22 Abr 2010 | domtotal.com

Elogio da burguesia (com uma deixa para a aristocracia também)


Por Paulo Roberto de Almeida

Em vôo Lisboa-Roma, 26/3/2010; Firenze, 27/10/2010; Perugia, 28-29/10/2010. Considerações sobre as elites culturais e a cultura popularesca

1. Sobre elogios e difamações

Existem vários “elogios” na literatura universal, sendo os mais conhecidos o clássico de Erasmo sobre a loucura; um outro sobre a preguiça (de um discípulo de Marx); e até mesmo um sobre a exploração (sim, este eu conheço bem, pois fui eu mesmo quem fiz, figura em meu livro Velhos e Novos Manifestos, de 1998). Estou também preparando um elogio da especulação (mas ainda não consegui terminar), posto que se trata de uma atividade essencial à boa saúde do sistema econômico (não apenas financeiro) e do próprio avanço da produtividade: sem ela, haveria muito pouco gosto pelo risco e raros capitalistas arriscariam seu dinheiro em inovações.

Não me lembro, porém, de ter lido, alguma vez, em qualquer lugar, um elogio à burguesia e, menos ainda, à aristocracia. Não espero, por certo, encontrar no ambiente acadêmico alguma referência positiva a essas duas personagens coletivas, que são historicamente importantes. Não existe a menor chance disso ocorrer nesse ambiente, pois ambas as classes são erradamente identificadas a elites reacionárias e, em consequência, execradas pelo pensamento esquerdista, supostamente marxista, que grassa anacronicamente em nossas faculdades de Humanidades (anacronicamente dito stricto sensu, posto que os acadêmicos em questão se enganam de século). A possibilidade de que uma delas (certamente jamais a segunda, em todo caso) possa ser vista ou considerada como “útil”, por algum papel positivo na história da humanidade, é próxima de zero, para não dizer abaixo disso.

E, no entanto, não preciso lembrar que um jovem discípulo de Hegel efetuou rasgados elogios à burguesia em um panfleto juvenil a quatro mãos, com seu amigo Engels: o Manifesto do Partido Comunista de 1848 (cuja versão adaptada para nossos tempos de globalização eu também coloquei no meu livro supracitado). Claro, o ódio à aristocracia era visível em muitas páginas, mas a burguesia era glorificada por vários feitos revolucionários do mais alto significado histórico, entre eles o de ter, supostamente, derrotado a primeira no curso de uma luta titânica, que levou, inclusive, à substituição do velho modo de produção “feudal” (vocês sabem: aquela coisa dos avanços materiais e o desenvolvimento orgânico das forças produtivas conduzindo inelutavelmente a mudanças nas relações de produção e, daí, a uma revolução completa na superestrutura política da sociedade e todo o blá-blá-blá conhecido).

É verdade que depois disso, notadamente no Capital, Marx deixa de premiar a burguesia com os fartos elogios encontrados nas suas obras de juventude. Ao contrário: ela passa a ser assacada com as piores vilanias e responsabilizada pelos mais graves crimes supostamente cometidos contra o bem-estar da humanidade, sendo até mesmo jogada no fosso da depravação universal, junto com a aristocracia e todas as demais classes dominantes, ou quaisquer outras que por acaso não se aliassem – se submetessem, seria o termo mais correto – à nova classe emergente, o glorioso proletariado industrial, na sua marcha ascensional para a conquista do poder.

Apesar de também ter sido, na juventude, um marxista radical, e até mesmo um leninista, sempre achei que Marx cometeu uma tremenda injustiça em relação à burguesia revolucionária, uma classe ainda ascendente em seu tempo. Nem menciono seus ataques à equivocadamente desprezada classe aristocrática, que, antes da burguesia, tinha preservado as luzes da civilização em face da barbárie inculta que se impunha à Europa, no rastro das invasões de povos nômades (visigodos, ostrogodos e outros godos).

Afinal de contas, foi a aristocracia, constituída na decadência do Império Romano do Ocidente, devidamente romanizada, cristianizada e um pouquinho alfabetizada, que conseguiu preservar alguns elementos instruídos, saídos diretamente da era clássica, num mundo feudal marcado pela anomia social e pela fragmentação política (a despeito de defasado metodologicamente, recomendo aos interessados na história a leitura do clássico de Edward Gibbon).

