Blog O cinema é

Crítica | Yojimbo, O Guarda Costas

01/07/2021 12:03:04

Uma das joias das artes humanas.

Yojimbo Destaque
Yojimbo / 1961 @ Divulgação Sinny Assessoria e Comunicação

Não é novidade para ninguém que o cinema japonês é um dos melhores e mais celebrados que existem. Seu estilo próprio é realmente fascinante para quem se aventura a conhecê-lo, já que a cinematografia oriental não é tão difundida quanto merecia aqui no Oeste. Nomes como Yasujirô Ozu, Kenji Mizoguchi, Mikio Naruse e Akira Kurosawa, no entanto, são bastante conhecidos para quem tem uma noção maior do meio, mestres da sétima arte tanto quanto aqueles que nos são mais familiares, como John Ford, Alfred Hitchcock e Martin Scorsese. E foi em John Ford e seu famoso estilo western que Akira Kurosawa se inspirou para criar uma de suas maiores obras, Yojimbo, o guarda-costas (Yojinbo, 1961).

Infelizmente, para entender o impacto desse filme não só no Japão mas em todo o cenário mundial, é preciso saber um mínimo da história daquele país, sendo que o pouco conhecimento que temos dela demonstra mais uma lacuna em nossa educação ocidental. Dessa forma, o enredo de Yojimbo se passa na década de 1860, época em que o Japão, pressionado pelos Estados Unidos, começava a sair da política isolacionista que mantinha o país paralisado em uma sociedade feudal e iniciava a abertura de sua economia. Nesse contexto, a classe dos samurais, antes tão considerada na hierarquia social japonesa, começava a perder espaço para outras, como a dos mercadores e, portanto, esses habilidosos lutadores tiveram que buscar outras formas de sobreviver. Muitos se voltaram para o crime e outros tornaram-se guarda-costas dos capitalistas em rápida ascensão. E esse é o caso do protagonista da película em análise (Toshirô Mifune), o samurai que se autodenomina “Sanjuro Kuwabatake “, nome que ele obviamente inventou, quando questionado, ao olhar para um campo de amoreiras perto da cidade, constituindo-se, assim, em um dos primeiros exemplos dos curiosos “Homem Sem Nome” do cinema.

Sendo assim, em todos os aspectos do filme Kurosawa destila sua genialidade, principalmente na técnica precisa e aguçada da linguagem cinematográfica que ele prova dominar e que estão presentes nas transições e cortes das cenas, na profundidade de campo que ele utiliza, na bela fotografia preta e branca e assim por diante. Em Yojimbo, no entanto, destaca-se a trilha sonora – uma das melhores que já ouvi, para ser sincera – sendo a música praticamente um dos personagens da película, sempre presente e pontual.

É brilhante também a forma como o diretor retrata seu protagonista, um homem misterioso de poucas palavras que chega meio sem rumo a uma pequena cidade tomada pelo caos onde duas facções brigam pelo poder. Sanjuro é marcado por características e trejeitos próprios e posso citar aqui a contração dos ombros e o roçar dos dedos no queixo que lhe dão muita personalidade, enquanto grande parte dos outros personagens, que chegam a ser caricaturais, possuem uma pegada mais cômica. Interessante notar também como ele, na maior parte do tempo, funciona mais como um observador ativo de toda a movimentação que está acontecendo do que como parte dela.

Sendo assim, o tema da obra de Kurosawa, que é a restruturação da sociedade, é bem claro durante os quase cento e vinte minutos de filme, mas o que mais impressiona é a maneira eficiente que ele ilustra a violência com que essa reestruturação se deu, e ele o fez através de pouquíssimas cenas de ação. Por isso, Yojimbo é quase tão contemplativo quanto Sanjuro e a própria cultura japonesa.

Como dito, Kurosawa foi influenciado pelo western do americano John Ford, colocando no filme sua própria identidade e seu toque oriental, como não poderia deixar de ser. O trabalho do diretor japonês, por sua vez, influenciou o italiano Sergio Leone – mais precisamente sua famosa Trilogia dos Dólares -, cada um criando obras únicas e espetaculares da sétima arte e assim, tecendo o melhor do cinema.

Portanto, para os entusiastas do audiovisual e o bom apreciador de filmes, Yojimbo é imperdível, mesmo que o estilo não seja o seu preferido e a dinâmica do enredo não seja a mais rápida, uma daquelas artes atemporais que estarão para sempre entre as joias da humanidade. Vale a conferida.

Publicado originalmente em O Cinema é
O Cinema é

Comentários