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O homem cordial vai ao cemitério

02/05/2014 14:34:23
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De Getúlio Vargas ao enterro de indigentes em SP, brasileiro demonstra sua “ética de fundo emotivo”.

Por David Paiva

No seu livro fundamental “Raízes do Brasil”, Sérgio Buarque de Holanda analisa o brasileiro como o “homem cordial”. O conceito já se prestou a muito equívoco, rotulando como “bom” um brasileiro inexistente. Sérgio toma a expressão emprestada do romancista Ribeiro Couto (1898-1963), que não quis dizer “homem bondoso” ou portador apenas de “sentimentos positivos e de concórdia”. Os dois falam do traço brasileiro, que chama a atenção do estrangeiro, de se conduzir segundo uma “ética de fundo emotivo”, como explica Sérgio Buarque. “A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, nisso que uma e outra nascem do coração”.

Nosso “homem cordial” foi, de certa forma, Getúlio Vargas. Como chefe de Estado, antes de ser um presidente constitucional, eleito, Getúlio foi um ditador indissociável da violência da sua polícia política. Capaz de entregar de bandeja aos nazistas uma judia alemã que vivia no Brasil casada com um brasileiro, também foi responsável pelas nossas primeiras leis trabalhistas – copiadas da legislação fascista, que amarrava o trabalhador e os sindicatos ao Estado. Seu poderoso esquema de propaganda, porém, fez dele o “pai dos pobres”. E foi assim, como o protetor dos desvalidos, que entrou para a História.

Se Getúlio não foi pessoalmente o melhor exemplo do “homem cordial”, cujo compromisso é com o círculo próximo, com os laços de sangue, acima da ideia abstrata de coletividade, acabaram por convertê-lo nessa figura. Para perpetuá-lo como ícone útil na luta política, seus herdeiros o congelaram como o bondoso benfeitor dos trabalhadores que se imolou por eles. Uma ficção que o aproxima da figura do pai, muito mais que do estadista. (Os comunistas, ferozmente perseguidos por Getúlio, diziam que ele era “o pai dos pobres e a mãe dos ricos”.)

O ensaio de Sérgio Buarque de Holanda me ocorre nesses dias porque uma coincidência chama a atenção. “Getúlio” pode ser visto a partir desta semana nos cinemas (não vi o filme, mas não acredito que mostre um personagem mais complexo do que o clichê do pai imolado); ao mesmo tempo, um fato ocorrido em São Paulo traz ao noticiário nosso velho patrício, o “homem cordial”.

Reportagem da “Folha de S.Paulo” informou sobre uma investigação do Ministério Público que havia revelado um fato assustador: 3 mil corpos de “indigentes com RG”, ou seja, mortos identificados, foram enterrados em valas públicas sem que suas famílias fossem procuradas e avisadas. O órgão responsável, o Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), vinculado à USP, anunciou então que mudaria o procedimento nos casos de morte de pessoas desacompanhadas. A polícia civil teria agora a obrigação de procurar a família, se em 72 horas o corpo não fosse reclamado. Começa aí um jogo de empurra que expõe até que ponto a insensibilidade pode chegar. A polícia respondeu que não procuraria parentes de mortos por causas naturais, pois só lhe compete a morte violenta. O Secretário de Segurança ficou a favor da polícia, dizendo que o assunto era com a Prefeitura; esta devolveu a bola, alegando que verificação de óbitos é, por lei, obrigação do estado.

Até onde sei, a questão voltara ao Ministério Público. Enquanto isso, as famílias dos “indigentes com RG” continuam sem aviso. Uma pergunta: esses “servidores públicos” que enterram sem avisar achariam razoável se isso ocorresse no seu próprio círculo familiar ou entre seus “amigos do peito”? Claro que não, mas tudo aquilo que está fora do círculo é apenas uma ideia, uma abstração – e abstração não precisa de choro nem vela.

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De Getúlio Vargas ao enterro de indigentes em SP, brasileiro demonstra sua “ética de fundo emotivo”.

Por David Paiva

No seu livro fundamental “Raízes do Brasil”, Sérgio Buarque de Holanda analisa o brasileiro como o “homem cordial”. O conceito já se prestou a muito equívoco, rotulando como “bom” um brasileiro inexistente. Sérgio toma a expressão emprestada do romancista Ribeiro Couto (1898-1963), que não quis dizer “homem bondoso” ou portador apenas de “sentimentos positivos e de concórdia”. Os dois falam do traço brasileiro, que chama a atenção do estrangeiro, de se conduzir segundo uma “ética de fundo emotivo”, como explica Sérgio Buarque. “A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, nisso que uma e outra nascem do coração”.

Nosso “homem cordial” foi, de certa forma, Getúlio Vargas. Como chefe de Estado, antes de ser um presidente constitucional, eleito, Getúlio foi um ditador indissociável da violência da sua polícia política. Capaz de entregar de bandeja aos nazistas uma judia alemã que vivia no Brasil casada com um brasileiro, também foi responsável pelas nossas primeiras leis trabalhistas – copiadas da legislação fascista, que amarrava o trabalhador e os sindicatos ao Estado. Seu poderoso esquema de propaganda, porém, fez dele o “pai dos pobres”. E foi assim, como o protetor dos desvalidos, que entrou para a História.

Se Getúlio não foi pessoalmente o melhor exemplo do “homem cordial”, cujo compromisso é com o círculo próximo, com os laços de sangue, acima da ideia abstrata de coletividade, acabaram por convertê-lo nessa figura. Para perpetuá-lo como ícone útil na luta política, seus herdeiros o congelaram como o bondoso benfeitor dos trabalhadores que se imolou por eles. Uma ficção que o aproxima da figura do pai, muito mais que do estadista. (Os comunistas, ferozmente perseguidos por Getúlio, diziam que ele era “o pai dos pobres e a mãe dos ricos”.)

O ensaio de Sérgio Buarque de Holanda me ocorre nesses dias porque uma coincidência chama a atenção. “Getúlio” pode ser visto a partir desta semana nos cinemas (não vi o filme, mas não acredito que mostre um personagem mais complexo do que o clichê do pai imolado); ao mesmo tempo, um fato ocorrido em São Paulo traz ao noticiário nosso velho patrício, o “homem cordial”.

Reportagem da “Folha de S.Paulo” informou sobre uma investigação do Ministério Público que havia revelado um fato assustador: 3 mil corpos de “indigentes com RG”, ou seja, mortos identificados, foram enterrados em valas públicas sem que suas famílias fossem procuradas e avisadas. O órgão responsável, o Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), vinculado à USP, anunciou então que mudaria o procedimento nos casos de morte de pessoas desacompanhadas. A polícia civil teria agora a obrigação de procurar a família, se em 72 horas o corpo não fosse reclamado. Começa aí um jogo de empurra que expõe até que ponto a insensibilidade pode chegar. A polícia respondeu que não procuraria parentes de mortos por causas naturais, pois só lhe compete a morte violenta. O Secretário de Segurança ficou a favor da polícia, dizendo que o assunto era com a Prefeitura; esta devolveu a bola, alegando que verificação de óbitos é, por lei, obrigação do estado.

Até onde sei, a questão voltara ao Ministério Público. Enquanto isso, as famílias dos “indigentes com RG” continuam sem aviso. Uma pergunta: esses “servidores públicos” que enterram sem avisar achariam razoável se isso ocorresse no seu próprio círculo familiar ou entre seus “amigos do peito”? Claro que não, mas tudo aquilo que está fora do círculo é apenas uma ideia, uma abstração – e abstração não precisa de choro nem vela.

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