Também sempre achei que Marx, tão enfático ao condenar o despotismo asiático, falhou terrivelmente ao diminuir, de maneira genérica, os méritos humanistas de aristocratas e burgueses, os primeiros resistindo bravamente em face da ignorância tirânica dos velhos bárbaros, os segundos defendendo as liberdades democráticas nas cidades livres e desmantelando os regimes exclusivos das velhas corporações feudais.

Quanto aos revolucionários presumidos dos últimos 100 anos, não é preciso registrar os resultados regressistas dos assaltos obscurantistas dos novos bárbaros, as hostes de revolucionários profissionais de extração fascista ou bolchevique, que desmantelaram o que havia restado de ilustrado nas sociedades pré-fascistas ou pré-comunistas da velha Europa.

Sim, porque o que assistimos na Europa, desde o início do século 20, não foi exatamente um “assalto ao céu” por parte de uma nova classe educada para promover o enriquecimento cultural da sociedade, e sim um rebaixamento cultural e intelectual efetivamente ocorrido durante a vigência dos totalitarismos nazi-fascistas e leninistas, responsáveis, ademais, por várias dezenas de milhões de mortos no auge de seus respectivos regimes (quem duvidar pode ler o livro de Anne Applebaum, sobre o Gulag, ou a descrição realista das horas mais sombrias da Europa, em Tony Judt).

Por isso mesmo, não é possível aceitar acadêmicos que reincidem no velho exercício esquizofrênico de condenar não se sabe bem qual “barbárie capitalista”, ao mesmo tempo em que defendem, de forma vergonhosa, alguns dos piores regimes remanescentes do stalinismo totalitário. Creio que o verbo “aceitar” não seria, aliás, aceitável num contexto acadêmico: a expressão objetivamente correta é que não é mais admissível, atualmente, que qualquer pessoa minimamente informada e supostamente alfabetizada – ou seja, habilitada a ler a imprensa – possa defender um sistema que condena pessoas à fome, ou à greve de fome, por carências generalizadas no sistema produtivo e por falta total das liberdades mais elementares. Acadêmicos que assim procedem não merecem o título, pois só podem ser energúmenos completos e acabados, e sequer podem ser considerados como medianamente equilibrados; deixemo-los apodrecer na lata de lixo das faculdades de Humanidades (que, a despeito de suas muitas limitações, não merecem essa ofensa adicional, por certo).

2. Uma bibliografia rarefeita, jamais positiva

Pois bem, alguém me corrija se estou errado, mas acredito que não existem elogios diretos e declarados à burguesia e menos ainda à aristocracia, fora de livros de história que tentam recriar o velho mundo burguês, em grande medida identificado com a era vitoriana, como, por exemplo, na série de cinco livros de Peter Gay, enfeixados sob o título geral de “experiência burguesa” (1: The Education of the Senses; 2: The Tender Passion; 3: The Cultivation of Hatred; 4: The Naked Heart; 5: Pleasure Wars; ao que eu saiba, nenhum deles traduzido e publicado no Brasil).

Existe também o livro do economista (aliás, da economista, posto que ele mudou de sexo) Deirdre McCloskey, The Bourgeois Virtues, mas não se trata exatamente de um elogio à burguesia enquanto classe “universal” – no sentido hegeliano da palavra – mas uma discussão essencialmente de história econômica e de história intelectual da formação da moderna sociedade capitalista na passagem do mercantilismo para o sistema fabril. De certa forma não deixa de ser um elogio à burguesia, mas vista apenas pelo seu lado empreendedor e inovador, e não exatamente como portadora de valores humanistas que aqui se procura destacar. Trata-se, basicamente, de uma defesa da economia de mercado, tal como encarnada na burguesia enquanto agente econômico, não de um elogio filosófico à burguesia, genericamente.

