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A política do feijão-com-arroz

20/06/2014 14:37:02
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Aécio Neves saiu candidato sem contestações, com presença e discurso de Serra, até há pouco emburrado e arredio.

 

Por David Paiva

Oficialmente, o PSDB já tem candidato à Presidência. O evento meio carnavalesco da convenção partidária, do tipo que espetaculariza o que já foi decidido, costuma ser uma demonstração de força dos candidatos indicados. Serve também como prova de união das correntes do partido em torno de um programa e de um único projeto eleitoral. Dificilmente uma convenção mambembe ou dividida é o começo daquilo que a retórica do clichê chama de  “caminhada para a vitória”.

No caso do PSDB, a musculatura para a próxima eleição parece ter melhorado. Pelo menos naquela parte que cabe à união do partido. Aécio Neves saiu candidato sem contestações, com a presença e o discurso de José Serra, até há pouco emburrado e arredio. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, além de discursar e ser saudado como governante vitorioso contra a inflação, chegou a elevar a voz como um animador de auditório ao mencionar o “futuro presidente do Brasil, Aécioooooo Neeeeeeeeves!” Certamente isso não fica muito bem no sóbrio e elegante sociólogo octogenário (D.Ruth deve ter experimentado certo desconforto), mas o destempero ajudou o coro  do “tamos juntos pro que der e vier”.

Tudo isso não passa de feijão-com-arroz. É o de sempre em toda convenção, o relâmpago midiático do “futuro” isso ou aquilo, ainda que o candidato seja um ilustre Zé Ninguém. Convenções, circos políticos de todos os regimes, não são momentos propícios para sobriedade e autocrítica.

O único componente que pode aproximar uma convenção da realidade e do interesse do mortal comum, salvando-a da nulidade total, é o pronunciamento do candidato. O candidato em si, despido de balões, faixas e jingles, às vezes tem no encontro sua primeira oportunidade de expor, com tempo suficiente de tribuna e de TV, suas ideias, princípios, projetos e até sonhos (não me refiro a partidos e candidatos “sonháticos”, por definição politicamente sonâmbulos).

O candidato consagrado pelo PSDB preferiu seguir no sentido inverso – o do banquete de feijão-com arroz. Aécio Neves, herdeiro de fina linhagem de políticos, deve saber o que faz – sendo assim, parece preferir a blindagem do princípio do “mínimo é o máximo”, a “habilidade” de fazer discursos como quem enche balões, a fé na verdade profunda do slogan que um dia serviu à moda jeans, “less is more”. A começar pela escolha do local da convenção.

O PSDB, nascido basicamente como fruto do quintal paulista, governou como partido paulista e hoje é oposição centrada em personalidades paulistas. O regionalismo – ou bairrismo dos Jardins – é um dos seus defeitos observados pelo país inteiro. Fora de São Paulo, seus quadros são no geral muito medíocres. A única exceção talvez seja Minas, de onde pelo menos acaba de sair o primeiro candidato tucano não-paulista à Presidência, a quebra da longa dinastia dos uspianos, verdadeiros ou honorários.

E o que faz Aécio, o candidato?  Faz a convenção em São Paulo. Nada de novo, tudo conforme o trivial, os mesmos lugares-comuns, os mesmos discursos, o dele e os dos outros. Os mesmos gritos teatrais de trinta anos atrás, os “Muda Brasil!” dos tempos em que ingenuamente acreditámos que o fim da ditadura por si só mudaria o Brasil. Provar que não é bem assim tem sido o papel mais importante do PSDB.

Agremiação típica do pós-64, o tucanato é uma espécie de cachorro que corre atrás do rabo. Suas palavras de ordem de hoje são as mesmas, sempre penduradas na palavra de ouro dos discursos vazios, a “democracia” – pronunciada como uma panaceia vocabular, a palavra que diz tudo e resolve tudo, mesmo que ainda não tenha oferecido mais que um país injusto e repetitivo.  Não é por acaso que brancos e nulos seja o único “candidato” que cresce.

