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Extrema direita: pautas moralistas unem religião e militarismo

15/09/2020 11:36:51

Robson Sávio Reis Souza

Marcos Corrêa/PR
Marcos Corrêa/PR

Em plena pandemia ressurgem fantasmas insepultos, não enfrentados no período pós-ditadura e que habitavam o pântano brasileiro. Há uma profusão de eventos a revelarem que um lodaçal autoritário, moralista e hipócrita sustenta nossa sociedade (estruturalmente injusta, desigual, racista e homofóbica).

Nesse atoleiro, o bolsonarismo tenta avançar e fia-se em dois pilares: a caserna, a garantir o controle das instituições da República, apesar de regurgitações do Congresso e do Supremo e as igrejas, principalmente poderosas agremiações religiosas neopentecostais, a garantirem a base social. E como, ocasionalmente, parte da sociedade está entorpecida por migalhas de auxílios financeiros pandêmicos (que foram direcionados por Paulo Guedes e equipe em doses cavalares aos bancos, empresas e setores rentistas – a garantirem o apoio as elites ao governo de plantão), as condições objetivas para o avanço do autoritarismo de viés moralista parecem promissoras, nessa empreitada dos novos cruzados do século XXI.

Surfando nessa onda conservadora e confiando no apoio de instituições religiosas obscurantistas e no autoritarismo de caserna, Bolsonaro e seu grupo palaciano resolveram avançar no charco movediço das chamadas pautas de costumes, conforme revelou reportagem do domingo (13/09) da Folha de S. Paulo. Armamento da população, criminalização da educação, da cultura e da ciência (com incentivo à educação familiar) e a transformação de veículos automotores em armamento para agradar brucutus da classe média são alguns dos projetos que serão tocados no Congresso Nacional. Nada mais belicoso e ultrajante à dignidade humana e, portanto, anticristão.

E por mais paradoxal que isso possa parecer, a base social para esse tipo de empreitada usa da religião. Aliás, o uso da religião tem caracterizado a nova extrema-direita global, como revelou recentemente o vaticanista Iacopo Scaramuzzi em um livro recém-publicado, intitulado “Dio? In fondo a destra – Perché i populismi sfruttano il cristianesimo” (em tradução literal, Deus? No fundo à direita – Porque os populismos desfrutam do cristianismo), cuja capa estampa quatro dos principais expoentes desse fenômeno: Salvini, Trump, Bolsonaro e Putin.

Em entrevista a Lucas Ferraz, no The Intercept Brasil em julho deste ano, o estudioso do Vaticano argumenta que a exploração do cristianismo, católico e evangélico, tem como objetivo “louvar um passado supostamente glorioso, além de ter um forte apelo a todos aqueles perdidos com as crises econômica, política, cultural, da globalização etc.”. “O fenômeno opera atualmente numa rede global e é um dos pilares de projetos como o de Viktor Orbán e sua democracia cristã iliberal na Hungria, do recém-reeleito Andrzej Duda e sua tradição sacra na Polônia, de Matteo Salvini, que tentou se tornar homem forte do governo da Itália brandindo rosários e falando em nome de Maria, além de ter pavimentado a vitória de Jair Bolsonaro e seu ‘Deus acima de todos’”.

No Brasil, grupos religiosos estão à postos para servirem de escudo à empreita moralista, justamente quando se avizinha o pleito municipal. A estratégia, não por acaso, é que os dois principais grupos que buscam ampliar o sucesso eleitoral (policiais e religiosos), pretendem engrossar ainda mais as bases de cruzados moralistas . Outro não acaso: os dois grupos são as principais bases de apoio do bolsonarismo.

Enquanto isso, Damares, sua equipe e grupos localizados estrategicamente em Ministérios como o do Meio Ambiente, Educação e Secretaria da Cultura já agem há algum tempo arrancando cercas jurídicas e até constitucionais, nas barbas dos “poderes que funcionam”, para a boiada ultraconservadora passar. Vida de gado.

Nos últimos dias, lideranças religiosas alinhadas à Teologia da Prosperidade (de um deus que abençoa aqueles que gostam e têm dinheiro) e à Teologia do Domínio (assentada no pressuposto de que o domínio da Terra foi usurpado pelo Diabo  que, no delírio obscurantista de grupos religiosos, são os comunistas, esquerdistas, socialdemocratas, cientistas, progressistas, feministas, movimento LGBT+ etc.) apareceram com destaque na mídia destilando veneno homofóbico, ou seja, usurpando da pauta moral e de costumes para suscitar engajamento e adesão nas redes sociais conservadoras.