Uma pesquisa sumária na literatura brasileira, publicada no Brasil, não registrou nenhum trabalho que pudesse ser aproximado, de perto ou de longe, com uma visão positiva da burguesia. Os mais amplamente utilizados em nossos meios universitários são o enviesado História da Riqueza do Homem, do marxista americano Leo Huberman, e o inacreditável Veias Abertas da América Latina, do perfeito idiota Eduardo Galeano, um jornalista mal informado que é recomendado por professores perfeitamente idiotas por não reconhecerem sua total má qualidade histórica. Não é preciso dizer que ambos exibem, a propósito da burguesia, uma visão tão risivelmente simplista que seria empobrecedor para este texto sequer pretender criticá-los.

Qual seria, então, a natureza da dificuldade que tem a “classe” acadêmica em ver na burguesia uma força basicamente progressista, inclusiva, aberta aos talentos e aos méritos de todo e qualquer cidadão empreendedor? São muitas as causas, algumas propriamente sociais, outras ideológicas, outras, enfim, puramente psicológicas, se a distinção pode ser feita entre essas diversas categorias que, na verdade, tendem a se confundir.

Em primeiro lugar, se trata, provavelmente, de preconceito de classe, posto que a maior parte de nossos acadêmicos não tem sua origem social nessa classe, que classicamente constitui uma minoria em termos numéricos (sendo bem mais ampla, numericamente, e nela os acadêmicos, a categoria que, na terminologia marxista ou assemelhada, se chama pequena burguesia). Em virtude, então, de certo complexo de inferioridade, compreensível no plano psicológico (outro fator selecionado), nossos acadêmicos exibem uma rejeição apenas em parte natural à classe em questão.

A mais forte razão, contudo, parece ser de natureza ideológica, ainda que ela se confunda com ignorância, pura e simples: a incompreensão profunda que a maior parte dos acadêmicos demonstra em relação ao funcionamento de uma economia de mercado, ampliada pela convivência quase exclusiva com “explicações” históricas baseadas essencialmente numa interpretação “marxista” da história.

Coloquei “marxista” deliberadamente entre aspas posto que o velho barbudo, ao lado de seu preconceito também arraigado contra a burguesia de seu tempo, havia pelo menos estudado o surgimento e a formação da economia capitalista e manifestava certa compreensão quanto ao papel “progressista” desempenhado pela burguesia industrial na construção da moderna economia de mercado (que ele tentou analisar, sem o conseguir realmente, na sua obra mais famosa). O “certa compreensão” deveria ir também entre aspas, posto que Marx coloca no centro de sua “explicação” da sociedade capitalista a tal “extração de mais-valia”, que todo universitário pretensamente marxista interpreta como sendo o nec plus ultra das explicações possíveis quanto ao funcionamento da economia capitalista (quando isso nada mais constitui senão um arremedo de microeconomia mal formulada e mal apresentada). [1]

3. O charme discreto da burguesia (e o mais distante da aristocracia)

Deixemos, contudo, nossos acadêmicos entregues a seus preconceitos habituais, aparentemente insanáveis, e vejamos o que pode haver de louvável nas classes burguesas e aristocráticas de outras eras (ou mesmo atualmente). Elas constituem, obviamente, duas elites refinadas e distinguidas no quadro das sociedades divididas em classes – com toda a ambiguidade que esse fenômeno pode comportar – e, como tais, são chamadas a exercer papéis de relevo nos sistemas econômicos, nos regimes políticos e na produção e na disseminação de conhecimentos e de cultura que essas sociedades normalmente exibem.

Marxistas acreditam que todas as sociedades até aqui existentes são sociedades divididas em classes, o que de certa forma é verdade, mas não com essa característica avassaladora, quase absoluta, que eles emprestam ao conceito. Classes são, ademais de uma realidade tangível – embora fluída, sob certos aspectos –, uma convenção prática, que em alguns casos se presta a uma operação de mistificação sociológica (posto que elas estão longe de exibir o determinismo fatal que os marxistas costumam emprestar a essa realidade e a esse conceito). Indivíduos transcendem suas situações de classe e se movimentam no continuum social e no leque de possibilidades que é inerente a toda sociedade humana, mesmo as mais aparentemente rígidas e estratificadas.

