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O Alienista – Primeira temporada

19/02/2019 11:48:37

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Cada um de nós guarda uma Caixa de Pandora dentro de si.

O mito grego sobre a caixa que continha todos os males do mundo parece ser o ponto fundamental da narrativa de O Alienista (2018), série baseada no livro de Caleb Carr e dirigida por Pacco Cabezas, James Hawes, Jakob Verbruggen, Cary Joji Fukunaga e David Petrarca.

Desde o começo, muito mais do que a série de assassinatos bizarros que acontecem na Nova York do final do século XIX, força motriz do desenvolvimento do enredo, o que intriga são os próprios personagens e suas motivações em descobrir quem está por trás daqueles crimes hediondos. E isso porque tais motivações parecem ir muito além do que o simples senso de dever em se fazer justiça.

Estamos no cenário de uma época em que os recursos da polícia para chegar aos criminosos ainda eram muito escassos e, ao mesmo tempo, desenvolvia-se a ciência do estudo da mente humana, especialmente a dos doentes mentais. Os especialistas no estudo dessa ciência eram chamados de alienistas, e um deles é o personagem principal da trama, Laszlo Kreizler (Daniel Brühl), um profissional respeitado e um professor admirado. De outro lado, temos John Moore (Luke Evans), um aristocrata americano, exímio ilustrador e leal amigo de Kreizler. Fechando a tríade que compõe o núcleo central, está Sara Howard (Dakota Fanning), secretária do comissário de polícia Theodore Roosevelt (Brian Geraghty).

Os três se reúnem para uma investigação paralela de uma série de assassinatos de meninos prostitutos, mas a lupa de detetive do espectador parece se recusar a focar no homicida, voltando-se sempre para Kreizler, John ou Sara.

A paixão do alienista é tentar entender o que se passa dentro da cabeça das pessoas e o que as leva a se comportarem da maneira como se comportam – especialmente as crianças. Essa fascinação é o ponto de partida de todo o enredo. Ele se recusa a acreditar que as pessoas são simplesmente más e que sempre existe um motivo muito racional que as compele a fazer crueldades. Ao ser chamado pelo comissário Theodore Roosevelt para ajudar nas investigações dos assassinatos, Kreizler parece entrar no seu lugar confortável. Nesse momento, a atuação de Brühl e o enquadramento da câmera ajudam a captar o brilho no olhar do alienista, um brilho que parece aumentar quando os assassinatos começam a se tornar recorrentes. Cada garoto prostituto que morria parecia o excitar mais. Cada avanço nas investigações era, para Kreizler, um passo a mais para se chegar à mente do assassino. Sua captura não era o mais importante, o que Kreizler queria era entender como ele pensava.

Talvez seja até por isso que surge sua amizade com John Moore. A profissão de ilustrador parece não ser mera coincidência, já que Kreizler frequentemente pede que Moore desenhe para ele os cadáveres das vítimas, numa tentativa desesperada de ver o quadro pelos olhos de outra pessoa e, assim, entender. Entretanto, as investigações afetam o personagem de Luke Evans (Drácula, A História Nunca Contada – 2014) de outra forma. Ao contrário de Kreizler, que é um homem que chega a beira da insensibilidade, Moore é todo amizade, preocupação e carinho com as pessoas, basta observar o cuidado que ele tem com a avó (sua única parente viva), e a atenção que ele despende com os garotos os ajudam nas investigações. Por outro lado, é viciado em álcool e gosta de se relacionar com prostitutas, frequentando lugares que não são bem vistos, principalmente pela alta sociedade a que ele pertence. O que dizer sobre esse lado de sua personalidade?

É Moore quem apresenta Kreizler à última integrante do trio, Sara Howard, outra personagem muito intrigante. Tendo perdido a mãe muito cedo, ela foi criada pelo pai e acostumada a frequentar ambientes masculinos, daí, talvez, o fato de ter lutado por um emprego no departamento de polícia e se tornado a primeira mulher a realizar tal feito. Ela não se intimida com o sexo oposto, inclusive parece se sentir muito melhor entre os homens – o que se confirma ao notarmos seu desconforto na única cena em que ela interage socialmente com outra mulher  – no noivado de uma ex-colega de escola. Da mesma forma como o plano fechado em close captura o brilho no olhar de Kreizler, também flagra a determinação da garota, sua força e coragem.

A personagem de Dakota Fanning (A Saga Crepúsculo – Lua Nova (2009), Eclipse (2010), Amanhecer, Parte 1 e 2 (2011/2012)) parece ser a urdidura que mantém Kreizler e John unidos, uma vez que se identifica com os dois. Ela é apaixonada pela investigação em si, como Kreizler, o que a faz achar que poderia começar um romance com ele, mas se solidariza com os meninos mortos e os outros prostitutos, como John, o que a faz dar esperanças quando ele questiona se ela aceitaria uma proposta de casamento da parte dele.

A medida que os episódios avançam os diretores conseguem fazer o espectador deixar de lado os assassinatos para se concentrar no trio de amigos, especialmente em Kreizler, e a se perguntar se ele mesmo não é um dos alienados, ou seja um dos doentes mentais. Esse questionamento atinge seu ápice quando Sara começa a fazer investigações pessoais sobre a vida de Laszlo e sua deficiência, já que ele não possui as funções motoras do braço direito, e descobre que a vida inteira ele havia mentido sobre sua condição. Ele não nascera deficiente, já que havia sido um exímio pianista. Quando a moça o confronta, perguntando o que havia acontecido de verdade, ele a esbofeteia. Demora até ele se sentir corajoso o bastante para confessar sua maior mágoa à amiga. Ao que parece, a relação do alienista com seu pai deixou marcas muito mais profundas do que apenas um braço inútil.

Toda essa trama se torna muito realista e bem situada no universo do final do século XIX, quando a tecnologia começa a se desenvolver, as mulheres começam a se impor, mas os resquício da sociedade patriarcal ainda insistem em conter a sociedade.

Quem é esse homem, o alienista que quer entender a natureza má, ou boa, do ser humano? Quem é essa mulher, e de onde ela tira forças para entrar na vanguarda do feminismo? E o que inspira a lealdade daquele amigo mútuo dos dois? Quais males virão à tona e quais ficarão guardados se abrirmos a caixa de pandora que existe em cada um deles? Mais do que desvendar quem é o assassino, é o que se quer descobrir.

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