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Facebook, sopapos e ausências

22/10/2014 19:52:58
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07_11-11hEstamos chegando ao segundo turno e nada aconteceu, além de tapas e pescoções. Aécio abusou mais do recurso ao golpe baixo – quem sabe por acreditar que macho deve ser assim mesmo –, mas não se pode isentar a presidente de participação nessa temporada de insanidade.

Nas redes sociais ou nas ruas, os eleitores, divididos em hordas furibundas, tiveram comportamento ainda pior que os candidatos. Também entre os adeptos de um ou de outro lado, os seguidores de Aécio se mostraram mais agressivos. Atos de irracionalidade aconteceram em toda parte, como em Belo Horizonte, depois do comício do PT com a presença de Dilma e Lula, como se pode ver em vídeo exibido pela internet.

Depois da redemocratização, o Brasil nunca teve uma disputa eleitoral tão radicalizada quanto esta. As redes ampliaram e ao mesmo tempo domesticaram o espaço público. Para falar a todo o seu grupo de “amigos”, ou muito além do grupo, um militante com os dedos no teclado pode agir como se estivesse trancado no banheiro. Fala os disparates que bem entende, ofende e atropela a civilidade, desafia a tolerância do outro, mas continua fechado no seu ambiente privado.

Com a proteção dessa privacidade, o indivíduo está distante, como num palco. Concebe para si mesmo um personagem em evidência, sem civilidade nem limites, que não se engaja propriamente numa discussão política com fins eleitorais, o que é da natureza da democracia, mas numa disputa de performances, na qual o que importa é a piada ferina e a afirmação pessoal como comediante.

Estamos inaugurando, graças à arena das redes sociais, a eleição-espetáculo, na qual pouco importam os candidatos, menos ainda as ideias, mas o vozerio do bufão do Facebook. Atentos ao fenômeno, os marqueteiros puxam os cordões das suas marionetes para a agressividade. Candidatos se comportam em debates conforme o modelo ditado pelos arruaceiros das redes sociais.

Dessa forma, o conteúdo da campanha eleitoral vasa pelos furos de uma disputa de sopapos. Temas de indiscutível relevância nem são tocados. Marina Silva deu seu apoio a Aécio no segundo turno, mas o que foi que Aécio disse a respeito de questões ambientais como desmatamento ciliar que produz crise hídrica, devastação da Amazônia ou poluição ambiental nas cidades congestionadas? Ao que se saiba, Marina não reclamou da ausência das suas tão caras questões no discurso do seu candidato.

Educação, saúde e segurança são assuntos tratados até o limite em que algo se torna simples clichê. Claro, estes e quaisquer outras questões mereceram a ligeireza suficiente para ser absorvidas com facilidade, sem aborrecer o eleitor. A técnica é repetir, evitar aprofundamentos e, nesta eleição, descobriram que o eleitor, além de apreciar assuntos tratados com a leveza de balões de aniversário, aprecia também cenas de pugilato. Quais foram as grandes propostas dos candidatos nas áreas ditas tão prioritárias da educação, da saúde e da segurança?

Ficamos sabendo, em meio a um tapa e outro, que fulano propõe “priorizar a educação”. Ah!, bom. Um político jamais disse isso no Brasil!

Mesmo que o eleitor, sempre que consultado em pesquisas, diga que “prefere propostas”, os guias de candidatos não acreditam e recomendam a estratégia da “desconstrução”, ou seja, a cascata de ofensas. Essas ofensas servem também para preencher com cenas emocionantes a ausência de assuntos evitados para não melindrar grupos de pressão especialmente sensíveis.

Legalização do aborto, por exemplo. Não importa que a questão seja de uma óbvia prioridade, em vista do número escandaloso de mulheres que morrem em consequência de abortos clandestinos; não importa que nenhuma medida proposta torne o aborto obrigatório – o que importa é que o assunto é evitado porque religiosos impõem suas opiniões e sua contrariedade custa votos.

Nossa eleição democrática – cuja realização regular é por aqui uma dura vitória depois de vinte anos de generais nomeados – vai seguindo o caminho da irrelevância.

