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Crítica | O gambito da rainha

11/01/2021 23:16:12

Anya Taylor-Joy dá um show como a enxadrista Beth Harmon.

o gambito da rainha beth e borgov

Depois de levar trinta anos para ser colocado em produção e depois lançado, O gambito da rainha estreiou para dar um tapa de luva em todos os estúdios que, antes, rejeitaram a obra de Allan Scott. Baseada no livro homônimo de Walter Tevis, a minissérie se tornou o programa mais visto na Netflix, atraindo mais de 62 milhões de telespectadores em todo o mundo em apenas um mês após seu lançamento. Assim, mesmo envolvendo um tema principal (dentre vários outros) bastante complexo – o jogo de xadrez- , a gigante do streaming finalmente viu o potencial que a história da jovem enxadrista Beth Harmon (Anya Taylor-Joy) tinha.

Ambientada em meados do século passado, a minissérie adapta a obra na qual é baseada com extrema precisão e riqueza de detalhes enquanto acompanhamos Beth em sua jornada, que tem início logo depois de ela ter sobrevivido ao acidente que a deixou órfã. A garota prodígio vai parar, então, numa casa para meninas onde é apresentada e treinada no xadrez por Mr. Shaibel (Bill Camp), o sisudo zelador do local. Porém, uma adoção inesperada promete ameaçar os planos que ela tinha começado a traçar para seu futuro junto ao jogo. Não é de se admirar, portanto, a reticência dos estúdios em aceitar hospedar O gambito da rainha, já que a probabilidade de que a minissérie não agradasse o público era grande – afinal, qual a percentagem de pessoas no mundo que se interessa pelo conhecido, mas intrincado jogo de tabuleiro?

Todavia, o entretenimento tem caminhos tortos impossíveis de se entender em sua totalidade, e a mesma sorte que leva um seriado com temas da ordem do dia – como redes sociais, por exemplo -, ao fracasso, pode fazer do tema do xadrez, cuja forma atual surgiu no século XV, um sucesso. E são vários os motivos que fazem de O gambito da rainha a excelente obra que é.

Para começar, temos nossa jovem e talentosa protagonista. Anya Taylor-Joy soube dar peso suficiente a sua personagem pata torná-la memorável e, em certa medida, um exemplo a ser seguido (pode ser que você sinta vontade de aprender xadrez quando terminar de assistir aos episódios). Beth equilibra sua genialidade de um lado, com vícios como droga e alcoolismo, e defeitos do outro, lidando ainda (e muito bem!) com o fato de ser uma mulher inteligente e bonita num mundo dominado pelos homens. Tudo isso a torna tão complexa como o jogo que domina.

Beth é a peça mais importante, o centro, a rainha do mundo criado por Scott em sete episódios que representam as sete casas que um peão deve percorrer para se tornar uma rainha. Apesar de órfã, ela vai, gradativamente, encontrando as pessoas que farão parte de sua “corte” enxadrista, cada uma delas assumindo posição no tabuleiro de sua vida. Fico fortemente inclinada a encarar Benny (Thomas Brodie-Sangster), com seu chapéu e casaco longo como o bispo da garota, os gêmeos Matt e Mike (Matthew e Russell Dennis Lewis) como suas torres fortes e robustas e Townes (Jacob Fortune-Lloyd) uma espécie de cavaleiro branco. Percebam todo o simbolismo ligado ao xadrez contido até mesmo no figurino da série (que vai desde a garota vestida como um simples peão, até a mulher vestida como uma rainha) e perceberão com que genialidade Scott tratou de outro gênio.

Ademais, tudo se torna ainda mais interessante quando nos damos conta de que o xadrez deixou de ser somente um jogo há muito tempo, tornando-se também um esporte muito ligado à psicologia. Ser enxadrista por si só já diz muito sobre uma pessoa e geralmente a definição está ligada a uma mente mais analítica, boa memória fotográfica e a capacidade de reconhecer padrões. Tal fato é sutilmente representado nos papeis de parede da casa de Betty, com estampas cheias de padrões, mas coloridas para contrastar com as cores neutras do tabuleiro. O cabelo ruivo, geralmente ligado à ideia de sensualidade, também é um detalhe muito bem colocado para mostrar que Betty, apesar de sua mente poderosa, não é um computador, mas sim uma mulher (e sexy).

Outro detalhe que chama atenção, é o completo paradoxo que se forma entre a vida desregrada e invejada da protagonista (ainda mais se comparada com as antigas colegas de escola que olhavam torto para ela), com a precisão e dedicação necessária para ser um enxadrista. De alguma forma, Beth consegue conciliar as duas coisas, uma personagem incrível de se analisar.

Sendo assim, com reis, rainhas, peões, torres, cavalos e bispos, O gambito da rainha é sem dúvida alguma um dos tesouros da Netflix, que fez bonito no finalzinho do ano passado, fechando 2020, para utilizar um termo da própria narrativa, com um xeque-mate.

Publicado originalmente em O Cinema é

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