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Golpe de mestre e vida real

01/10/2014 13:27:09
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20141001_davidpaiva_arq01Pimenta da Veiga e Aécio: adversário não competitivo em troca de apoio em 2018.

Contam que uma tarde o deputado Tancredo Neves chegou ao aeroporto da Pampulha e encontrou lá, à espera de que preparassem seu avião particular, o banqueiro e também deputado Magalhães Pinto. Cumprimentaram-se como bons amigos, embora adversários, e Tancredo perguntou: “Está indo para onde, deputado?” “Para o Rio, deputado”, esclareceu Magalhães.

Daí a pouco chamaram Magalhães Pinto no hangar, pois seu avião estava pronto para decolar. Despediram-se alegremente e então Tancredo comentou com o assessor: “O Magalhães disse que ia para Rio só para eu pensar que ia para S. Paulo. Mas ele vai é para o Rio mesmo”.

Num lugar onde ocorrem diálogos e se tiram conclusões assim tão sutis e beckettianos, não é de estranhar que Aécio Neves tenha apostado na indicação do atual candidato do PSDB ao governo estadual, nada mais que o ex-quase-tudo Da Veiga. Aécio é tido como hábil raposa mineira formada na escola da família, que teve mestres como Tancredo e Tristão da Cunha. De modo que teria direito a qualquer contorcionismo, embora no caso se soubesse que o risco era quase um desafio à natureza.

E lá se foi Da Veiga naufragar conforme previsto. Mas agora se sabe, por conta de depoimentos saídos dos ninhos tucanos mineiros, que Aécio tentou foi um golpe de mestre. O núcleo do arranjo teria sido um acordo com o candidato petista Fernando Pimentel. Aécio lhe garantia um adversário não competitivo, e ele retribuiria com a neutralidade – atuando como petista, sim, ma non troppo. Tanto assim que a sigla PT sumiu das suas peças de propaganda, ficando só o número.

Além da neutralidade em 2014, Aécio teria o apoio do governador Pimentel em 2018, caso se confirmasse a hipótese provável de que agora a vez ainda seria de Dilma. E no fim, como Pimentel já estaria em dificuldades no PT, seria acolhido no PSDB, com grandes honras.

Tancredo, o avô, não faria melhor. Exceto por um pormenor: ninguém esperava que um certo Cessna caísse em Santos, atingindo em cheio o tabuleiro da sucessão. Com o quadro que parece enfim emplacar na vida real, Aécio perderá mal, sequer irá para o segundo turno, será derrotado em Minas, seu poste voltará aos pequenos afazeres privados que o ocupam em Goiás. E em 2018, Aécio Neves, mesmo jovem, será apenas o protagonista da maior derrota tucana em trinta anos. Ou seja, é possível que saia da história para cuidar da vida.

Golpe de mestre também sai pela culatra.

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20141001_davidpaiva_arq01Pimenta da Veiga e Aécio: adversário não competitivo em troca de apoio em 2018.

Contam que uma tarde o deputado Tancredo Neves chegou ao aeroporto da Pampulha e encontrou lá, à espera de que preparassem seu avião particular, o banqueiro e também deputado Magalhães Pinto. Cumprimentaram-se como bons amigos, embora adversários, e Tancredo perguntou: “Está indo para onde, deputado?” “Para o Rio, deputado”, esclareceu Magalhães.

Daí a pouco chamaram Magalhães Pinto no hangar, pois seu avião estava pronto para decolar. Despediram-se alegremente e então Tancredo comentou com o assessor: “O Magalhães disse que ia para Rio só para eu pensar que ia para S. Paulo. Mas ele vai é para o Rio mesmo”.

Num lugar onde ocorrem diálogos e se tiram conclusões assim tão sutis e beckettianos, não é de estranhar que Aécio Neves tenha apostado na indicação do atual candidato do PSDB ao governo estadual, nada mais que o ex-quase-tudo Da Veiga. Aécio é tido como hábil raposa mineira formada na escola da família, que teve mestres como Tancredo e Tristão da Cunha. De modo que teria direito a qualquer contorcionismo, embora no caso se soubesse que o risco era quase um desafio à natureza.

E lá se foi Da Veiga naufragar conforme previsto. Mas agora se sabe, por conta de depoimentos saídos dos ninhos tucanos mineiros, que Aécio tentou foi um golpe de mestre. O núcleo do arranjo teria sido um acordo com o candidato petista Fernando Pimentel. Aécio lhe garantia um adversário não competitivo, e ele retribuiria com a neutralidade – atuando como petista, sim, ma non troppo. Tanto assim que a sigla PT sumiu das suas peças de propaganda, ficando só o número.

Além da neutralidade em 2014, Aécio teria o apoio do governador Pimentel em 2018, caso se confirmasse a hipótese provável de que agora a vez ainda seria de Dilma. E no fim, como Pimentel já estaria em dificuldades no PT, seria acolhido no PSDB, com grandes honras.

Tancredo, o avô, não faria melhor. Exceto por um pormenor: ninguém esperava que um certo Cessna caísse em Santos, atingindo em cheio o tabuleiro da sucessão. Com o quadro que parece enfim emplacar na vida real, Aécio perderá mal, sequer irá para o segundo turno, será derrotado em Minas, seu poste voltará aos pequenos afazeres privados que o ocupam em Goiás. E em 2018, Aécio Neves, mesmo jovem, será apenas o protagonista da maior derrota tucana em trinta anos. Ou seja, é possível que saia da história para cuidar da vida.

Golpe de mestre também sai pela culatra.

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