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Mão estendida da presidente reeleita

27/10/2014 11:58:50
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Dilma, após vitória no 2º turno: discurso de uma inesperada estadista.

Na seção eleitoral em que minha filha foi mesária, no Sion, bairro tradicional de classe média alta de Belo Horizonte, o resultado da eleição foi este: Aécio, 300 votos – Dilma, 70. A Folha de S.Paulo desta segunda-feira 27 mostra mocinhas na orla carioca posando com os polegares para baixo e declarando que vão deixar o país.

A eleição de ontem dividiu nitidamente o país ao meio. Norte e Nordeste votaram maciçamente em Dilma; Sudeste, Centro-Oeste e Sul, em Aécio – com uma exceção fatal para Aécio: justamente sua base, onde acreditava ser uma espécie de ACM. Vencendo em Minas, Dilma desequilibrou as expectativas tucanas e ganhou no geral com uma diferença modesta de três milhões de votos. Mas se as belezas da orla estivessem em casa em vez de estarem posando para o fotógrafo, teriam visto um bom motivo para ficar no país.

Quando Dilma compareceu a um hotel de Brasília para o pronunciamento da vitória, o muro que dividiu regiões e classes sociais começou a se desmanchar. Quem chegou para falar foi uma inesperada estadista.

Com dificuldades na voz, Dilma enfatizou como pôde, repetindo a palavra, o primeiro propósito do seu novo governo: diálogo. Seu discurso abordou com humildade a ideia de “superação”, o que equivale à autocrítica sobre erros e limites pessoais e prometeu “um governo muito melhor que o que fiz até agora”. Era uma mulher segura, serena e sem qualquer traço de arrogância.

Concluiu afirmando que não acreditava – “mesmo” – que a eleição tivesse o efeito de separar os brasileiros. Sem deixar de mencionar o “olhar especial para as mulheres, negros e pobres”, a presidente quis estender a mão a todos e discutir alternativas para este país ainda tão fundamente injusto. Referindo-se ao Brasil desejável, a última palavra do seu discurso foi dita com uma convicção e uma ênfase que a tornou quase nova, muito acima do clichê em que os políticos a transformaram: “justo”.

Esta foi a eleição mais disputada e agressiva da história brasileira pós-redemocratização. Agora, com o resultado consagrado, é hora de respeitar a vontade popular. Depois de duas décadas de ditadura, recuperamos o direito de eleger os principais mandatários e de pressioná-los para que exerçam seus mandatos segundo as ideias que representam. A alternância no poder faz parte da saúde democrática, da mesma forma que a permanência enquanto a Constituição permite.

Não cabe mais o raciocínio de que fulano “não pode ser candidato, se for não pode ser eleito, se for eleito não pode tomar posse, se tomar posse não pode governar”.  Por mais inacreditável que seja, isso foi dito no Brasil, em 1950, quando se debatia a questão da candidatura presidencial de Getúlio Vargas, na época senador (que jamais compareceu ao Senado). A frase foi dita pelo jornalista Carlos Lacerda, no pior momento da sua participação política, muitas vezes brilhante. Ele próprio acabou vítima desse veneno golpista.

O país aprendeu a duríssimas penas a respeitar candidaturas e mandatos. Uma situação internacional de guerra fria, com o mundo cegamente dividido entre capitalismo e comunismo, acrescida à nossa imaturidade local, fez do país um campo de golpes. Nesta eleição, rodou pelas redes sociais o absurdo de manifestantes pró-Aécio fazerem o elogio da “intervenção militar”.

Não sabiam o que estavam falando. Em lugar de insuflar o recrudescimento do clima, a candidata vitoriosa apareceu para oferecer a mão estendida e o propósito do diálogo. Felizmente os generais, contrariando os gatos pingados de Aécio, permaneceram quietos em seus quartéis e suas casas. O ridículo ficou por conta apenas dos gatos pingados, que atuaram como sintoma de que a saúde democrática do país ainda não está forte o bastante.

Os adversários da presidente elegeram uma poderosa bancada de oposição no Senado. Senadores da qualidade de José Serra, Antônio Anastasia, Álvaro Dias, Tasso Jereissati, o próprio Aécio Neves, cujo mandato não terminou, terão papel fundamental na fiscalização e na crítica do novo governo de Dilma. Assim caminha um país maduro, no qual vale a pena permanecer.

