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O mito ideológico já briga a socos até em sala de aula

09/08/2019 10:28:39
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Por Jacques Távora Alfonsin

No dia 23 de julho passado, um aluno e uma aluna, adolescentes estudantes no Colégio Rosário, se envolveram numa briga motivada por um vídeo exibido em aula de sociologia, que criticava a violência policial quando esta “acentua o funcionamento das instituições de modo desigual”, conforme notícia publicada em ZH de 6 deste agosto.

Pais e apoiadores do grupo “Escola sem doutrinação” realizaram um protesto no dia anterior ao desta notícia,  portanto faixas como “Marista sim! Marxista não!”, “Mais Champagnat! Menos Frei Betto e Leonardo Boff”. Distribuíram um documento para  denunciar o que denominam “abordagem de assuntos alheios ao plano de ensino  e ao currículo para fortalecer uma agenda que não é a nossa” (!).

Então, deve-se concluir que só uma agenda “nossa” deve ser estudada, debatida ou até imposta? Só ela deve pautar qualquer  ensino e currículo”? quem sabe apenas a dos colégios militares? Será que mesmo essa também não corre nem um risco de ser “contaminada ideologicamente”, por exemplo, para não temer que toda a verdade sobre o que aconteceu ao país  e seu povo em 1964 não permaneça enterrada, sob dúvidas tão pesadas como as que ainda sepultam gente nossa (!) até hoje sem se saber onde está?

Essas perguntas bastam para inquirir o grupo de protesto reunido na frente do Colégio Rosário sobre se  não conhece ou não quer saber do poder das ideologias de enganar as pessoas, escondendo a verdade segundo conveniências de ocasião, introjetadas por vezes até no inconsciente das pessoas. “Mito”, como gritam os seguidores do presidente, mostrando sua admiração por tudo o que ele pensa, acusa, condena com raiva e palavrões, é uma palavra com mais de um sentido e muito adequada para advertir aquele grupo.

Fantasia, falsidade, mentira também servem de sinônimos  para essa palavra. Se a briga entre estudantes do Colégio Rosário teve origem neste “mito” –  o grupo de protesto parece bem identificado com ele – deveria pensar no que disse a presidente da Associação Mães e Pais pela Democracia, socióloga Aline Kerber, também ela “mãe de um aluno da escola”, segundo a mesma notícia da Zero Hora: “…ressalta que o vídeo exibido antes da briga se baseia em evidências científicas, trazendo questões importantes, e que isso precisa ser discutido em aula:” {…} “para que nossos filhos encontrem soluções que a nossa geração não encontrou.”

É curiosa a coincidência havida neste protesto do grupo Escola sem doutrinação,  entre os dizeres da  faixa levada contra Frei Betto e uma lembrança que ele faz, publicada no site Dom Total do mesmo dia 6, sobre o lema de campanha eleitoral  de Jair  Bolsonaro, retirado do Evangelho de São João onde Jesus Cristo prevenia que  “A verdade vos libertará.” Ao contrário do que o presidente tomava emprestado de Jesus Cristo, agora parece que a verdade precisa é de negação e de prisão, como o Frei ironiza em seguida: “Não tem como negar a verdade  do que revela o furo jornalístico de Glenn Greenwald, premiado nos EUA por revelar ações clandestinas e ilegais do governo estadunidense. Aqui, ele é ameaçado de prisão pelo governo brasileiro.”

O “mito” que costuma acusar e condenar, portanto, agora parece temeroso de ter de provar do próprio veneno, e não sem razão, pois isso pode “demitizar” o seu poder, levando mais água para o moinho da sua desmoralização, como demonstra uma lição antiga de Paul Ricoeur:

“Parece, com efeito, que a questão da acusação –  mais precisamente da instância acusadora –  é adequada para fazer aparecer a dupla função da demitização (palavra grifada pelo autor). De um lado, demitizar é reconhecer o mito como mito, mas a fim de a ele renunciar. Nesse sentido deve-se falar de desmistificação. O móvel dessa renúncia é a conquista de um pensamento e de uma vontade desalienadas” {…} “O móvel dessa descoberta é a conquista do poder revelador que o mito dissimula sob a máscara da objetivação.” (do livro “Conflito das interpretações. Ensaios de hermenêutica”, Rio de Janeiro: Imago Editora, 1978, p. 282).

Aí está. Uma briga entre adolescentes num colégio católico de Porto Alegre, que poderia ser considerada como um acontecimento próprio da sua idade, sinaliza bem mais do que isso. A partir da reação de seus pais e mães, é possível confirmar-se o diagnóstico de quem sabe mais do que a gente sobre o volume crescente das (des)razões que vêm nos dividindo. Isso de se achar, como dizia o professor Ovídio de Araujo Batista, de que “os ideólogos são sempre os outros”, assim nos considerando sempre isentos de qualquer dúvida sobre nossas certezas, não vai nos deixar só lamentando brigas em sala de aula. As/os mártires de 1964 que o confirmem.

