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Agredir ou não agredir

20/10/2014 17:36:46
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este-foi-o-terceiro-debate-entre-os-presidenciaveis

 

O debate da noite de domingo, na TV Record, trouxe algum alívio ao bom senso. Gente de ambos os lados achou que os candidatos deveriam desculpar-se pelos sopapos anteriores. Da minha parte, como já escrevi aqui, o que pude ver antes foi um Aécio no papel de mestre-escola rabugento e uma Dilma desconcertada, sem saber como sair da chuva de perdigotos furibundos.

Ontem, ficou evidente que os marqueteiros de Aécio perceberam o mal-estar. Não diria que o próprio Aécio percebeu, porque não lhe é muito habitual pensar nos fatos, refletir sobre eles ou observar os movimentos históricos do ponto de vista de quem tem alguma responsabilidade quanto a eles. Sabe-se que na ilustre família Neves a pessoa encarregada dessas tarefas é a irmã, Andrea.

De certo modo, Aécio não é um político moldado no dia a dia dos assuntos de Estrado, mas o herdeiro de uma dinastia. Ninguém jamais perguntou a um rei se ele tem vocação para o emprego – a função lhe é inerente e se não quiser assumir vai provocar enorme perturbação no reino. Bem ou mal, para governar ou para usufruir, os herdeiros sempre assumem, ainda que infelizes e levando para o trono sua mente subalterna.

Quando o avô de Aécio Neves morreu na sua finest hour, no exato momento em que o país o acolhia como herói, a herança caiu no colo do neto sem que ele fizesse qualquer esforço. No ano seguinte, aos 26 anos, Aécio foi eleito como o deputado mais votado de Minas Gerais, o segundo colégio eleitoral do Brasil. Qual o mérito desse jovem deputado? Ser o herdeiro que as imagens da TV mostraram à exaustão no terraço do hospital onde o avô agonizou durante vinte e um dias.

A extraordinária vocação política do neto está para ser demostrada. Um bom paralelo talvez seja com os irmãos Kennedy. Quando John assumiu a presidência dos EUA em 1961, o irmão Robert ocupou o cargo de Procurador Geral, o que equivale ao nosso ministério da Justiça. Apesar das críticas ao nepotismo do presidente, os dois tocaram o governo como seus homens mais poderosos.

O terceiro Kennedy, Edward, tinha na época 36 anos e era visto como pouco mais que um playboy. Foi conduzido pelo irmão presidente a disputar o senado pelo seu estado de Massachussets, foi eleito e todos esperavam que se comportasse no Capitólio exatamente como o herdeiro de uma dinastia – nada mais que um arrogante porta-voz do irmão. Mas Ted revelou-se um parlamentar consciente das suas limitações, que ouvia e acatava os líderes e cumpria tarefas básicas, como reunir colegas na hora das votações. Nos anos seguintes, com os dois irmãos mortos, Ted tornou-se um dos mais completos congressistas da história americana, líder de uma espécie de governo paralelo na oposição.

Aécio Neves preferiu levar uma vida trepidante. Muitos achavam que o jovem no terraço do Incor, em São Paulo, se tornaria um grande homem de Estado, na trilha do avô. Ele escolheu porém o caminho inverso de Ted Kennedy: teve grandes votações na sua Minas Gerais, mas se destacou mesmo foi na grandes noitadas.

Quando Aécio foi governador, a irmã Andrea, onipresente e autoritária, foi apelidada – até por assessores e correligionários – de “governadora”. No mínimo, é uma perfeita vocação de eminência parda. Já o secretário que comandava de fato as ações de governo, o recém-eleito senador Antônio Anastasia, era identificado como o cérebro atuante da administração. O governador, que aumentou em valores surpreendentes as verbas de propaganda oficial, gostava mesmo era do Rio de Janeiro.

Jovem incumbido de carregar a pasta do governador Tancredo Neves, parlamentar, governador de Minas e agora candidato á presidência da República, Aécio construiu uma reputação de bon-vivant.

Lembra uma personagem na contramão do aprendiz que levava o sobrenome Kennedy. Precisa sempre de uma irmã dominadora, um marqueteiro, uma eminência parda e um superauxiliar que preencha sua inapetência pelo duro cotidiano da vida de governante. Ele se limita a exercer sua condição de herdeiro num país despolitizado e sem lideranças.

