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Um grito de protesto contra a surdez da opressão e da repressão

05/09/2019 13:40:01
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Por Jacques Alfonsin

Desde 1995, um grupo de brasileiras/os cristãs/os, a cada 7 de setembro, realiza um desfile em todo o país muito diferente do militar. É o “grito dos excluídos”, gente que, passados quase dois séculos desde aquele outro grito de “independência ou morte” ficou sem a primeira, e quando sobrevive à segunda, vive a beira dela.

É esta grande multidão que recebe apoio do “grito”, denunciando as causas e tornando conhecidos os efeitos da injustiça social que a mantém  excluída do gozo e do exercício efetivo dos seus direitos, especialmente os sociais. Sob o lema deste ano “Este sistema não vale. Lutamos por Justiça, Direitos e Liberdade”, o grito vai desfilar, como já ocorreu em anos passados, com um contingente e com uma postura bem diferente da que exibe os desfiles militares. A inspiração de agora é outra, A manifestação ganhou um impulso místico e político extraordinário com as queimadas criminosas da Amazônia e com as declarações públicas dos governos de outros países, responsabilizando o do Brasil pelo que lá vem acontecendo, desde muito tempo, sem consideração e controle compatíveis com a gravidade do problema, que afeta diretamente a natureza e o meio ambiente do planeta todo.

Como o Vaticano já aprovara um documento preparatório do Sínodo Especial para a Amazônia, que vai se realizar entre 6 e 27 de outubro próximo, ao “Grito dos excluídos” deste ano veio se somar ainda outra crítica, esta a dos próprios bispos que estão preparando o sínodo, diante da acusação partida do Planalto, de que lá estaria se armando oposição política criminosa ao governo. Uma carta publicada por eles, a respeito disso,  recebeu crítica aguda de um general, conforme noticiou o Estadão de 31 de agosto:

“Ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no governo Fernando Henrique Cardoso, o general da reserva Alberto Cardoso contestou o tom da carta dos religiosos. Segundo o general – que não faz parte do atual governo, mas é voz influente entre os militares -, os integrantes da Igreja “estão sendo criminalizados pelas atitudes deles de tentar interferir em questões da soberania”. Para o ex-ministro, o grupo que trabalha no Sínodo da Amazônia apresenta como uma das metas da Igreja “uma nova ordem social e política” e “isso não é papel da Igreja, que tem como papel fazer orientação espiritual aos seus fiéis”.

Ao pretender dar essa lição de política e teologia para os bispos que preparam o sínodo da Amazônia, o general passou um atestado de quádruplo efeito sobre a parvoíce do que falou: o primeiro, da sua completa ignorância do que seja a missão evangélica e pastoral dos bispos, a profunda relação que a fé em Jesus Cristo tem com a política; o segundo de ele também não entender nada do que possa ser a proposta de “uma nova ordem social e política”; o terceiro, de essa proposta ferir a soberania do país, e o quarto, de o papel da Igreja ficar restrito à “orientação espiritual” dos fiéis.

Por maior respeito que mereçam opiniões de autoridades públicas ou já depois de, como no caso dos militares, não se encontrarem na “reserva”, teria sido bem melhor que o general preferisse permanecesse aí, na reserva… e quieto.  A começar pelo fato de, ínfima que seja a fidelidade a Jesus Cristo, que qualquer bispo guarde, a de “pastor do rebanho” é a de tomar partido em defesa das suas ovelhas, como Ele mesmo advertiu:

“Eu sou o bom pastor. O bom pastor expõe a sua vida pelas ovelhas. O mercenário, porém, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, quando vê que o lobo vem vindo abandona as ovelhas e foge; o lobo rouba e dispersa as ovelhas. O mercenário, porém, foge porque é mercenário e não se importa com as ovelhas. Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem a mim. Como o meu Pai me conhece e eu conheço o Pai. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas” (Evangelho de São João, 10, 11-15).