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Por Jacques Távora Alfonsin

No dia 23 de julho passado, um aluno e uma aluna, adolescentes estudantes no Colégio Rosário, se envolveram numa briga motivada por um vídeo exibido em aula de sociologia, que criticava a violência policial quando esta “acentua o funcionamento das instituições de modo desigual”, conforme notícia publicada em ZH de 6 deste agosto.

Pais e apoiadores do grupo “Escola sem doutrinação” realizaram um protesto no dia anterior ao desta notícia,  portanto faixas como “Marista sim! Marxista não!”, “Mais Champagnat! Menos Frei Betto e Leonardo Boff”. Distribuíram um documento para  denunciar o que denominam “abordagem de assuntos alheios ao plano de ensino  e ao currículo para fortalecer uma agenda que não é a nossa” (!).

Então, deve-se concluir que só uma agenda “nossa” deve ser estudada, debatida ou até imposta? Só ela deve pautar qualquer  ensino e currículo”? quem sabe apenas a dos colégios militares? Será que mesmo essa também não corre nem um risco de ser “contaminada ideologicamente”, por exemplo, para não temer que toda a verdade sobre o que aconteceu ao país  e seu povo em 1964 não permaneça enterrada, sob dúvidas tão pesadas como as que ainda sepultam gente nossa (!) até hoje sem se saber onde está?

Essas perguntas bastam para inquirir o grupo de protesto reunido na frente do Colégio Rosário sobre se  não conhece ou não quer saber do poder das ideologias de enganar as pessoas, escondendo a verdade segundo conveniências de ocasião, introjetadas por vezes até no inconsciente das pessoas. “Mito”, como gritam os seguidores do presidente, mostrando sua admiração por tudo o que ele pensa, acusa, condena com raiva e palavrões, é uma palavra com mais de um sentido e muito adequada para advertir aquele grupo.

Fantasia, falsidade, mentira também servem de sinônimos  para essa palavra. Se a briga entre estudantes do Colégio Rosário teve origem neste “mito” –  o grupo de protesto parece bem identificado com ele – deveria pensar no que disse a presidente da Associação Mães e Pais pela Democracia, socióloga Aline Kerber, também ela “mãe de um aluno da escola”, segundo a mesma notícia da Zero Hora: “…ressalta que o vídeo exibido antes da briga se baseia em evidências científicas, trazendo questões importantes, e que isso precisa ser discutido em aula:” {…} “para que nossos filhos encontrem soluções que a nossa geração não encontrou.”

É curiosa a coincidência havida neste protesto do grupo Escola sem doutrinação,  entre os dizeres da  faixa levada contra Frei Betto e uma lembrança que ele faz, publicada no site Dom Total do mesmo dia 6, sobre o lema de campanha eleitoral  de Jair  Bolsonaro, retirado do Evangelho de São João onde Jesus Cristo prevenia que  “A verdade vos libertará.” Ao contrário do que o presidente tomava emprestado de Jesus Cristo, agora parece que a verdade precisa é de negação e de prisão, como o Frei ironiza em seguida: “Não tem como negar a verdade  do que revela o furo jornalístico de Glenn Greenwald, premiado nos EUA por revelar ações clandestinas e ilegais do governo estadunidense. Aqui, ele é ameaçado de prisão pelo governo brasileiro.”

O “mito” que costuma acusar e condenar, portanto, agora parece temeroso de ter de provar do próprio veneno, e não sem razão, pois isso pode “demitizar” o seu poder, levando mais água para o moinho da sua desmoralização, como demonstra uma lição antiga de Paul Ricoeur:

“Parece, com efeito, que a questão da acusação –  mais precisamente da instância acusadora –  é adequada para fazer aparecer a dupla função da demitização (palavra grifada pelo autor). De um lado, demitizar é reconhecer o mito como mito, mas a fim de a ele renunciar. Nesse sentido deve-se falar de desmistificação. O móvel dessa renúncia é a conquista de um pensamento e de uma vontade desalienadas” {…} “O móvel dessa descoberta é a conquista do poder revelador que o mito dissimula sob a máscara da objetivação.” (do livro “Conflito das interpretações. Ensaios de hermenêutica”, Rio de Janeiro: Imago Editora, 1978, p. 282).

Aí está. Uma briga entre adolescentes num colégio católico de Porto Alegre, que poderia ser considerada como um acontecimento próprio da sua idade, sinaliza bem mais do que isso. A partir da reação de seus pais e mães, é possível confirmar-se o diagnóstico de quem sabe mais do que a gente sobre o volume crescente das (des)razões que vêm nos dividindo. Isso de se achar, como dizia o professor Ovídio de Araujo Batista, de que “os ideólogos são sempre os outros”, assim nos considerando sempre isentos de qualquer dúvida sobre nossas certezas, não vai nos deixar só lamentando brigas em sala de aula. As/os mártires de 1964 que o confirmem.

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