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O debate da noite de domingo, na TV Record, trouxe algum alívio ao bom senso. Gente de ambos os lados achou que os candidatos deveriam desculpar-se pelos sopapos anteriores. Da minha parte, como já escrevi aqui, o que pude ver antes foi um Aécio no papel de mestre-escola rabugento e uma Dilma desconcertada, sem saber como sair da chuva de perdigotos furibundos.

Ontem, ficou evidente que os marqueteiros de Aécio perceberam o mal-estar. Não diria que o próprio Aécio percebeu, porque não lhe é muito habitual pensar nos fatos, refletir sobre eles ou observar os movimentos históricos do ponto de vista de quem tem alguma responsabilidade quanto a eles. Sabe-se que na ilustre família Neves a pessoa encarregada dessas tarefas é a irmã, Andrea.

De certo modo, Aécio não é um político moldado no dia a dia dos assuntos de Estrado, mas o herdeiro de uma dinastia. Ninguém jamais perguntou a um rei se ele tem vocação para o emprego – a função lhe é inerente e se não quiser assumir vai provocar enorme perturbação no reino. Bem ou mal, para governar ou para usufruir, os herdeiros sempre assumem, ainda que infelizes e levando para o trono sua mente subalterna.

Quando o avô de Aécio Neves morreu na sua finest hour, no exato momento em que o país o acolhia como herói, a herança caiu no colo do neto sem que ele fizesse qualquer esforço. No ano seguinte, aos 26 anos, Aécio foi eleito como o deputado mais votado de Minas Gerais, o segundo colégio eleitoral do Brasil. Qual o mérito desse jovem deputado? Ser o herdeiro que as imagens da TV mostraram à exaustão no terraço do hospital onde o avô agonizou durante vinte e um dias.

A extraordinária vocação política do neto está para ser demostrada. Um bom paralelo talvez seja com os irmãos Kennedy. Quando John assumiu a presidência dos EUA em 1961, o irmão Robert ocupou o cargo de Procurador Geral, o que equivale ao nosso ministério da Justiça. Apesar das críticas ao nepotismo do presidente, os dois tocaram o governo como seus homens mais poderosos.

O terceiro Kennedy, Edward, tinha na época 36 anos e era visto como pouco mais que um playboy. Foi conduzido pelo irmão presidente a disputar o senado pelo seu estado de Massachussets, foi eleito e todos esperavam que se comportasse no Capitólio exatamente como o herdeiro de uma dinastia – nada mais que um arrogante porta-voz do irmão. Mas Ted revelou-se um parlamentar consciente das suas limitações, que ouvia e acatava os líderes e cumpria tarefas básicas, como reunir colegas na hora das votações. Nos anos seguintes, com os dois irmãos mortos, Ted tornou-se um dos mais completos congressistas da história americana, líder de uma espécie de governo paralelo na oposição.

Aécio Neves preferiu levar uma vida trepidante. Muitos achavam que o jovem no terraço do Incor, em São Paulo, se tornaria um grande homem de Estado, na trilha do avô. Ele escolheu porém o caminho inverso de Ted Kennedy: teve grandes votações na sua Minas Gerais, mas se destacou mesmo foi na grandes noitadas.

Quando Aécio foi governador, a irmã Andrea, onipresente e autoritária, foi apelidada – até por assessores e correligionários – de “governadora”. No mínimo, é uma perfeita vocação de eminência parda. Já o secretário que comandava de fato as ações de governo, o recém-eleito senador Antônio Anastasia, era identificado como o cérebro atuante da administração. O governador, que aumentou em valores surpreendentes as verbas de propaganda oficial, gostava mesmo era do Rio de Janeiro.

Jovem incumbido de carregar a pasta do governador Tancredo Neves, parlamentar, governador de Minas e agora candidato á presidência da República, Aécio construiu uma reputação de bon-vivant.

Lembra uma personagem na contramão do aprendiz que levava o sobrenome Kennedy. Precisa sempre de uma irmã dominadora, um marqueteiro, uma eminência parda e um superauxiliar que preencha sua inapetência pelo duro cotidiano da vida de governante. Ele se limita a exercer sua condição de herdeiro num país despolitizado e sem lideranças.

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