29 Mai 2013 | domtotal.com

O gorila invisível


Por José Adércio Leite Sampaio

Todos nós prezamos as memórias que, boas ou más, contam a nossa história. Somos um projeto de futuro, mas principalmente um passado que nos dá uma identidade e uma narrativa existencial. O que pouca gente sabe é que as memórias são, em grande escala, falseamentos de coisas acontecidas ou mesmo registros do que nunca aconteceu.

Pense num momento extremamente marcante de sua vida e tente reconstituí-lo tintim por tintim. Não. Tente apenas reconstituí-lo. Boa parte dessa reconstituição será fantasiosa. Sua mente é uma fábrica de ilusões. Diversos experimentos (neuro)científicos revelam como somos trapaceados pelos mais corriqueiros expedientes mentais. E não apenas nesse sentido reconstitutivo dos sentidos.

Também em enxergar o óbvio ou, para evitar escorregadelas linguísticas, perceber o que se passa diante de nossos olhos. A realidade é apenas um fragmento do que acontece e vemos, por uma série de mecanismos de filtragem interna, nem sempre reduzíveis aos que os fenomenológicos e hermeneutas chamam de “pré-compreensão”, somente o que nos interessa ver.  Há diversos estudos e atividades que demonstram nossa atenção seletiva.

Os complexos neurais se especializaram no autoengano, quando interessa à homeostase. Ou, por erro do sistema, quando promove a angústia e o desespero. Quer dizer, o mesmo processo, feito a mão acalentadora, que nos socorre, cria um quarto de horrores mentais feito a mão que dispara o tiro mortal. Sã ou espúria, a mente nos ilude.

Desconfie, portanto, dos conselhos da intuição, daquela sabedoria inata que parece nos antecipar a verdade ou o perigo. De fato, ela nos lança ao precipício para, sob um astuto caminho de compensações, nos fazer acreditar que nos salvou do pior. Em resumo: nós somos incapazes de ver o gorila que vive em e entre nós. É esse o mote do livro  de Christopher Chabris e Daniel Simons, intitulado de “The Invisible Gorilla: And Other Ways Our Intuitions Deceive Us.”

Tenho certeza que após a leitura restará um gosto de incertezas sobre a vida, as verdades ou mesmo sobre o direito, esse antro de correção e sabedorias fabricadas. Ainda assim, recomendo a leitura. Antes a dor que sabe à felicidade que engana.

José Adércio Leite Sampaio
é Jurista. Graduado em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre e Doutor em Direito Constitucional pela UFMG. Procurador Regional da República. Professor da Escola Superior Dom Helder Câmara.
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