DomTotal
Data:
O padre jesuíta que inventou o hipertexto
Autor: Andrea Tornielli

Se podeis ler este artigo, digitado sobre o teclado de um computador, deveis isso principalmente a ele. Se Pc e notebook aposentaram definitivamente a máquina de escrever, se podemos compor e descompor os textos, efetuar análises e pesquisas com um par de cliques com um mouse, se nos comunicamos sempre mais através de mensagens virtuais, devemo-lo sobretudo a ele. Padre Roberto Busa, jesuíta, inventor da linguística informática, antecipador do hipertexto ativo sobre a Web com três lustros de antecipação com respeito aos cientistas americanos, bem como curador do monumental Índex Thomisticus, faleceu na terça-feira à tarde de velhice no Aloisianum de Gallarate, para onde se retirara há décadas e onde havia encontrado o amigo e confrade cardeal Carlo Maria Martini. Teria completado 98 anos no próximo mês de novembro e até algumas semanas atrás ainda era ativíssimo e empenhado em novos projetos.

O computador nascera como máquina para fazer cálculos. No imediato pós-guerra este empreendedor jesuíta estava trabalhando numa obra titânica, queria analisar a ‘opera omnia de santo Tomás, a mão, dez mil cédulas, todas dedicadas ao inventário da preposição “in”, que considerava fundamental do ponto de vista filosófico. Padre Busa tinha uma zanga: desejava conectar entre si expressões, frases, citações e confrontá-las com outras fontes disponíveis. Por isso, em 1949 bateu à porta de Thomas Watson, o fundador da IBM, que o recebeu em seu estúdio nova-yorkino, se pôs a escutá-lo e por fim lhe disse: “Não é possível fazer executar nas máquinas aquilo que me está solicitando. Você pretende ser mais americano do que nós”. O jesuíta não se deu por vencido e pôs sob o nariz do chefe da IBM uma cartela que trazia carimbado o moto da multinacional, cunhado precisamente por Watson: “O difícil fazemo-lo logo, o impossível requer um pouco mais de tempo”. Busa o restituiu ao fundador da IBM, não escondendo toda a sua desilusão. Watson sentiu-se provocado e assim mudou de idéia: “Está bem, padre, tentaremos. Mas, com uma condição: prometa-me que você não mudará IBM, acrônimo de International business machines, em International Busa machines”.

Do encontro destas duas mentes criativas, recordou no L’Osservatore Romano, Stefano Lorenzetto, que lhe fez há menos de um ano a última grande entrevista, “nasceu o hipertexto, aquele conjunto estruturado de informações unidas entre si por conexões dinâmicas consultáveis no computador com um toque de mouse”. A palavra hypertext teria sido cunhada por Ted Nelson em 1965, para projetar um software em condições de memorizar os percursos realizados por um leitor. Mas, como foi documentado por Antonio Zoppetti, especialista em linguística e informática, quem “realmente operou no hipertexto, com pelo menos quinze anos de antecipação sobre Nelson, foi precisamente o padre Busa”.

Este jesuíta – recorda em La Stampa Giovanni Ferrari, colaborador do padre Busa e docente de linguística computacional na Faculdade de Letras de Vercelli – foi o inventor da elaboração dos textos mediante calculadora. Devemo-lo à sua mente se hoje podemos memorizar os textos e analisar a frequência das palavras. Tem sido ele que o ensinou em todo o mundo. Graças às suas intuições e às suas pesquisas a Academia Della Crusca pôde digitalizar os textos da literatura italiana”.

O Padre Roberto Busa, originário de Vicenza, companheiro de alojamento de Albino Luciani, o futuro João Paulo I, no seminário de Belluno, foi por longo tempo docente na Pontifícia Universidade Gregoriana e também na Católica de Milão. E por cinco anos, de 1995 a 2000, também no Politécnico de Milão, onde manteve cursos de inteligência artificial e robótica. Graças às metas atingidas, foi instituído o “Roberto Busa Award”, máxima honraria para quem se ocupa destas matérias. Sua obra principal é o Índex Thomisticus. Sancti Thomae Aquinatis operum omnium índices et concordantiae (Stuttgart, Frommann Holzboog, 1974-1980). Esta obra se compõe de cinquenta e seis volumes de aproximadamente mil páginas cada um, contém a indicação completa de todas as ocorrências de cada palavra usada por santo Tomás em suas obras. Há vinte e um anos a obra se tornou primeiro um CD-ROM e depois um DVD.

Grande cultor das línguas, estava em condições de discutir sobre suas descobertas em latim, grego, hebraico, francês, inglês, espanhol e alemão. “Tive que arranjar-me com os rótulos de Qumrân – contava – que estão escritos em hebraico, aramaico e nabateu, com todo o Corão em árabe, com o cirílico, com o fínico, com o boêmio, com o georgiano ou com o albanês”.

“O que surpreendia no padre Busa – conta o professor Ferrari – era o entusiasmo, a energia e a curiosidade com que seguia novos projetos de pesquisa. Eram o mesmo entusiasmo e a mesma energia que tinha nos anos da juventude”. Não obstante a idade, o padre Busa continuou a trabalhar até faz pouco tempo: estava promovendo um novo método para a tradução automática de uma língua à outra. Seu Facebook existe num grupo, “Padre Roberto Busa S.J.”, onde pesquisadores e docentes de ateneus de várias regiões têm testemunhado a importância e a difusão da obra do jesuíta.

(Fonte: La Stampa, 11-08-2011. A tradução é de Benno Dischinger)