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Lula 2018 – desde já

31/10/2014 14:14:35
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O ex-presidente Lula declarou, segundo divulgado exaustivamente em toda parte, seu propósito de acompanhar o governo mais de perto (“interferir” foi mesmo a palavra) e que vai começar imediatamente a trabalhar pela sua candidatura em 2018. Isso nos esclarece bastante quanto a certos traços do Partido dos Trabalhadores.

Lula apareceu na cena política brasileira como líder das grandes greves do ABC paulista, entre 1978 e 1980. Era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, seria preso logo em seguida e no mesmo 1980 fundaria o PT, juntamente com um grupo de sindicalistas, militantes como José Dirceu e Frei Betto e intelectuais como o historiador Sérgio Buarque de Holanda e o crítico literário Antônio Cândido.

Dos últimos anos 70 até hoje, Lula já ocupou quase todas as salas da política; só não ocupou as que não quis. Depois de líder sindical, foi presidente do PT, deputado federal constituinte, candidato derrotado a governador de São Paulo, pregador itinerante da mensagem do partido, candidato derrotado a presidente da República três vezes (1989, 1994 e 1998), finalmente eleito presidente em 2002 e reeleito em 2006. Em 2010, apoiou sua ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que jamais concorrera a qualquer cargo eletivo, e ela venceu. Em 2014, Dilma se reelegeu – e Lula promete concorrer outra vez em 2018.

De 1978 a 2014 são 36 anos. Na próxima eleição presidencial Lula terá 73 anos, um câncer de laringe no histórico médico, um franco enrijecimento das crenças e métodos (típico de homem idoso) e, além de tudo, estará pairando em odor de santidade sobre o seu grupo, acima do bem, do mal e de qualquer suspeita.

A produção de lideranças irremovíveis, incontestáveis, mais ou menos modeladas no Deus único hebreu, é um procedimento comum na esquerda. Marx, filho de rabino, teve formação judaica e expressa na sua doutrina essa influência autoritária, essa vontade capaz de “transformar o mundo”, mudando o curso da história. Não houve regime político na experiência do socialismo real, em qualquer parte do mundo, que não tenha entronizado um líder autoritário à sua frente. De Stálin a Raúl Castro, regimes ditos revolucionários ofereceram ditadores idênticos aos nazistas – às vezes até com o componente racista – como Nicolae Ceausescu, na Romênia, e Pol Pot, no Camboja.

Claro, só muito de longe a vocação de dono da história acomete Lula. Em 2010, no topo de enorme popularidade, poderia obter do Congresso um terceiro mandato, por bem ou por mal. Desautorizou toda a bajulação que ia por esse caminho e simplesmente indicou a candidatura da ministra Dilma Rousseff. Disputou limpamente a eleição, venceu e se retirou, embora dando opiniões e insinuando que continuava presente.

Agora, quando sua ex-ministra se reelege com votação apertada, em momento cheio de perigos para seu governo, Lula retorna ao pico da mídia anunciando que vai “interferir mais” e que começa a trabalhar de imediato por ele próprio em 2018. É a erupção autoritária do companheiro Lula. Não só por meio da ação pessoal, do jogo de habilidades destinado a mostrar que ninguém é tão capaz quanto ele, como também através da aceitação passiva de todo o partido, que alegremente celebra a volta do seu messias, dentro da tradição do grande homem. É como se tudo mais não passasse do intervalo inevitável na performance de Lula.

Minutos depois da confirmação da reeleição de Dilma, o deputado Rui Falcão, presidente nacional do PT, declarou que começava naquele momento uma nova etapa, que incluía os projetos tais e tais, assim como o trabalho pela eleição do “presidente” Lula em 2018 – “que começa desde já”. Vale dizer que Lula já está de antemão escolhido candidato, a despeito de qualquer convenção. Qualquer adversário dentro do partido não precisa dar-se o trabalho.

A cena não faz bem ao governo da companheira Dilma, que já começa seu segundo mandato sob o rótulo da provisoriedade. Tudo está armado para o grande retorno. Não há renovação no PT capaz de confrontar o líder. Ninguém, neste país continental, no interior do seu maior partido político, foi estimulado a representar uma alternativa, um sopro de juventude no mérito inegável de Lula.