Constituindo elites, no sentido mais elementar da palavra, é obvio que tanto a aristocracia quanto a burguesia reúnem, em torno de si, todos os elementos mais refinados, em termos de luxo, cultura e manifestações artísticas, que classes dotadas de poder e riqueza são capazes de amealhar, para si e para os que lhe são próximos. O que mais se poderia esperar de formações sociais e de categorias históricas que, além de terem reunido os atributos geralmente esperados de estratos dominantes (força e capacidade de mando), sempre souberam atrair o que de melhor a civilização humana produziu no campo da inovação e da engenhosidade humanas?

Pode-se até entender o despeito de tantos acadêmicos – que são geralmente da pequena burguesia – contra a burguesia e a aristocracia: afinal de contas, eles foram educados no desprezo das classes dominantes, bem como no empenho em derrubá-las, para substituí-las, se possível, pela classe ascendente, o proletariado. O que não se pode entender, contudo, é a estupidez de recusar determinadas qualidades de educação, de refinamento, de gosto pelo luxo e por determinados prazeres da vida mundana, apenas porque tais qualidades ou desfrutes sejam próprios, por vezes exclusivos, das classes privilegiadas da sociedade, no caso a alta burguesia e a hoje quase inexistente aristocracia. É compreensível que pequenos burgueses acadêmicos viajem de classe econômica ou se hospedem em albergues econômicos, mas acredito que eles não recusariam uma primeira classe de avião ou um hotel cinco estrelas se o prazer lhes fosse oferecido graciosamente (por alguma fundação imperialista, talvez).

Imagino que eles não tenham nenhuma dificuldade em admitir que o que de melhor foi produzido pela civilização do luxo sirva de desfrute para os representantes das classes dominantes – inclusive alguns do “andar de baixo” que momentaneamente ascendem a essa condição – ainda que proclamem o objetivo de repartir o refinamento com os excluídos de sempre. Parece lhes ser mais difícil aceitar que certas distinções possam continuar sendo exclusivas dos muito ricos, posto que o princípio filosófico que rege sua militância política é o igualitarismo obrigatório (mesmo se poucos, hoje, acreditem realmente nesse conto de fadas).

Pode-se conceder-lhes a ilusão de que o objetivo da sociedade igualitária seja realizado no futuro, mas ainda assim permanece a deformação básica que os faz denegrir, em suas aulas de história ou de sociologia, tudo o que as classes aristocráticas ou burguesas do passado produziram de refinado nas sociedades que precederam a moderna civilização de massas do presente. Talvez um passeio pelo mundo possa corrigir essa visão míope sobre as sociedades elitistas.

4. Visitando as obras da aristocracia e da burguesia (não apenas nos museus)

Não há como recusar: tudo o que se pode visitar de notável, de rico e de culturalmente enriquecedor, atualmente, numa Europa largamente dedicada ao turismo de massa, foi obviamente construído como habitação exclusiva para nobres e burgueses – castelos, palácios, mansões – ou como lugares de culto abertos a todo o povo: igrejas e catedrais, eventualmente, também, como residências monacais, como abadias e mosteiros (estes bem mais rústicos, porém). Tudo isso foi praticamente convertido, pela burguesia (que os conservou também), em museus e monumentos nacionais, grandiosidades abertas à visitação pública, ao custo de muito dinheiro público e privado (já que custa caro manter essas imponentes construções, algumas na origem da decadência econômica da aristocracia).

Supõe-se que, a menos que nossos pequenos burgueses acadêmicos prefiram visitar, turisticamente, tugúrios camponeses e cortiços operários, em países pobres, ou então participar, voluntariamente, do corte de cana em Cuba, nas épocas de safra, eles também apreciariam visitar o que de melhor a civilização ocidental criou em vários séculos de dominação das classes aristocráticas e burguesas.

Acredito que, no fundo, eles prefiram o desfrute desse tipo de requinte, mesmo com a prevenção ideológica e o desprezo ritual que eles devotam às “classes exploradoras”. Afinal de contas, não se pode culpá-los por desejar exibir solidariedade – mesmo falsa ou forçada – com as “classes trabalhadoras”, ao mesmo em que gozam, secretamente, de alguns prazeres burgueses – até mesmo aristocráticos – sem, contudo, revelar o “pecado” aos companheiros de militância. A carne é fraca, sabemos disso...

