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Do Natal armado e vendido ao sonho da fraternidade universal

24/12/2019 09:54:27

O Papa Francisco participa da audiência geral semanal no Vaticano,

Jacques Távora Alfonsin

A uma semana do fim de cada ano, certamente aproveitando o  significado inspirador do nascimento de Jesus Cristo, celebrado a cada 25 de dezembro, o Papa Paulo VI propôs, em 1967, a humanidade toda lembrasse o dia 1º de janeiro, como o “dia mundial da paz”.

Não sendo possível conquistar-se a paz sem justiça, há quem retire daquela proposta o desejo renovado de se buscar, a cada novo ano, a tão  sonhada “fraternidade universal”, uma forma de se efetivar uma convivência justa e pacífica, como é a que deve existir entre verdadeiros irmãos de uma única família humana.

O preâmbulo da nossa Constituição Federal é grandiloqüente e muito generoso sobre isso. Previu assegurar às/aos brasileiras/os “direitos sociais e individuais”, “a justiça, como valores supremos de uma sociedade fraterna…”, não sendo racional nem razoável interpretar-se tal segurança que não seja a de respeito a vida e a dignidade de todo o ser humano.

Tudo o que é necessário para tornar realidade uma utopia desta grandeza sofre oposição forte, baseada, em grande parte, tanto nos fins quanto nos meios para assegurar-se efetivada. O nascimento de Jesus Cristo lembrado em uma das datas mais festejadas em quase todo mundo, oferece uma oportunidade singular para se avaliar se os fins e os meios de todo o significado daquele nascimento ainda correspondem às suas referências significantes, permanecendo, ou não, válidos e eficazes.

No Brasil de hoje, por exemplo, já não é mais possível esconder-se o fato de que está instaurada uma crise de sentido ético-político desorientando por inteiro a direção das políticas públicas do governo federal. Ao contrário da sempre urgente e necessária tomada de iniciativa que procura defender os direitos sociais da população pobre, prefere-se  armar a população da classe média ou rica para generalizar como bandida qualquer pessoa ou organização de classe carente das garantias daqueles direitos.

Dar de presente de natal um revolver, imitando um gesto típico do presidente Bolsonaro, nessa histeria coletiva que tomou conta da parte da população já cercada de muros, guaritas, cachorros ferozes, será visto como um gesto de bom gosto, inclusive por muita gente que se proclama “cristã” mas, no natal, se veste de papai Noel, como se o Menino Jesus fosse coisa do passado.

Os presépios daqui, das favelas, dos cortiços, das encostas dos morros, dos alagadiços, dos acampamentos rurais e urbanos –  iguais ou até piores do que o do lugar que acolheu José, Maria e o Menino Jesus – estão  sob sério risco de remoção violenta, sem nenhuma certeza de destino futuro, sob o novo paradigma de desrespeito à vida, à liberdade, à dignidade e à cidadania de quem não tem terra, teto e trabalho como tem repetido o Papa Francisco.

Como aconteceu com Herodes, o Poder Público (?) brasileiro receia que o Menino vá executar mesmo o seu plano subversivo de construir um novo “reino”, uma revolucionária mudança de política, de moral, de costumes, onde a justiça não depende do dinheiro, da lei, dos tribunais e das cadeias, a terra é partilhada de tal forma que sustenta e dá abrigo a todas/os e não só às/aos poucas/os que a envenenam, tratam-na como se fosse mercadoria qualquer; quem manda, nesse novo modelo, não manda para dominar e sim para servir.

Ora, para o “direito” vigente, isso constitui uma invasão inadmissível. É preciso despejar essa família, ainda considerada sagrada por alguns ignorantes. Ela está ocupando um espaço que pode render dinheiro, entrar no mercado, ser utilizado para a compra e venda, que o natal do modelo pretendido pelo Menino está atrapalhando.

Não se sabe se esse espírito belicoso, endinheirado, armado, ainda está presente nos quartéis como estava em 1964, nem se, lá, os portais ainda advertem, em latim, Si vis pacem para bellum (Se queres a paz prepara a guerra). Em sentido bem contrário, para o Menino aniversariante neste fim de ano, e para uma celebração digna do primeiro de janeiro da 2020, o que vale mesmo é o amor que inspirou outro lema Opus justitiae pax (A obra da justiça é a paz).

Não seria demais, então, sugerir aos adeptos das escolas militares, hoje sob intensa propaganda no Brasil, prestassem mais atenção ao segundo do que ao primeiro lema. Esta preferência parece ter sido abraçada de forma veemente, aí o paradoxo, por um general brasileiro, Manoel Luis Osorio, homenageado com um monumento, na popular “praça da alfândega” de Porto Alegre, onde se lê, de um pronunciamento seu, as seguintes palavras:

“A data mais feliz da minha vida seria aquela em que dessem a notícia de que os povos civilizados festejam sua confraternização queimando seus arsenais”.

Para um natal como o de 2019, e para um primeiro dia de 2020, uma afirmação como essa deve ser objeto de riso e deboche por parte de todo o estafe que, agora, des(manda) e des(governa) o país, com o apoio de grupos organizados de pessoas que se dizem, surpreendentemente,“cristãs”. Maria, a mulher pobre que pariu o Menino Jesus, nas mesmas circunstâncias de pobreza e miséria de muitas mães brasileiras, dá o melhor recado para essa verdadeira heresia, essa total descaracterização do natal e do cristianismo.  Quando ainda estava grávida do Menino Jesus,à sua prima Isabel, disse Maria:

“A minha alma engrandece o Senhor e o meu Espírito se alegra em Deus meu Salvador. Pois Ele se lembrou de mim, sua humilde serva! {…}  Deus levanta a sua mão poderosa e derrota o orgulhosos com todos os planos deles. Derruba do seus tronos reis poderosos e exalta os humildes. Dá fartura aos que têm fome e manda os ricos embora de mãos vazias.” (Evangelho de São Lucas, 1, 46-53).

Diante de uma proclamação como esta, é desnecessário concluir-se que esta Mãe e o Seu Filho, José, o pai terreno da Criança não estavam em Belém para bendizer e louvar o Estado, as leis e todo o poder privado gerador de pobreza que os obrigara a ir para lá. O “Caminho, a Verdade e a Vida” que a Criança, depois de adulto, pregou, é muito diferente daquele que esses poderes, pretendem impor do mundo todo. Para andar neste outro Caminho, conhecer esta outra Verdade, e viver esta outra Vida, feita de amor, justiça e paz, somos todas/os convidadas/os no natal.

Para aceitar ou não essa responsabilidade, somos inteiramente livres, mas que as injustiças praticadas por quantas/os não a assumem está a exigir “um outro mundo possível”, isso todo o natal passado já cansou de nos comprovar. Deixar morrer a esperança benfazeja da mudança radical que essa festa inspira, é uma inaceitável infidelidade ao Espírito que lhe dá sentido. Que uma tal irresponsabilidade não contamine o nosso natal e o ano todo de 2020 é o que estamos desejando a todas/os as/os leitoras/es que nos honraram este ano com a leitura e a crítica ao que escrevemos.

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