Quem está defendendo a preservação da natureza, a vida das “ovelhas” e da Amazônia legal inteira, atualmente, são os bispos ou é esse (des)governo, com as políticas de meio-ambiente e exploração mercenária da terra? De qual soberania e de qual nova ordem social se queixa o general dessa preparação do sínodo feita pelos bispos? Será preciso queimar o território da Amazônia inteira para ele enxergar que a soberania de qualquer Estado não pode servir de explicação para matar (!) a vida da fauna, da flora, das águas e até a dos povos originários que lá vivem? Se isso que está acontecendo na Amazônia agora é uma “ordem social”, que explora, depreda, desmata, envenena um território do qual a vida do planeta inteiro depende, da forma como o general Alberto Cardoso a defende, toda a resistência contra ela, toda a desobediência civil, toda a rebeldia que a impugne e a subverta está legitimada, pois essa ordem é idêntica a do lobo mercenário de que fala Jesus Cristo.

Se Este fosse vivo e o general Alberto Cardoso estivesse na ativa, certamente já teria feito o que fizeram as autoridades religiosas e políticas do tempo em que Ele vivia, do mesmo modo como fez a ditadura militar covardemente contra quem ousou contrariá-la: mandaria prendê-lo, tortura-lo e depois assassiná-lo.

 Daí a oportuna e mais do que justificada manifestação pública do grito das/os excluídas/os, este ano com um lema sensível aos “sinais dos tempos” que a população brasileira assiste atônita: “Este sistema não vale. Lutamos por Justiça, Direitos e Liberdade”. Aí se encontra uma Igreja que orienta espiritualmente sim os seus fiéis, mas não do modo restrito, tacanho e alienado, como o general Alberto Cardoso pensa seja a missão dela.

 Bem como Jesus Cristo também gritou e agiu, não precisando de lembrança para isso as Bem Aventuranças, a condenação do poder religioso e político da época como dominado por “escribas e fariseus hipócritas”, a expulsão violenta dos vendilhões do templo. Aí se encontra um exemplo da verdadeira, da autêntica “orientação espiritual” que o general desconhece. O que ele quer é uma Igreja tão alienada e servil como a de um governo que precisa mandar um filho do presidente para ouvir bem e servir sem hesitação uma potência externa que lhe supra, pela força das armas e do dinheiro, tudo quanto lhe falta em legitimidade.

Este sistema não vale. Lutamos por Justiça, Direitos e Liberdade.

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Por Jacques Alfonsin

Desde 1995, um grupo de brasileiras/os cristãs/os, a cada 7 de setembro, realiza um desfile em todo o país muito diferente do militar. É o “grito dos excluídos”, gente que, passados quase dois séculos desde aquele outro grito de “independência ou morte” ficou sem a primeira, e quando sobrevive à segunda, vive a beira dela.

É esta grande multidão que recebe apoio do “grito”, denunciando as causas e tornando conhecidos os efeitos da injustiça social que a mantém  excluída do gozo e do exercício efetivo dos seus direitos, especialmente os sociais. Sob o lema deste ano “Este sistema não vale. Lutamos por Justiça, Direitos e Liberdade”, o grito vai desfilar, como já ocorreu em anos passados, com um contingente e com uma postura bem diferente da que exibe os desfiles militares. A inspiração de agora é outra, A manifestação ganhou um impulso místico e político extraordinário com as queimadas criminosas da Amazônia e com as declarações públicas dos governos de outros países, responsabilizando o do Brasil pelo que lá vem acontecendo, desde muito tempo, sem consideração e controle compatíveis com a gravidade do problema, que afeta diretamente a natureza e o meio ambiente do planeta todo.

Como o Vaticano já aprovara um documento preparatório do Sínodo Especial para a Amazônia, que vai se realizar entre 6 e 27 de outubro próximo, ao “Grito dos excluídos” deste ano veio se somar ainda outra crítica, esta a dos próprios bispos que estão preparando o sínodo, diante da acusação partida do Planalto, de que lá estaria se armando oposição política criminosa ao governo. Uma carta publicada por eles, a respeito disso,  recebeu crítica aguda de um general, conforme noticiou o Estadão de 31 de agosto:

“Ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no governo Fernando Henrique Cardoso, o general da reserva Alberto Cardoso contestou o tom da carta dos religiosos. Segundo o general – que não faz parte do atual governo, mas é voz influente entre os militares -, os integrantes da Igreja “estão sendo criminalizados pelas atitudes deles de tentar interferir em questões da soberania”. Para o ex-ministro, o grupo que trabalha no Sínodo da Amazônia apresenta como uma das metas da Igreja “uma nova ordem social e política” e “isso não é papel da Igreja, que tem como papel fazer orientação espiritual aos seus fiéis”.

