Blog POLÍTICA

Existe vida depois da eleição

14/10/2014 15:48:12
teste string(4409) "

01

Quem não teve ocasião de visitar o Coliseu no tempo dos imperadores, presenciando uma sensacional carnificina, pode recuperar o espetáculo perdido entrando nas redes sociais nesses dias pré-eleição. Mas faço a ressalva de que não quero ofender a memória dos antigos gladiadores.

Nas redes, a discussão eleitoral se dá num tom de apocalipse. A gritaria é alucinada e ensurdecedora, cada um se esforçando ao extremo para ser mais chulo e menos lúcido. Lucidez, claro, naquele ambiente sanguinário só atrapalha.

O Brasil sempre tratou suas eleições como arranca-rabos passionais. A ideia de que numa disputa eleitoral se discutem propostas para o aprimoramento da vida política e social, aqui passa a anos-luz da realidade. Entre nós, o gol é a denúncia, o dossiê, a demonização, o suposto malfeito agravado até o crime, que é exibido como diversão. Marqueteiros chamam isso de desconstrução.

Parece não ocorrer a ninguém, nem aos candidatos nem aos seus soldados, que desconstruir é uma ação que pode ser executada de modo inteligente. Em vez de arrancar o fígado do adversário, ou de distorcer seu passado de forma ainda mais dolorosa, é mais eficaz dizer e mostrar que se tem uma ideia melhor. Eleitores em geral não se interessam por fígados arrancados.

Eleitores estão cansados de repetir que preferem ouvir propostas.

Um bom exemplo nesses últimos dias veio do senador eleito por São Paulo, José Serra. Em entrevista à Folha de S. Paulo, Serra anunciou que vai dedicar seu mandato à luta pela reforma política, em especial pela implantação do voto distrital. É incrível, mas olha aí uma ideia! E não há relato do repórter de que Serra tenha sentido dores ao manifestar uma ideia.

Em estado de sobriedade, poucos discordam de que os problemas brasileiros são muitos, variados e imensos, mas estão bloqueados pela massa de insanidade da legislação e dos costumes políticos em vigor. Reforma política é o começo de qualquer conversa.

As eleições em si precisam ser postas em discussão. O orçamento federal destina recursos ao Fundo Partidário, que repassa os valores às siglas conforme a sua representatividade. Numa brecha, entram no banquete penetras como Levy Fidélix, que levam juntos milhões de reais do Fundo (do fundo dos nossos bolsos) – e para quê?

As últimas eleições foram esclarecedoras a respeito do papel desses rapazes da banda Fundo Partidário Kids. São profissionais das eleições que vivem da dura tarefa de aparecer na televisão de quatro em quatro anos, recitar dois ou três clichês dos extremismos de esquerda ou de direita, personificar algumas piadas e pronto. Desaparecem em seguida como bichos de goiaba fora do tempo da goiaba, e voltam na eleição seguinte para outra vez perturbar debates e noticiários. Nas eleições estaduais e proporcionais, o bizarro alcança a enormidade de sucessos internacionais.

Circula no YouTube o vídeo de um apresentador da CNN comentando as eleições no Brasil e mostrando nossos candidatos Bin Laden, presidente Obama, o super-homem que voa e tudo vê. O apresentador da CNN cumpre seu papel ao rir das nossas eleições – e nós? Vamos demonizar a CNN nas redes? Não seria mais lógico que a gente discutisse modos menos engraçados e mais maduros de fazer eleições?

A ideia do voto distrital pretende retomar o debate de propostas já apresentadas no Congresso. Como sempre, não se caminhou. Tudo continuou como sempre. Talvez não seja a melhor proposta: especialistas contrários mostram que, nos últimos vinte anos, treze países abandonaram o voto distrital. Na própria Inglaterra, onde o sistema nasceu, registram-se casos de alarmante distorção da vontade eleitoral provocada pelo voto majoritário em eleições parlamentares.

Mas é uma proposta a ser debatida. Temos sistemas mistos, como o alemão, e até sistemas inovadores sugeridos no Brasil. A grande ideia não é o voto distrital, mas ter ideias e apresentá-las no lugar desse Coliseu de gladiadores bêbados das redes sociais.

