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Crítica | Por Trás de Seus Olhos

21/02/2021 19:45:52

Série arrebatadora da Netflix testa sua capacidade de observação.

Por Trás de Seus Olhos Louise na Janela

Spoiler alert!

Desde o último trimestre do ano passado a Netflix vem apresentando uma sequência de séries excelentes das quais Por trás de seus olhos (Behind her eyes), do criador Steve Lightfoot, agora faz parte, aumentando e engrandecendo a qualidade do catálogo do streamer. Porém dessa vez, em relação a essa obra, opto por fazer uma crítica com spoilers, para torná-la um pouco mais completa.

A história segue Louise (Simona Brown), mãe solteira que possui um trabalho de meio período em uma clínica psiquiátrica. Tudo começa quando, numa noite qualquer, ela conhece David (Tom Bateman) um estranho com quem conversa e acaba trocando um beijo. No dia seguinte, ela descobre que ele é seu novo chefe e a situação se complica ainda mais quando a mulher dele, Adele (Eve Hewson), também se aproxima e uma inusitada amizade tem início.

O sucesso de uma obra nunca é à toa, e Por trás de seus olhos não é exceção. A minissérie de seis episódios baseada no romance de Sarah Pinborough possui um roteiro intrigante que cumpre o primeiro requisito de um bom trabalho para TV: prender o espectador desde os primeiros momentos e, depois, não deixar a qualidade ou o interesse diminuírem.

O clima de mistério que começa a envolver o triângulo amoroso composto por Louise, David e Adele é extremamente bem construído, com dicas sutilmente colocadas e interpostas na sequência de eventos, e os personagens intrigantes completam o belo trabalho que foi feito, especialmente levando em conta a atuação excepcional de Eve Hewson, que nos imprime vários tipos de sentimentos paradoxais.

Quem diria, no entanto, que a urdidura dessa maravilhosa tapeçaria que foi tecida não seria, no entanto, nenhum dos três nomes principais citados acima, mas sim Rob (Robert Aramayo), uma figura que aparece discretamente e vai ganhando espaço durante os flashbacks de Adele, um homem estranho e sorrateiro que se aproveita da ingenuidade de uma garota frágil para armar uma complexa e talvez sinistra história de amor.

E eu só conseguia pensar em Behind blue eyes, canção do The who que ,coincidentemente ou não, parece ser a sinopse da série, não só pela semelhança com seu título em inglês (Behind Her Eyes) mas também pelo conteúdo dos seus versos, dos quais agora faço uso em uma tradução livre.

“Ninguém sabe como é ser o homem o mau, o homem triste por trás de olhos azuis” diz a letra. Seria Rob esse homem?, uma pessoa triste que odiava a vida regada a drogas que levava e que encontrou algum tipo de consolo em Adele, a garota bonita de olhos azuis que conheceu no manicômio? Seria ele esse homem mau que, movido pela inveja, não teve escrúpulos em matá-la mais tarde?

“Ninguém sabe como é ser odiado, ser destinado a contar apenas mentiras”, continua o The Who. Seria Rob esse homem?, que além de odiar, também era odiado pela única pessoa da família que lhe restava – sua irmã – e também pela sociedade a seu redor, sendo obrigado a mentir até para si mesmo para sobreviver?

“Mas meus sonhos, eles não são tão vazios como minha consciência parece ser”, nos conta o começo do refrão da música. E que sonhos Rob tinha!, capazes de elevar a consciência a um nível extracorpóreo, cheio de experiências magníficas que transcendiam sua própria existência, sua própria consciência vazia e viciada… Até a garota de olhos azuis aparecer, tornando-os realidade, ainda que distorcida. Ela parecia entender, parecia aceitar. Ela parecia ser como ele, mas não era. Um único detalhe os diferenciava: Adele era capaz de amar, era apaixonada e tinha muita certeza desse amor. Rob, por outro lado só conhecera o desprezo e o ódio.

“Eu tenho horas só de solidão, meu amor é vingança que nunca é livre”, fecha o refrão, confirmando minhas palavras anteriores, reforçando a índole, o caráter, a essência de Rob. Ele queria vingança pela injustiça do mundo, por ser um homem fraco em flagrante contraste com noivo de sua querida garota de olhos azuis. David não era só lindíssimo, mas forte, bem sucedido, inteligente… e também completamente apaixonado por Adele, um sentimento que Rob não conhecia e queria que fosse direcionado a ele.

“Ninguém sabe como é sentir esses sentimentos como eu sinto, e eu te culpo”. E Rob culpa Adele por ser tão perfeita, por ter recursos e principalmente por ser o alvo livre da paixão do homem a quem ele julga ser a própria perfeição. Ele achou que ela sabia como ele se sentia, mas ela não sabia, não tinha como saber.

“Ninguém morde de volta tão forte em sua raiva, nenhuma das minhas dores e desgostos podem transparecer”, continua a música. E Rob mordeu forte. Rob matou Adele em sua raiva invejosa e se escondeu, porque suas dores e desgostos não podiam transparecer. Então, usando seu poder transcendental, ele se esconde por trás da garota, se esconde por trás dos olhos dela, se esconde por trás de olhos azuis.

Eis então o conteúdo complexo da história de Lightfoot contada através do The Who. Porém não é só nisso que a série se destaca. As escolhas estilísticas feitas pelo showrunner também revelam a intensidade de sua obra, como o fato de Adele usar praticamente sempre o branco quando está na presença de David e praticamente sempre o negro quando está na presença de Louise, ou a luz mais forte dos flashbacks e dos sonhos bons que prometiam algo melhor do que as cores mais esmaecidas do futuro que se apresentou.

E o fechamento… Quem diria! Nada daquele conhecido e idealizado happy end. Tinha que ser assim e, como eu disse antes, Lightfoot manteve a coerência até o fim. O que há Por trás de seus olhos? Teria sido melhor para Louise não descobrir a alma escura que existia além das cálidas íris azuis que Hewson emprestou à sua personagem. Porém para nós, o público, foi tudo de bom.

Publicado originalmente em O Cinema é

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