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O ex-presidente Lula declarou, segundo divulgado exaustivamente em toda parte, seu propósito de acompanhar o governo mais de perto (“interferir” foi mesmo a palavra) e que vai começar imediatamente a trabalhar pela sua candidatura em 2018. Isso nos esclarece bastante quanto a certos traços do Partido dos Trabalhadores.

Lula apareceu na cena política brasileira como líder das grandes greves do ABC paulista, entre 1978 e 1980. Era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, seria preso logo em seguida e no mesmo 1980 fundaria o PT, juntamente com um grupo de sindicalistas, militantes como José Dirceu e Frei Betto e intelectuais como o historiador Sérgio Buarque de Holanda e o crítico literário Antônio Cândido.

Dos últimos anos 70 até hoje, Lula já ocupou quase todas as salas da política; só não ocupou as que não quis. Depois de líder sindical, foi presidente do PT, deputado federal constituinte, candidato derrotado a governador de São Paulo, pregador itinerante da mensagem do partido, candidato derrotado a presidente da República três vezes (1989, 1994 e 1998), finalmente eleito presidente em 2002 e reeleito em 2006. Em 2010, apoiou sua ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que jamais concorrera a qualquer cargo eletivo, e ela venceu. Em 2014, Dilma se reelegeu – e Lula promete concorrer outra vez em 2018.

De 1978 a 2014 são 36 anos. Na próxima eleição presidencial Lula terá 73 anos, um câncer de laringe no histórico médico, um franco enrijecimento das crenças e métodos (típico de homem idoso) e, além de tudo, estará pairando em odor de santidade sobre o seu grupo, acima do bem, do mal e de qualquer suspeita.

A produção de lideranças irremovíveis, incontestáveis, mais ou menos modeladas no Deus único hebreu, é um procedimento comum na esquerda. Marx, filho de rabino, teve formação judaica e expressa na sua doutrina essa influência autoritária, essa vontade capaz de “transformar o mundo”, mudando o curso da história. Não houve regime político na experiência do socialismo real, em qualquer parte do mundo, que não tenha entronizado um líder autoritário à sua frente. De Stálin a Raúl Castro, regimes ditos revolucionários ofereceram ditadores idênticos aos nazistas – às vezes até com o componente racista – como Nicolae Ceausescu, na Romênia, e Pol Pot, no Camboja.

Claro, só muito de longe a vocação de dono da história acomete Lula. Em 2010, no topo de enorme popularidade, poderia obter do Congresso um terceiro mandato, por bem ou por mal. Desautorizou toda a bajulação que ia por esse caminho e simplesmente indicou a candidatura da ministra Dilma Rousseff. Disputou limpamente a eleição, venceu e se retirou, embora dando opiniões e insinuando que continuava presente.

Agora, quando sua ex-ministra se reelege com votação apertada, em momento cheio de perigos para seu governo, Lula retorna ao pico da mídia anunciando que vai “interferir mais” e que começa a trabalhar de imediato por ele próprio em 2018. É a erupção autoritária do companheiro Lula. Não só por meio da ação pessoal, do jogo de habilidades destinado a mostrar que ninguém é tão capaz quanto ele, como também através da aceitação passiva de todo o partido, que alegremente celebra a volta do seu messias, dentro da tradição do grande homem. É como se tudo mais não passasse do intervalo inevitável na performance de Lula.

Minutos depois da confirmação da reeleição de Dilma, o deputado Rui Falcão, presidente nacional do PT, declarou que começava naquele momento uma nova etapa, que incluía os projetos tais e tais, assim como o trabalho pela eleição do “presidente” Lula em 2018 – “que começa desde já”. Vale dizer que Lula já está de antemão escolhido candidato, a despeito de qualquer convenção. Qualquer adversário dentro do partido não precisa dar-se o trabalho.

A cena não faz bem ao governo da companheira Dilma, que já começa seu segundo mandato sob o rótulo da provisoriedade. Tudo está armado para o grande retorno. Não há renovação no PT capaz de confrontar o líder. Ninguém, neste país continental, no interior do seu maior partido político, foi estimulado a representar uma alternativa, um sopro de juventude no mérito inegável de Lula.

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