Noutra frente de disputas reais e simbólicas persiste a discussão das isenções fiscais a instituições religiosas (apesar do veto presidencial de mentirinha). O controle público das movimentações financeiras de igrejas é relevante porque muitas das agremiações religiosas se transformaram em verdadeiras lavanderias financeiras, como afirmou a antropóloga e cientista política Jacqueline Muniz em entrevista à Revista Fórum: “Lavanderias do dinheiro do crime passa por agremiações religiosas. Onde é que você vai lavar o dinheiro do crime, você vai usar as agremiações religiosas porque cada uma delas tem um CNPJ. Então você pode criar uma casa de oração ali na esquina, lavar o dinheiro do crime e com isso também produzir intolerância religiosa, destruição de terreiros nas comunidades populares”, disse a especialista em segurança pública. Isso sem contar a falta de transparência e eventual desvio de recursos financeiros, como denunciou o Ministério Público de Goiás em relação à construção da nova Basílica de Trindade.

Uma reportagem da Agência Pública de agosto de 2020, intitulada “Como o crime organizado tem explorado benefícios concedidos a igrejas para operar seus negócios ilegais”, informa que “uma investigação realizada por veículos de comunicação de dez países descobriu que, amparados nas leis de liberdade de culto, algumas igrejas e líderes religiosos nas Américas abusam da confiança de seus fiéis e cometem crimes como lavagem de dinheiro e fraude”.

Não é de se estranhar a notícia do portal G1, de 12 de setembro, segundo a qual movimentações atípicas realizadas pela Igreja Universal do Reino de Deus, totalizando quase R$ 6 bilhões. A Universal é uma dessas igrejas que mais ocupam cargos e espaços públicos. Inclusive patrocinou a criação de um partido político, o PRB, que mudou de nome (Republicanos) para surfar na onda da direita e extrema-direita.

Noutra reportagem da Agência Pública, comprova-se que uma aliança de Edir Macedo com Bolsonaro envolve presidência da Câmara, cargos no governo e perdão de dívidas às igrejas.

Portanto, as relações entre igrejas, grupos ultraconservadores na política (nos três poderes, diga-se de passagem) e a utilização de dinheiro público e privado (dízimos e outras contribuições) para fins ilícitos é algo que merece toda a atenção.

Por outro lado, alianças entre o neopentecostalismo e o militarismo se dão em outras frentes. Reportagem da Revista Fórum, de janeiro de 2020, intitulada “Igreja Universal cria seu exército particular com recrutamento de PMs” apresenta um vídeo institucional da “Universal nas Forças Policiais (UFP)”, braço da igreja de Edir Macedo nas “Forças de Segurança Pública, Forças Armadas e órgãos governamentais”. Segundo o vídeo, a Universal atingiu 983.441 policiais e familiares no ano de 2019, em 73.526 palestras, eventos e cafés realizados, e doado 439.471 “Bíblias e literaturas”.

Esses são alguns dos sinais a demonstrarem que a nova onda de ataques de grupos bolsonaristas, nesse novo front de batalha, não se dará contra o Supremo ou o Congresso, mas contra os poucos avanços no campo de direitos dos chamados grupos minoritários (mulheres, negros, gênero), advindos com a Constituição Federal de 1988. Em artigo de maio deste ano intitulado “Armar o país: a guerra santa bolsonarista” já prevíamos essa batalha político-religiosa. E a bancada BBB (bala, bíblia, boi) que não é nova (e conta com o apoio do Novo), parece oferecer o armamento de ocasião ao bolsonarismo.

O amálgama entre ultraconservadorismo religioso e militarismo autoritário merece atenção nessa quadra da nossa história.

Portanto, os democratas precisam olhar com bastante atenção para essa coalizão que une algumas igrejas e setores militares (ressalvando que há militares e igrejas democratas e republicanos) e, em muitas ocasiões, se associa às milícias, a revelar um perigoso pântano para o pouco que resta de democracia e a recordar tempos pouco memoráveis já vividos pela sociedade brasileira num passado recente.

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