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Ecos das jornadas de 2013

04/01/2020 09:49:44

As esquerdas perderam a oportunidade histórica de propor mudanças estruturais que fazem do Brasil um dos países mais desiguais, violentos e injustos do mundo

as esquerdas que sempre discursaram contra o sistema, optaram por proteger o sistema. Foto: Mídia Ninja
as esquerdas que sempre discursaram contra o sistema, optaram por proteger o sistema. Foto: Mídia Ninja

Robson Sávio Reis

O ex-presidente Lula, em recente  entrevista, disse que os EUA estavam por trás das jornadas de junho de 2013 a articularem um movimento golpista. Essa análise reacendeu um grande debate, nas redes sociais, sobre esse período intenso da vida sociopolítica brasileira.

A não ser que Lula tenha dados ou elementos objetivos para comprovarem sua tese (e talvez os tenham) discordo da análise do ex-presidente.
Não há elementos que corroboram a tese segundo a qual as manifestações de 2013 foram o primeiro ato do golpe de 2016.
As jornadas de 2013 foram um grito libertário, um movimento de massas, relativamente espontâneo e com certos limites, de uma população predominantemente urbana, que não se contentava com uma democracia de mentirinha (apesar dos avanços sociais desde 1988 e principalmente nos governos petistas, o povo queria mais e melhores políticas publicas; exigia mais participação e demandava rupturas com as velhacas estruturas dos sistemas econômico e político brasileiros).
Naquele momento, os segmentos de elite das esquerdas, encabeçados pelo PT (no governo federal), preferiram apostar na institucionalidade, no status quo, na “lei e na ordem” para enfrentarem os clamores revolucionários da população. E perderam a oportunidade histórica de propor mudanças estruturais (para além das importantes políticas incrementais) que historicamente fazem do Brasil um dos países mais desiguais, violentos e injustos do mundo.
Paradoxalmente, as esquerdas que sempre discursaram contra o sistema, optaram por proteger o sistema.
O resultado foi a captura de muitas das legítimas demandas por mudanças da população pela direita. Num segundo momento, a partir do discurso antissistema e golpista de Aécio Neves, em 2014 (que não aceitou a institucionalidade, ou seja, o resultado das urnas), a direita, vitaminada pela mídia, começou a assumir o debate público e as ruas do Brasil.
Agora, não adianta ficar querendo eleger um bode expiatório para explicar a assunção da extrema direita protofascista como resultado externo aos desacertos cometidos à época por quem estava no centro do poder.
É claro que os EUA (departamento de justiça, CIA, think tanks…) e seus parças brasileiros (banqueiros, a turma do pato amarelo, latifundiários, reacionários da classe média…) souberam aproveitar da incoerência entre a teoria e a prática (ou seja, da reação pro-establishment ao invés da proposição de mudanças) da esquerda para proporem pseudonarrativas de mudanças e arquitetarem o golpe de 2016 (com  Temer, parlamento, lavajatismo e “com o supremo com tudo”), possibilitando, com diversas traquinagens, em 2018, a eleição do governo mais esdrúxulo da história republicana.
Que 2013 sirva de aprendizado. E não de desculpas…
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