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A reforma política larga patinando

29/10/2014 18:27:42
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reforma-politica

 

Apesar da ênfase do pronunciamento da presidente a respeito da urgência da reforma política, na noite da vitória, não é realista esperar que ela vá sair já e a baixo custo. Nem que o governo empregue toda a sua determinação, o que não tem ocorrido desde que se falou em reforma política, de FHC até agora.

O país terá de pagar o preço por ter aprovado uma “constituição cidadã” com tantos buracos no seu tecido da organização partidária, eleitoral, da representatividade parlamentar e outros pontos. Perdida aquela oportunidade de adotar um sistema político que apurasse a legitimidade e a cidadania, e dificultasse ao máximo a barganha rasteira e obscura, é preciso agora começar de novo.

Claro, a ocasião não oferece a mesma motivação. A reconstrução dos estragos do militarismo praticamente acabou. O que ficou foi a tarefa antiga, secular, de assentar as primeiras pedras de um país menos separado em classes, menos brutal no escracho de se dividir orgulhosamente entre miseráveis, pobres e ricos como se isso fosse a ordem de Deus (aqui se acredita piamente que Deus “quis assim” – o que não dá para saber se é uma forma de carolice ou de ateísmo inconsciente).

Discutir – e implantar – agora a reforma política é trabalho gigantesco. Significa remover os interesses mais imediatos, sustentados pelos bolsões reacionários do “Deus quis assim”, sem o impulso de um movimento histórico de autocrítica e reconstrução . É fácil para o baixo clero do Congresso e para o rotineiro PMDB se esconderem nas suas sombras para impedir que o debate avance. Não existe nenhuma pressão popular exigindo que esses pequenos políticos saiam à luz do dia.

E ainda existe o obstáculo dos grandes interesses. Aqueles tão grandes que fazem uma sombra capaz de cobrir a vida política como um todo, e de confundi-la com seus próprios objetivos. Toda essa galáxia que se move nos fundos, grandes ou ínfimos corpos que se somam numa poeira compacta, está pronta para impedir que o sistema político seja mais legítimo, mais identificado com a sociedade e mais sensível aos reais avanços do mundo.

Muitos analistas não acreditam que o debate sobre reforma política possa ao menos começar num Congresso ocupado por vinte e oito partidos políticos – quando um das primeiros objetivos da reforma é exatamente impedir essa dissolvente inflação partidária. A cláusula de barreira, impondo condições básicas para a existência de um partido, foi derrubada na Justiça. Como esperar que políticos carreiristas, despachantes movidos a propinas, disparem contra o próprio pé?

Essa reforma está nas mãos dos grandes partidos – de modo muito especial, na mão dos seus líderes. Se os parlamentares mais representativos, principalmente aqueles do PT, do PSDB e do que resta de vida inteligente no PMDB, além de poucos outros, não conseguirem unir-se para tornar possível a discussão da reforma, figuras como Bolsonaro vão começar a crescer.

As eleições devolveram à política a importância que vinha perdendo como tema sério de interesse dos cidadãos. Ficou claro, no entanto, que a militância dava lugar a uma atitude de torcidas organizadas. A agressividade e a ofensa pelo prazer de ofender substituiu a discussão civilizada, mesmo entre pessoas educadas. Era a eleição do rancor, a manifestação política de uma população que despreza política. Não importava persuadir ninguém; importante era humilhar.

As eleições foram o grande momento de um sistema político viciado, que não resiste a outra disputa sem antes passar por um reforma de alto a baixo. Essa reforma só pode vir com a mobilização partindo da presidente da República e de lideranças capazes de entender seu próprio papel como parte da história.

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Apesar da ênfase do pronunciamento da presidente a respeito da urgência da reforma política, na noite da vitória, não é realista esperar que ela vá sair já e a baixo custo. Nem que o governo empregue toda a sua determinação, o que não tem ocorrido desde que se falou em reforma política, de FHC até agora.

O país terá de pagar o preço por ter aprovado uma “constituição cidadã” com tantos buracos no seu tecido da organização partidária, eleitoral, da representatividade parlamentar e outros pontos. Perdida aquela oportunidade de adotar um sistema político que apurasse a legitimidade e a cidadania, e dificultasse ao máximo a barganha rasteira e obscura, é preciso agora começar de novo.

Claro, a ocasião não oferece a mesma motivação. A reconstrução dos estragos do militarismo praticamente acabou. O que ficou foi a tarefa antiga, secular, de assentar as primeiras pedras de um país menos separado em classes, menos brutal no escracho de se dividir orgulhosamente entre miseráveis, pobres e ricos como se isso fosse a ordem de Deus (aqui se acredita piamente que Deus “quis assim” – o que não dá para saber se é uma forma de carolice ou de ateísmo inconsciente).

Discutir – e implantar – agora a reforma política é trabalho gigantesco. Significa remover os interesses mais imediatos, sustentados pelos bolsões reacionários do “Deus quis assim”, sem o impulso de um movimento histórico de autocrítica e reconstrução . É fácil para o baixo clero do Congresso e para o rotineiro PMDB se esconderem nas suas sombras para impedir que o debate avance. Não existe nenhuma pressão popular exigindo que esses pequenos políticos saiam à luz do dia.

E ainda existe o obstáculo dos grandes interesses. Aqueles tão grandes que fazem uma sombra capaz de cobrir a vida política como um todo, e de confundi-la com seus próprios objetivos. Toda essa galáxia que se move nos fundos, grandes ou ínfimos corpos que se somam numa poeira compacta, está pronta para impedir que o sistema político seja mais legítimo, mais identificado com a sociedade e mais sensível aos reais avanços do mundo.

Muitos analistas não acreditam que o debate sobre reforma política possa ao menos começar num Congresso ocupado por vinte e oito partidos políticos – quando um das primeiros objetivos da reforma é exatamente impedir essa dissolvente inflação partidária. A cláusula de barreira, impondo condições básicas para a existência de um partido, foi derrubada na Justiça. Como esperar que políticos carreiristas, despachantes movidos a propinas, disparem contra o próprio pé?

Essa reforma está nas mãos dos grandes partidos – de modo muito especial, na mão dos seus líderes. Se os parlamentares mais representativos, principalmente aqueles do PT, do PSDB e do que resta de vida inteligente no PMDB, além de poucos outros, não conseguirem unir-se para tornar possível a discussão da reforma, figuras como Bolsonaro vão começar a crescer.

As eleições devolveram à política a importância que vinha perdendo como tema sério de interesse dos cidadãos. Ficou claro, no entanto, que a militância dava lugar a uma atitude de torcidas organizadas. A agressividade e a ofensa pelo prazer de ofender substituiu a discussão civilizada, mesmo entre pessoas educadas. Era a eleição do rancor, a manifestação política de uma população que despreza política. Não importava persuadir ninguém; importante era humilhar.

As eleições foram o grande momento de um sistema político viciado, que não resiste a outra disputa sem antes passar por um reforma de alto a baixo. Essa reforma só pode vir com a mobilização partindo da presidente da República e de lideranças capazes de entender seu próprio papel como parte da história.

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