 

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Aécio Neves saiu candidato sem contestações, com presença e discurso de Serra, até há pouco emburrado e arredio.

 

Por David Paiva

Oficialmente, o PSDB já tem candidato à Presidência. O evento meio carnavalesco da convenção partidária, do tipo que espetaculariza o que já foi decidido, costuma ser uma demonstração de força dos candidatos indicados. Serve também como prova de união das correntes do partido em torno de um programa e de um único projeto eleitoral. Dificilmente uma convenção mambembe ou dividida é o começo daquilo que a retórica do clichê chama de  “caminhada para a vitória”.

No caso do PSDB, a musculatura para a próxima eleição parece ter melhorado. Pelo menos naquela parte que cabe à união do partido. Aécio Neves saiu candidato sem contestações, com a presença e o discurso de José Serra, até há pouco emburrado e arredio. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, além de discursar e ser saudado como governante vitorioso contra a inflação, chegou a elevar a voz como um animador de auditório ao mencionar o “futuro presidente do Brasil, Aécioooooo Neeeeeeeeves!” Certamente isso não fica muito bem no sóbrio e elegante sociólogo octogenário (D.Ruth deve ter experimentado certo desconforto), mas o destempero ajudou o coro  do “tamos juntos pro que der e vier”.

Tudo isso não passa de feijão-com-arroz. É o de sempre em toda convenção, o relâmpago midiático do “futuro” isso ou aquilo, ainda que o candidato seja um ilustre Zé Ninguém. Convenções, circos políticos de todos os regimes, não são momentos propícios para sobriedade e autocrítica.

O único componente que pode aproximar uma convenção da realidade e do interesse do mortal comum, salvando-a da nulidade total, é o pronunciamento do candidato. O candidato em si, despido de balões, faixas e jingles, às vezes tem no encontro sua primeira oportunidade de expor, com tempo suficiente de tribuna e de TV, suas ideias, princípios, projetos e até sonhos (não me refiro a partidos e candidatos “sonháticos”, por definição politicamente sonâmbulos).

O candidato consagrado pelo PSDB preferiu seguir no sentido inverso – o do banquete de feijão-com arroz. Aécio Neves, herdeiro de fina linhagem de políticos, deve saber o que faz – sendo assim, parece preferir a blindagem do princípio do “mínimo é o máximo”, a “habilidade” de fazer discursos como quem enche balões, a fé na verdade profunda do slogan que um dia serviu à moda jeans, “less is more”. A começar pela escolha do local da convenção.

O PSDB, nascido basicamente como fruto do quintal paulista, governou como partido paulista e hoje é oposição centrada em personalidades paulistas. O regionalismo – ou bairrismo dos Jardins – é um dos seus defeitos observados pelo país inteiro. Fora de São Paulo, seus quadros são no geral muito medíocres. A única exceção talvez seja Minas, de onde pelo menos acaba de sair o primeiro candidato tucano não-paulista à Presidência, a quebra da longa dinastia dos uspianos, verdadeiros ou honorários.

E o que faz Aécio, o candidato?  Faz a convenção em São Paulo. Nada de novo, tudo conforme o trivial, os mesmos lugares-comuns, os mesmos discursos, o dele e os dos outros. Os mesmos gritos teatrais de trinta anos atrás, os “Muda Brasil!” dos tempos em que ingenuamente acreditámos que o fim da ditadura por si só mudaria o Brasil. Provar que não é bem assim tem sido o papel mais importante do PSDB.

Agremiação típica do pós-64, o tucanato é uma espécie de cachorro que corre atrás do rabo. Suas palavras de ordem de hoje são as mesmas, sempre penduradas na palavra de ouro dos discursos vazios, a “democracia” – pronunciada como uma panaceia vocabular, a palavra que diz tudo e resolve tudo, mesmo que ainda não tenha oferecido mais que um país injusto e repetitivo.  Não é por acaso que brancos e nulos seja o único “candidato” que cresce.

 

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