Ao pretender dar essa lição de política e teologia para os bispos que preparam o sínodo da Amazônia, o general passou um atestado de quádruplo efeito sobre a parvoíce do que falou: o primeiro, da sua completa ignorância do que seja a missão evangélica e pastoral dos bispos, a profunda relação que a fé em Jesus Cristo tem com a política; o segundo de ele também não entender nada do que possa ser a proposta de “uma nova ordem social e política”; o terceiro, de essa proposta ferir a soberania do país, e o quarto, de o papel da Igreja ficar restrito à “orientação espiritual” dos fiéis.

Por maior respeito que mereçam opiniões de autoridades públicas ou já depois de, como no caso dos militares, não se encontrarem na “reserva”, teria sido bem melhor que o general preferisse permanecesse aí, na reserva… e quieto.  A começar pelo fato de, ínfima que seja a fidelidade a Jesus Cristo, que qualquer bispo guarde, a de “pastor do rebanho” é a de tomar partido em defesa das suas ovelhas, como Ele mesmo advertiu:

“Eu sou o bom pastor. O bom pastor expõe a sua vida pelas ovelhas. O mercenário, porém, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, quando vê que o lobo vem vindo abandona as ovelhas e foge; o lobo rouba e dispersa as ovelhas. O mercenário, porém, foge porque é mercenário e não se importa com as ovelhas. Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem a mim. Como o meu Pai me conhece e eu conheço o Pai. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas” (Evangelho de São João, 10, 11-15).

Quem está defendendo a preservação da natureza, a vida das “ovelhas” e da Amazônia legal inteira, atualmente, são os bispos ou é esse (des)governo, com as políticas de meio-ambiente e exploração mercenária da terra? De qual soberania e de qual nova ordem social se queixa o general dessa preparação do sínodo feita pelos bispos? Será preciso queimar o território da Amazônia inteira para ele enxergar que a soberania de qualquer Estado não pode servir de explicação para matar (!) a vida da fauna, da flora, das águas e até a dos povos originários que lá vivem? Se isso que está acontecendo na Amazônia agora é uma “ordem social”, que explora, depreda, desmata, envenena um território do qual a vida do planeta inteiro depende, da forma como o general Alberto Cardoso a defende, toda a resistência contra ela, toda a desobediência civil, toda a rebeldia que a impugne e a subverta está legitimada, pois essa ordem é idêntica a do lobo mercenário de que fala Jesus Cristo.

Se Este fosse vivo e o general Alberto Cardoso estivesse na ativa, certamente já teria feito o que fizeram as autoridades religiosas e políticas do tempo em que Ele vivia, do mesmo modo como fez a ditadura militar covardemente contra quem ousou contrariá-la: mandaria prendê-lo, tortura-lo e depois assassiná-lo.

 Daí a oportuna e mais do que justificada manifestação pública do grito das/os excluídas/os, este ano com um lema sensível aos “sinais dos tempos” que a população brasileira assiste atônita: “Este sistema não vale. Lutamos por Justiça, Direitos e Liberdade”. Aí se encontra uma Igreja que orienta espiritualmente sim os seus fiéis, mas não do modo restrito, tacanho e alienado, como o general Alberto Cardoso pensa seja a missão dela.

 Bem como Jesus Cristo também gritou e agiu, não precisando de lembrança para isso as Bem Aventuranças, a condenação do poder religioso e político da época como dominado por “escribas e fariseus hipócritas”, a expulsão violenta dos vendilhões do templo. Aí se encontra um exemplo da verdadeira, da autêntica “orientação espiritual” que o general desconhece. O que ele quer é uma Igreja tão alienada e servil como a de um governo que precisa mandar um filho do presidente para ouvir bem e servir sem hesitação uma potência externa que lhe supra, pela força das armas e do dinheiro, tudo quanto lhe falta em legitimidade.

Este sistema não vale. Lutamos por Justiça, Direitos e Liberdade.

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