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07_11-11hEstamos chegando ao segundo turno e nada aconteceu, além de tapas e pescoções. Aécio abusou mais do recurso ao golpe baixo – quem sabe por acreditar que macho deve ser assim mesmo –, mas não se pode isentar a presidente de participação nessa temporada de insanidade.

Nas redes sociais ou nas ruas, os eleitores, divididos em hordas furibundas, tiveram comportamento ainda pior que os candidatos. Também entre os adeptos de um ou de outro lado, os seguidores de Aécio se mostraram mais agressivos. Atos de irracionalidade aconteceram em toda parte, como em Belo Horizonte, depois do comício do PT com a presença de Dilma e Lula, como se pode ver em vídeo exibido pela internet.

Depois da redemocratização, o Brasil nunca teve uma disputa eleitoral tão radicalizada quanto esta. As redes ampliaram e ao mesmo tempo domesticaram o espaço público. Para falar a todo o seu grupo de “amigos”, ou muito além do grupo, um militante com os dedos no teclado pode agir como se estivesse trancado no banheiro. Fala os disparates que bem entende, ofende e atropela a civilidade, desafia a tolerância do outro, mas continua fechado no seu ambiente privado.

Com a proteção dessa privacidade, o indivíduo está distante, como num palco. Concebe para si mesmo um personagem em evidência, sem civilidade nem limites, que não se engaja propriamente numa discussão política com fins eleitorais, o que é da natureza da democracia, mas numa disputa de performances, na qual o que importa é a piada ferina e a afirmação pessoal como comediante.

Estamos inaugurando, graças à arena das redes sociais, a eleição-espetáculo, na qual pouco importam os candidatos, menos ainda as ideias, mas o vozerio do bufão do Facebook. Atentos ao fenômeno, os marqueteiros puxam os cordões das suas marionetes para a agressividade. Candidatos se comportam em debates conforme o modelo ditado pelos arruaceiros das redes sociais.

Dessa forma, o conteúdo da campanha eleitoral vasa pelos furos de uma disputa de sopapos. Temas de indiscutível relevância nem são tocados. Marina Silva deu seu apoio a Aécio no segundo turno, mas o que foi que Aécio disse a respeito de questões ambientais como desmatamento ciliar que produz crise hídrica, devastação da Amazônia ou poluição ambiental nas cidades congestionadas? Ao que se saiba, Marina não reclamou da ausência das suas tão caras questões no discurso do seu candidato.

Educação, saúde e segurança são assuntos tratados até o limite em que algo se torna simples clichê. Claro, estes e quaisquer outras questões mereceram a ligeireza suficiente para ser absorvidas com facilidade, sem aborrecer o eleitor. A técnica é repetir, evitar aprofundamentos e, nesta eleição, descobriram que o eleitor, além de apreciar assuntos tratados com a leveza de balões de aniversário, aprecia também cenas de pugilato. Quais foram as grandes propostas dos candidatos nas áreas ditas tão prioritárias da educação, da saúde e da segurança?

Ficamos sabendo, em meio a um tapa e outro, que fulano propõe “priorizar a educação”. Ah!, bom. Um político jamais disse isso no Brasil!

Mesmo que o eleitor, sempre que consultado em pesquisas, diga que “prefere propostas”, os guias de candidatos não acreditam e recomendam a estratégia da “desconstrução”, ou seja, a cascata de ofensas. Essas ofensas servem também para preencher com cenas emocionantes a ausência de assuntos evitados para não melindrar grupos de pressão especialmente sensíveis.

Legalização do aborto, por exemplo. Não importa que a questão seja de uma óbvia prioridade, em vista do número escandaloso de mulheres que morrem em consequência de abortos clandestinos; não importa que nenhuma medida proposta torne o aborto obrigatório – o que importa é que o assunto é evitado porque religiosos impõem suas opiniões e sua contrariedade custa votos.

Nossa eleição democrática – cuja realização regular é por aqui uma dura vitória depois de vinte anos de generais nomeados – vai seguindo o caminho da irrelevância.

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