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Temporada de mágicas

23/05/2014 14:42:31
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Com suas fórmulas de sucesso, marqueteiros despontam como os grandes astros das eleições.

 

Por David Paiva

Começou a temporada dos marqueteiros, os bravos rapazes da prestidigitação eleitoral. Havendo eleições, são eles que despontam no horizonte como os grandes astros da temporada – mais brilhantes que os candidatos. Mas essa notoriedade é justa. Vamos conferir como suas artes são decisivas nas disputas eleitorais – na verdade, elas, as artes marqueteiras, tomaram o lugar dos candidatos e os tornaram inúteis.

Um marqueteiro, até há pouco tempo o mais celebrado e bem-pago de todos eles, o baiano Duda Mendonça, produziu para várias candidaturas em todo o país uma mesma campanha. Aqui e ali mudavam os nomes e alguns detalhes, mas o tal “conceito” (como sofisticadamente dizem os publicitários) era exatamente o mesmo, e se apoiava na imagem de um coração. Servia para qualquer candidato. Seus filminhos lacrimogêneos, como o da multidão de mulheres grávidas andando em câmera lenta sobre a relva, serviram para anunciar ninguém menos que Lula – candidato de quem se esperavam exatamente mudanças e ousadias, não clichês nem mensagens que pareciam produzidas para seu cliente anterior, Paulo Maluf.

Apesar de tudo, deu certo e o marqueteiro se fez milionário; o maior fenômeno da propaganda eleitoral no país. Era tão desejado e requisitado pelos políticos, que me lembrei de uma piada que correu o país logo depois do golpe de 1964, em forma de “slogan”, quando se pensava que votaríamos em eleições presidenciais no ano seguinte: “Chega de intermediários! Lincoln Gordon para presidente!” Gordon era o embaixador dos EUA e seria melhor assumir logo. Duda Mendonça também fez por merecer.

O que ele fez foi exatamente tirar a política da política. É o truque publicitário de “tratar a política apoliticamente”, de acordo com o comentário do filósofo alemão Jürgen Habermas. Mas Duda não foi mais que um personagem simbólico. Não foi nem o primeiro nem o último. O recurso do discurso piegas, a falta de propostas preenchida pela emoção fácil (e cara), a valorização do secundário e do supérfluo no perfil dos candidatos, compõem o modo consagrado por qualquer marquetagem eleitoral de apelar ao cidadão emocional e anular o cidadão racional.

O objetivo é a discussão de não-ideias. Marqueteiros produzem debates simulados, desde que nada contenham de importante. É natural: como artistas do palco eleitoral, agem precisamente como estão acostumados a agir na publicidade comercial – ali só valem ideias feitas, já amarrotadas pelo uso e abuso. Publicitários não expõem clientes a riscos; portanto, nada de novo: só se usam recursos testados, absorvidos pelos níveis mais baixos das camadas socioeconômicas, já incorporados ao cotidiano. Publicitários (os marqueteiros das mercadorias) hoje exageram nas mulheres insinuantes e “devassas”, mas só o fizeram depois que todo o ambiente social, o cinema, as revistas e a moda já tinham feito o serviço; da mesma forma, “recomendam” os políticos a fugirem de polêmicas, de temas “difíceis”. Melhor que não discutam ideias – são muito perigosas. Não-ideias são mais úteis numa não-eleição, que tende a escolher aquele que arrecada mais dinheiro, que tem mais tempo de TV, que é apoiado por cantores sertanejos ou arrancam mais lágrimas nos filminhos. Nessa não-eleição, os candidatos quase sempre se elegem por motivos não-políticos.

Para não dizer que, se é assim, então os dirigentes deveriam continuar sendo nomeados, digo que precisamos é de outro tipo de eleições. Sem reforma política profunda, o país será cada vez mais o resultado de truques.

 

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Com suas fórmulas de sucesso, marqueteiros despontam como os grandes astros das eleições.

 

Por David Paiva

Começou a temporada dos marqueteiros, os bravos rapazes da prestidigitação eleitoral. Havendo eleições, são eles que despontam no horizonte como os grandes astros da temporada – mais brilhantes que os candidatos. Mas essa notoriedade é justa. Vamos conferir como suas artes são decisivas nas disputas eleitorais – na verdade, elas, as artes marqueteiras, tomaram o lugar dos candidatos e os tornaram inúteis.

Um marqueteiro, até há pouco tempo o mais celebrado e bem-pago de todos eles, o baiano Duda Mendonça, produziu para várias candidaturas em todo o país uma mesma campanha. Aqui e ali mudavam os nomes e alguns detalhes, mas o tal “conceito” (como sofisticadamente dizem os publicitários) era exatamente o mesmo, e se apoiava na imagem de um coração. Servia para qualquer candidato. Seus filminhos lacrimogêneos, como o da multidão de mulheres grávidas andando em câmera lenta sobre a relva, serviram para anunciar ninguém menos que Lula – candidato de quem se esperavam exatamente mudanças e ousadias, não clichês nem mensagens que pareciam produzidas para seu cliente anterior, Paulo Maluf.

Apesar de tudo, deu certo e o marqueteiro se fez milionário; o maior fenômeno da propaganda eleitoral no país. Era tão desejado e requisitado pelos políticos, que me lembrei de uma piada que correu o país logo depois do golpe de 1964, em forma de “slogan”, quando se pensava que votaríamos em eleições presidenciais no ano seguinte: “Chega de intermediários! Lincoln Gordon para presidente!” Gordon era o embaixador dos EUA e seria melhor assumir logo. Duda Mendonça também fez por merecer.

O que ele fez foi exatamente tirar a política da política. É o truque publicitário de “tratar a política apoliticamente”, de acordo com o comentário do filósofo alemão Jürgen Habermas. Mas Duda não foi mais que um personagem simbólico. Não foi nem o primeiro nem o último. O recurso do discurso piegas, a falta de propostas preenchida pela emoção fácil (e cara), a valorização do secundário e do supérfluo no perfil dos candidatos, compõem o modo consagrado por qualquer marquetagem eleitoral de apelar ao cidadão emocional e anular o cidadão racional.

O objetivo é a discussão de não-ideias. Marqueteiros produzem debates simulados, desde que nada contenham de importante. É natural: como artistas do palco eleitoral, agem precisamente como estão acostumados a agir na publicidade comercial – ali só valem ideias feitas, já amarrotadas pelo uso e abuso. Publicitários não expõem clientes a riscos; portanto, nada de novo: só se usam recursos testados, absorvidos pelos níveis mais baixos das camadas socioeconômicas, já incorporados ao cotidiano. Publicitários (os marqueteiros das mercadorias) hoje exageram nas mulheres insinuantes e “devassas”, mas só o fizeram depois que todo o ambiente social, o cinema, as revistas e a moda já tinham feito o serviço; da mesma forma, “recomendam” os políticos a fugirem de polêmicas, de temas “difíceis”. Melhor que não discutam ideias – são muito perigosas. Não-ideias são mais úteis numa não-eleição, que tende a escolher aquele que arrecada mais dinheiro, que tem mais tempo de TV, que é apoiado por cantores sertanejos ou arrancam mais lágrimas nos filminhos. Nessa não-eleição, os candidatos quase sempre se elegem por motivos não-políticos.

Para não dizer que, se é assim, então os dirigentes deveriam continuar sendo nomeados, digo que precisamos é de outro tipo de eleições. Sem reforma política profunda, o país será cada vez mais o resultado de truques.

 

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