"

01

Quem não teve ocasião de visitar o Coliseu no tempo dos imperadores, presenciando uma sensacional carnificina, pode recuperar o espetáculo perdido entrando nas redes sociais nesses dias pré-eleição. Mas faço a ressalva de que não quero ofender a memória dos antigos gladiadores.

Nas redes, a discussão eleitoral se dá num tom de apocalipse. A gritaria é alucinada e ensurdecedora, cada um se esforçando ao extremo para ser mais chulo e menos lúcido. Lucidez, claro, naquele ambiente sanguinário só atrapalha.

O Brasil sempre tratou suas eleições como arranca-rabos passionais. A ideia de que numa disputa eleitoral se discutem propostas para o aprimoramento da vida política e social, aqui passa a anos-luz da realidade. Entre nós, o gol é a denúncia, o dossiê, a demonização, o suposto malfeito agravado até o crime, que é exibido como diversão. Marqueteiros chamam isso de desconstrução.

Parece não ocorrer a ninguém, nem aos candidatos nem aos seus soldados, que desconstruir é uma ação que pode ser executada de modo inteligente. Em vez de arrancar o fígado do adversário, ou de distorcer seu passado de forma ainda mais dolorosa, é mais eficaz dizer e mostrar que se tem uma ideia melhor. Eleitores em geral não se interessam por fígados arrancados.

Eleitores estão cansados de repetir que preferem ouvir propostas.

Um bom exemplo nesses últimos dias veio do senador eleito por São Paulo, José Serra. Em entrevista à Folha de S. Paulo, Serra anunciou que vai dedicar seu mandato à luta pela reforma política, em especial pela implantação do voto distrital. É incrível, mas olha aí uma ideia! E não há relato do repórter de que Serra tenha sentido dores ao manifestar uma ideia.

Em estado de sobriedade, poucos discordam de que os problemas brasileiros são muitos, variados e imensos, mas estão bloqueados pela massa de insanidade da legislação e dos costumes políticos em vigor. Reforma política é o começo de qualquer conversa.

As eleições em si precisam ser postas em discussão. O orçamento federal destina recursos ao Fundo Partidário, que repassa os valores às siglas conforme a sua representatividade. Numa brecha, entram no banquete penetras como Levy Fidélix, que levam juntos milhões de reais do Fundo (do fundo dos nossos bolsos) – e para quê?

As últimas eleições foram esclarecedoras a respeito do papel desses rapazes da banda Fundo Partidário Kids. São profissionais das eleições que vivem da dura tarefa de aparecer na televisão de quatro em quatro anos, recitar dois ou três clichês dos extremismos de esquerda ou de direita, personificar algumas piadas e pronto. Desaparecem em seguida como bichos de goiaba fora do tempo da goiaba, e voltam na eleição seguinte para outra vez perturbar debates e noticiários. Nas eleições estaduais e proporcionais, o bizarro alcança a enormidade de sucessos internacionais.

Circula no YouTube o vídeo de um apresentador da CNN comentando as eleições no Brasil e mostrando nossos candidatos Bin Laden, presidente Obama, o super-homem que voa e tudo vê. O apresentador da CNN cumpre seu papel ao rir das nossas eleições – e nós? Vamos demonizar a CNN nas redes? Não seria mais lógico que a gente discutisse modos menos engraçados e mais maduros de fazer eleições?

A ideia do voto distrital pretende retomar o debate de propostas já apresentadas no Congresso. Como sempre, não se caminhou. Tudo continuou como sempre. Talvez não seja a melhor proposta: especialistas contrários mostram que, nos últimos vinte anos, treze países abandonaram o voto distrital. Na própria Inglaterra, onde o sistema nasceu, registram-se casos de alarmante distorção da vontade eleitoral provocada pelo voto majoritário em eleições parlamentares.

Mas é uma proposta a ser debatida. Temos sistemas mistos, como o alemão, e até sistemas inovadores sugeridos no Brasil. A grande ideia não é o voto distrital, mas ter ideias e apresentá-las no lugar desse Coliseu de gladiadores bêbados das redes sociais.

Comentários