Voltemos, entretanto, ao que pode motivar um “elogio à burguesia” num texto provocador como este. Deve-se, em primeiro lugar, agradecer à burguesia o fato de ter preservado tão bem o legado das antigas classes dominantes, em face de tantas batalhas, revoluções, guerras civis e outras turbulências políticas: castelos, armaduras, afrescos, tapetes, quadros, objetos que de outra forma poderiam ter sido perdidos ao longo dos séculos.

Barões “ladrões” – enriquecidos por monopólios diversos, golpes financeiros, roubalheiras abertas ou encobertas, assaltos muito pouco discretos aos cofres públicos – fizeram mais do que simplesmente preservar: compraram e mandaram “embrulhar”, para entrega nos Estados Unidos, castelos inteiros, igrejas aos lotes, obras de arte de todo tipo e qualquer quantidade de manifestações do espírito e do intelecto, que eles arrematavam, aos borbotões e a preço vil, numa Europa devastada por guerras e genocídios escabrosos.

Bastava mandar reconstruir ou montar em Nova York, na Filadélfia, no Tennessee, wherever, castelos inteiros, com tijolos e pedras numeradas, para uma reapresentação “perfeita”, onde o magnata desejasse, como se estivessem nos vales e colinas européias; ou então, réplicas melhores do que os originais, fakes inovadores, moldes milimetricamente calculados, gessos mais realistas do que os mármores e granitos e, zut, voilà: no interior do Kansas ou no Colorado, surge um templo grego, um castelo medieval, uma catedral gótica ainda melhor que na paisagem de origem (posto que com ar condicionado, com máquinas de refrigerantes e banheiros limpos). Como é que nossos acadêmicos pequenos burgueses não podem achar geniais essas trouvailles da civilização burguesa, essas maravilhas do capitalismo, seja na preservação dos raros vestígios do passado, seja na reprodução perfeita dos originais praticamente destruídos ou inacessíveis? Como não apoiar essas demonstrações de prestígio da civilização burguesa?

Num capítulo mais especificamente acadêmico, como não elogiar esses mecenas saídos de uma modesta condição de origem para os pináculos da riqueza capitalista, que dotam suas universidades de formação com milhões de dólares, em troca, simplesmente, de um mármore no hall de salas de concerto, gravado para a eternidade com seus nomes? Como não admirar a multiplicação dessas oportunidades de também reproduzir o mesmo modelo de benfeitoria social através de bolsas concedidas a estudantes de extratos inferiores, que podem assim aceder às melhores universidades do país, que de outra forma estariam fora de suas possibilidades de estudo?

Todas essas orquestras sinfônicas juvenis, espaços de preservação ambiental, museus com coleções magníficas, bibliotecas inteiras doadas a instituições de estudo e pesquisas, tudo isso é obra da burguesia, bem mais do que um Estado por vezes muito lento a se movimentar e bem mais pobre do que se pode imaginar (aliás, por definição, posto que todo o dinheiro “do” Estado vem do trabalho de burgueses e trabalhadores, se por acaso nossos pequenos burgueses acadêmicos não sabem disso).

Em face de todas essas contribuições ao enriquecimento intelectual das sociedades, parece risível o fato de nossas “elites” acadêmicas insistirem em recusar a “cultura burguesa”, promovendo, em seu lugar, manifestações de “cultura popular” que aparecem como artificialmente popularescas em sua demagogia simplória. No lugar de Bethoven, hip-hop, no lugar de Villa-Lobos, funk ou um batuque qualquer, em troca de Machado de Assis, sabe-se lá que cantor de rap ou “poeta popular”. Nunca o grotesco popular ocupou um lugar tão grande em nosso cenário cultural; jamais os acadêmicos foram tão omissos na defesa da produção intelectual de qualidade: tudo em nome do combate à sociedade burguesa, é verdade.

De minha parte, não tenho hesitação em elevar um “viva a burguesia!”.

Paulo Roberto de Almeida
é doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas (1984). Diplomata de carreira desde 1977, exerceu diversos cargos na Secretaria de Estado das Relações Exteriores e em embaixadas e delegações do Brasil no exterior. Trabalhou entre 2003 e 2007 como Assessor Especial no Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Autor de vários trabalhos sobre relações internacionais e política externa do Brasil.
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