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Dilma, após vitória no 2º turno: discurso de uma inesperada estadista.

Na seção eleitoral em que minha filha foi mesária, no Sion, bairro tradicional de classe média alta de Belo Horizonte, o resultado da eleição foi este: Aécio, 300 votos – Dilma, 70. A Folha de S.Paulo desta segunda-feira 27 mostra mocinhas na orla carioca posando com os polegares para baixo e declarando que vão deixar o país.

A eleição de ontem dividiu nitidamente o país ao meio. Norte e Nordeste votaram maciçamente em Dilma; Sudeste, Centro-Oeste e Sul, em Aécio – com uma exceção fatal para Aécio: justamente sua base, onde acreditava ser uma espécie de ACM. Vencendo em Minas, Dilma desequilibrou as expectativas tucanas e ganhou no geral com uma diferença modesta de três milhões de votos. Mas se as belezas da orla estivessem em casa em vez de estarem posando para o fotógrafo, teriam visto um bom motivo para ficar no país.

Quando Dilma compareceu a um hotel de Brasília para o pronunciamento da vitória, o muro que dividiu regiões e classes sociais começou a se desmanchar. Quem chegou para falar foi uma inesperada estadista.

Com dificuldades na voz, Dilma enfatizou como pôde, repetindo a palavra, o primeiro propósito do seu novo governo: diálogo. Seu discurso abordou com humildade a ideia de “superação”, o que equivale à autocrítica sobre erros e limites pessoais e prometeu “um governo muito melhor que o que fiz até agora”. Era uma mulher segura, serena e sem qualquer traço de arrogância.

Concluiu afirmando que não acreditava – “mesmo” – que a eleição tivesse o efeito de separar os brasileiros. Sem deixar de mencionar o “olhar especial para as mulheres, negros e pobres”, a presidente quis estender a mão a todos e discutir alternativas para este país ainda tão fundamente injusto. Referindo-se ao Brasil desejável, a última palavra do seu discurso foi dita com uma convicção e uma ênfase que a tornou quase nova, muito acima do clichê em que os políticos a transformaram: “justo”.

Esta foi a eleição mais disputada e agressiva da história brasileira pós-redemocratização. Agora, com o resultado consagrado, é hora de respeitar a vontade popular. Depois de duas décadas de ditadura, recuperamos o direito de eleger os principais mandatários e de pressioná-los para que exerçam seus mandatos segundo as ideias que representam. A alternância no poder faz parte da saúde democrática, da mesma forma que a permanência enquanto a Constituição permite.

Não cabe mais o raciocínio de que fulano “não pode ser candidato, se for não pode ser eleito, se for eleito não pode tomar posse, se tomar posse não pode governar”.  Por mais inacreditável que seja, isso foi dito no Brasil, em 1950, quando se debatia a questão da candidatura presidencial de Getúlio Vargas, na época senador (que jamais compareceu ao Senado). A frase foi dita pelo jornalista Carlos Lacerda, no pior momento da sua participação política, muitas vezes brilhante. Ele próprio acabou vítima desse veneno golpista.

O país aprendeu a duríssimas penas a respeitar candidaturas e mandatos. Uma situação internacional de guerra fria, com o mundo cegamente dividido entre capitalismo e comunismo, acrescida à nossa imaturidade local, fez do país um campo de golpes. Nesta eleição, rodou pelas redes sociais o absurdo de manifestantes pró-Aécio fazerem o elogio da “intervenção militar”.

Não sabiam o que estavam falando. Em lugar de insuflar o recrudescimento do clima, a candidata vitoriosa apareceu para oferecer a mão estendida e o propósito do diálogo. Felizmente os generais, contrariando os gatos pingados de Aécio, permaneceram quietos em seus quartéis e suas casas. O ridículo ficou por conta apenas dos gatos pingados, que atuaram como sintoma de que a saúde democrática do país ainda não está forte o bastante.

Os adversários da presidente elegeram uma poderosa bancada de oposição no Senado. Senadores da qualidade de José Serra, Antônio Anastasia, Álvaro Dias, Tasso Jereissati, o próprio Aécio Neves, cujo mandato não terminou, terão papel fundamental na fiscalização e na crítica do novo governo de Dilma. Assim caminha um país maduro, no qual vale a pena permanecer.

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