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O que prova o ódio contra artistas no festival de cinema de Gramado

27/08/2019 17:56:47

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Por Jacques Távora Alfonsin

As pedras de gelo lançadas por defensores do presidente Bolsonaro contra os artistas que participaram do Festival de cinema de Gramado este ano, não podem ser consideradas como um episódio isolado. Elas se juntam ao gelado clima de ódio que vem dividindo a sociedade brasileira desde janeiro de 2019.

Durante o festival, como noticiou a ZH de sexta-feira passada, não houve dia em que não se ouvissem críticas às medidas de intervenção que o presidente vem tomando contra produções cinematográficas. Allan Deberton, diretor do audiovisual Picarrete, por exemplo, foi enfático: “Está instaurada a censura. Além do presidente ser homofóbico como demonstrou ser e racista com as questões que levaram ele a colocar no saco as produções nacionais  que foram aprovadas no edital de TVs públicas, isso configura desrespeito à classe, preconceito nato.”

Um grupo grande de fanáticas/os e celeradas/os, fiel ao discurso do presidente, não se conforma com opiniões ou protestos contrários às suas convicções, tenham elas a legitimidade democrática que tiverem. Tomou as dores do chefe e partiu para uma reação violenta, como mesmo jornal noticiou na sua edição desta segunda feira, na opinião da produtora e diretora de arte Maira Carvalho:

“Ao longo desta semana, nós articulamos uma Carta de Gramado assinada por 63 entidades contra esse desmonte das políticas públicas para a cultura. Esta manifestação deveria fechar a mobilização, mas quando passamos, as pessoas começaram a urrar “Viva o Mito”, “Viva Bolsonaro” e a nos chamar de vagabundos e jogar coisas em nós, restos de comida e pedras de gelo. Nunca imaginei passar por isso.”

 Quando uma divergência de ordem política provoca este grau de animosidade – e o país tem assistido envergonhado a repetição de baixarias como esta – urge questionarem-se os motivos causadores e os efeitos daí  decorrentes. Sobre as causas, a forte influência do posicionamento político-ideológico do presidente em defesa do uso de violência e de armas, como se isso constitua hipótese normal e corriqueira de relacionamento humano,  parece um fator indiscutível. Sobre os efeitos, já é mais do que provável o recrudescimento do ódio presente no tipo de agressão verificado em Gramado, pela simples razão de que a curva visivelmente descendente da fama presidencial junto a sociedade vai mexer com o orgulho e os brios de quem não quer admitir que foi enganado por ele.

Um engano trágico, admita-se, porque o “modelo de governo” por ele implantado tem como um dos seus principais fundamentos o uso de uma violência suficiente para criar a convicção coletiva de que precisa ser posto em execução “custe o que custar”, mesmo não bem escondida a hipótese de se ferir direitos alheios, entre esses os humanos. Consagrados na Constituição Federal de 1988 como fundamentais (artigos 5º e seguintes), não têm fundamentado nada, no dia a dia do povo, porque, para as/os seguidoras/es do presidente e boa parte de todo o Poder Público do país, não passam de coisa “coisa que apóia bandido”.

Pelo Brasil afora, pessoas como as agressoras dos artistas, responsáveis pela violência praticada no encerramento do Festival de cinema de Gramado, estão se sentindo autorizadas a defender as idéias próprias, com o uso da força e das armas, como se isso constituísse virtude cívica.

Essa não é realidade exclusiva do Brasil. Yuval Noah Harari, um filósofo e conhecido professor de historia, pós graduado pela Universidade de Oxford, em uma das suas obras “21 lições para o século 21”, surpreende leitoras/es pelo elogio de uma virtude óbvia, atualmente objeto até de deboche por quem só acredita no poder da força e da violência para solucionar conflitos humanos  presentes no convívio humano privado e público. No capítulo intitulado “Guerra. Nunca subestime a estupidez humana”, este professor  ensina e depois pergunta:

“Um remédio potencial para a estupidez é uma dose de humildade. Tensões nacionais, religiosas e culturais são agravadas pelo sentimento grandioso de que minha nação, minha religião e minha cultura são as mais importantes do mundo –  por isso meus interesses vêm antes dos interesses de qualquer outra pessoa, ou da humanidade como um todo. O que poderemos fazer para que nações, religiões e culturas sejam um pouco mais realistas e modestas quanto a seu verdadeiro lugar no mundo”? (S.Paulo: Cia. das letras, p. 226-27).

Sua resposta aparece no final do capítulo seguinte que tem por título “Humildade. Você não é o centro do mundo”. É como se Harari estivesse retratando os desvios aberrantes da pregação da virtude, da religião, da pregação “em nome de Deus”, como faz o presidente Bolsonaro e seus seguidores, para sustentar como legitimas as funestas conseqüências que isso já provou acontecer no passado:

 “Muitas religiões louvam o valor da humildade –  mas imaginam ser a coisa mais importante do universo. Misturam chamados para uma humildade pessoal com uma flagrante arrogância coletiva. Humanos de todos os credos fariam bem em levar esse valor mais a sério. E, entre todas as formas de humildade, talvez a mais importante seja aquela perante Deus. Sempre que falam de Deus, humanos professam uma abjeta humildade, mas depois usam o nome de Deus para serem prepotentes com os seus irmãos.”

Qualificar de abjeta uma virtude é o mesmo que identificá-la com pernicioso vício, mas é exatamente isso que vem sendo inculcado oficialmente no povo pelo governo da nossa infeliz República. Se o presidente se arroga poderes que constitucionalmente ele não tem, seus discípulos não vêm razão para não fazer o mesmo. Mesmo que ele recue quase diariamente de planos e ações antecipadamente dados como certos, isso não importa para quem lhe segue o mau exemplo.

Contra a sua política de perseguição das/os pobres, dos direitos sociais, da grossura com que trata a cultura e a arte, de desrespeito da natureza e do meio ambiente, a resistência popular contra os seus desmandos pode e deve encontrar apoio e poder em tudo quanto lhe falta de sensibilidade social e civilidade. Existe base teórica e prática virtuosa para a “luta contra a morte da luz”:

“Como nossos ancestrais, devemos aceitar com humildade a grandiosidade da nossa missão. É nossa veneração pelo saber, nossa busca por sentido, que liga o nosso passado ao nosso presente e que nos propele e direção ao futuro, seduzidos pela beleza oculta do desconhecido, Vamos abraçar nossa imperfeição, incompletude do saber, celebrando nossa compulsão para ampliar a Ilha do Conhecimento, trazendo um pouco mais de luz para iluminar o caminho adiante. Lutar contra a morte da luz; continuar a brilhar, é isso que importa. É para isso que estamos aqui” (GLEISER, Marcelo. “A ilha do conhecimento. Os limites da ciência e a busca por sentido. Rio de Janeiro:Record, 2018, p. 320).

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