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Um novo pacto ‘por cima’ para tirar Bolsonaro?

04/05/2020 10:44:35

Não há base social progressista para processos revolucionários de baixo para cima e a saída de Bolsonaro não vai acabar com a estrutura violenta e excludente da sociedade brasileira

Foto: Marcos Corrêa/PR
Bolsonaro e seus seguidores preparam uma ‘guerra santa’. Foto: Marcos Corrêa/PR

Robson Sávio

Tenho observado atentamente a cena política nos últimos dias. Movimentos no STF, parte da mídia empresarial, algumas corporações poderosas…  Nesse 1° de maio, aquela transmissão, via redes sociais e TVT, do dia do trabalhador para tentar agradar a gregos e troianos no “universo” trabalhista, com repercussão a noite numa longa reportagem global, no JN, a mostrar, inclusive e excepcionalmente, um perigosíssimo sapo barbudo e comunista que inventou a corrupção no Brasil e em toda a via láctea.

As lideranças do mundo do trabalho (e alguns penetras escolhidos seletivamente, como FHC) pareceriam sinalizar às elites nacionais que um pacto (para apear o trainee de ditador) é melhor que uma ruptura… Renúncia… impeachment negociado…

Um rápido olhar no passado mostra que a pactuação “por cima” sempre foi a saída à brasileira em momentos de grave crise política: melhor acomodar, mesmo que temporariamente, todos os interesses que enfrentar as consequências de rupturas radicais que, dolorosas para todos, podem mudar substantivamente a estrutura historicamente violenta e excludente da sociedade brasileira.

Foi assim na proclamação da República; com Getúlio; no golpe civil-militar e no processo de abertura democrática, no impeachment de Collor. (Em certa medida, até o golpe contra Dilma teve negociação entre as elites política e judiciária. Envergonhados, parte dos golpistas aceitaram não retirar os direitos políticos da ex-presidenta).

Em todos esses episódios há um rosário de argumentos a justificarem as pactuações.
Alguém poderá dizer: mas, nesse momento dramático da vida nacional — para nos livrarmos do perverso que hoje comanda o país –, vale qualquer negócio.

Se é assim, há outras saídas para além da pactuação a acomodar interesses totalmente opostos. É forçoso constatar que, de imediato, não há base social progressista para processos revolucionários de baixo para cima.

E um dtalhe: falta combinar com a turma do outro lado. Afinal, o bolsonarismo costura uma aliança estratégica entre militarismo (bases das polícias e FFAA) e neopentecostalismo (evangélico e católico). Preparam uma “guerra santa” para “redimir a cultura e a família judaico-cristã das garras do comunismo chinês”. Uma narrativa marcada por emoção, apelo à religiosidade, sentimentos em relação a valores familiares. Nada de racionalidade. Mas, discurso altamente mobilizador.

Lembremos: a união entre militarismo e religião — que não trouxe benefícios à humanidade em nenhuma ocasião — também é conhecida nessas plagas. Afinal, 1964 é logo ali.

No início do governo Bolsonaro, neste Dom Total, chamávamos a atenção sobre as relações entre religião, militarismo e elites judiciárias na assunção e possível sustentação do governo (veja aqui).

Veremos os próximos capítulos…

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