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Data:
A Outra Via Marginal
Autor: Lucas Parreira Álvares
Período: Graduando em Ciências do Estado pela UFMG

 

Qualquer tipo de análise acerca das Manifestações de Junho de 2013 – sim, em Maiúsculo – tende a ser frágil. Seja por sentimentos, (má) intenções, ótica ou superficialidade. Essa certamente é mais uma delas: movida a amor, perigosas intenções, ótica positiva, e evidentemente frágil. Não que eu busque ser simplório, mas de nada me resta além da fragilidade. Porém, leviano, jamais.

Às vezes se faz necessário explicar o óbvio. Faz-se necessário explicar que aquele ‘’Movimento Social’’ é, sobretudo, algo que se move. Mais que isso: atores sociais que se movem. Movimento esse, que pode se dar em diferentes espaços dessa sociedade. Não à toa, se deu nos espaços não institucionalizados. Parece-me prudente acreditar que a própria ação não institucional pode reverberar melhorias na própria instituição. Assim prognosticava algumas teorias clássicas desse campo do saber: desde Thoreau a Clastres. Ou, mais recentemente, de Badiou a Tilly. Porém, não há sentido algum em responsabilizar essas ações marginais aos (maus) resultados eleitorais/institucionais. A intenção então é deslegitimar. Vamos abraçar a causa centrípeta, e nomear esse processo da tomada de decisão no âmbito não institucional de ‘’Democracia Marginal’’.

A tentativa de atribuir os conservadores resultados eleitorais de 2014 às manifestações não me parece um bom ponto de partida. Guilherme Boulos, membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) afirmou recentemente que ‘’as jornadas de junho expressaram uma descrença de que as transformações populares se darão por dentro das instituições[1]’’. Lucas Legume, membro do Movimento Passe Livre (MPL) também disse que ‘’quem aposta na via eleitoral para explicar junho, está completamente equivocado (...) a grande questão de junho, é que foi uma via não institucional, que a gente apostou e que a gente continua apostando[2]’’. A Democracia Marginal é uma via. Mas na necessidade de se explicar aquilo que parece mais trivial, me vem à mente a seguinte questão: o que é uma ‘’via’’?

Via é um lugar por aonde se vai, ou por onde se é levado. É outro canal de possibilidade de escolha. Outro rumo, caminho, direção. Num sentido figurado, ‘’via’’ é o meio de que se vale alguém para alcançar um fim – e os marginais chegaram às ‘’vias de fato’’. Sabemos que, numa viagem intermunicipal é ilegal ultrapassar veículos pelas vias de acostamento - salvo em caso de extrema urgência. A opção pela via não institucional, em detrimento aos mecanismos de participação institucionais postos, em muitos casos, adentram esses meandros da ilegalidade. Mas será que essa via alternativa não impulsiona a democracia marginal para resultados populares mais imediatos? É nesse sentido que a Democracia Marginal é uma via. Mas uma via com características subjetivas e resultados incertos. É uma via que, definitivamente não é o caminho mais seguro para a tomada de decisão. Mas o que é a segurança, senão a subestimação da capacidade de relação humana?

Assim, a ‘’margem’’ como espaço político, não é um ‘’recurso’’, e sim uma ‘’via’’. Não é uma ferramenta que você possui, e que pode usar em algum momento propício. Não: ela é exatamente a expressão daquilo que você não tem, mas que, por uma determinada razão, por um período de tempo, em um determinado lugar, ela surge como alternativa. Que essa via marginal não perca seu caráter delinquente, sujo, impuro.

Talvez vivenciemos um caso de extrema urgência, e o acostamento está ali, à nossa espera. Nada mais que uma simples via - marginal. Optar por ela, ou esperar pacientemente o trânsito engarrafado?

 

 

 

 

 

Notas:

[1] Disponível em: http://goo.gl/LFqtHc

 

[2] Disponível em: http://goo.gl/vmOhks