de reais. (Se o rico dinheirinho tivesse sido doado ao Memorial dos Galgos Afegãos de Higienópolis teria sido mais bem empregado). Nos debates e na propaganda eleitoral “gratuita”, lá estava o Fidélix, à vontade, como se estivesse no seu habitat, chamando os debatedores de “cara”, censurando com veemência atitudes políticas de concorrentes quarenta anos atrás, ou condenando bravamente o uso indevido do aparelho excretor em detrimento de outros aparelhos.

Fidélix, assim como Everaldo, não estavam como penetras no horário “gratuito” e nos debates. Entraram porque a legislação eleitoral permite ou até exige. Que se saiba, nem o Fidélix nem o Everaldo foram autores dessas leis. Elas só vigoram porque outros políticos – ditos políticos “sérios” – as aprovaram e, mais tarde, ainda recorreram ao Supremo Tribunal Federal para garantir sua vigência.

Por que fizeram isso, se um Fidélix ridiculariza mais que um rinoceronte? Porque estavam em busca dos dois ou três votos representados pelos nanicos. Estavam engordando seu missionário no jardim.

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