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Data:
Dos Primórdios da Filosofia Ocidental
Autor: Victor Bacelete Miranda
Período: Bacharel em Direito pela Escola Superior Dom Helder Câmara e Mestrando em Filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia

 

Dentro das academias filosóficas muito se discute sobre a origem da filosofia ocidental. Alguns intelectuais tendem a acreditar que tal momento se dera na Grécia Antiga, precisamente na cidade de Atenas. Parece-nos equivocada esta delimitação à medida que verificamos a reflexão filosófica nas colônias gregas que rodeavam Mileto, Éfeso e a Península Itálica.

A terminologia deriva de Pitágoras de Samos (570 a.C – 496 a.C), o primeiro a se autodenominar “amigo da sabedoria” [1]. A principal característica do pensamento pitagórico é “a preocupação com a natureza matemática do universo”, isto é, a cosmologia fundada na coexistência de um dualismo essencial. De acordo com Pitágoras, “a origem e a essência do todo são os números, não se distinguindo forma, lei e substância”, mas sim considerando uma realidade própria e destacada.

Com efeito, são elementos constitutivos da natureza e a maneira pela qual explicamos a existência de todas as coisas, a saber: terra, ar, água e fogo, que se averiguam pelo ser numérico. Diferente do pensamento contemporâneo da matemática, Pitágoras aprecia “os números como referenciais de demonstração da realidade”, os quais permitem ao homem investigar verdade/exatidão e física/dualismo natural, modo pelo qual o dualismo não é apenas constitutivo, mas também explicativo.

Deste momento histórico destacamos a formação da Filosofia Pré-Socrática (séc. VII a.C. – séc. IV a.C) [2], onde os cuidados intelectuais acolheram a “physis” [3] e o “cosmos” [4]. Destaca-se o surgimento de duas grandes correntes, quais sejam, a Escola Filosófica de Eléia e a Escola Filosófica de Mileto. Ambas discutem a existência do mundo a partir da realidade física, entretanto diferenciam-se principalmente pela cosmovisão que apresentam.

Para a Escola de Mileto, “a explicação da realidade somente é possível a partir do movimento, o qual é a razão estrutural do todo”. Heráclito afirmara que “tudo muda e nada permanece como está”, explicando que “aquilo que parece repousar, na verdade encontra-se em constante mudança”. O pensador identifica a forma do ser a partir do “devir”, ideia de que todas as coisas estão sujeitos simultaneamente à existência e transformação, onde “somente o movimento é real, pois a essência das coisas iguais a si mesmas é ilusória”. A consequência que provemos é a guerra (ou conflito), ou seja, a “constante oposição entre contrários que resulta em movimento por tensão contínua”.

Oposta à Mileto, a Escola de Eléia questiona o todo através do imobilismo. Parmênides defendera que “a ideia de movimento é uma ilusão, onde o ser é uno, eterno, não-gerado e imutável”, de tal forma que as coisas parecem estar em movimento, mas se encontram em perpétuo repouso.

Fora somente após diversos conflitos territoriais, geográficos e políticos, principalmente aqueles marcados pelas Guerras Médicas ou Guerras Greco-Persas, que a cidade de Atenas passara a ser o pólo de concentração das reflexões filosóficas, “agora não mais voltadas aos estudos cosmológicos, mas à política e retórica”, com efeito, protagonizando o surgimento da Filosofia Clássica.

[1] Aqui não confundimos aquele que a doutrina majoritária considera como o primeiro filósofo ocidental, a saber, Tales de Mileto (acreditava que a água era a origem do todo), apenas  destacamos o preceptor terminológico da filosofia, Pitágoras.

[2] Antecedente à concentração da prática filosófica na cidade de Atenas.

[3] Conjunto do todo; totalidade; universo.

[4] Ordem ou organização da physis (conceito pré-socrático).

 

Referências

Cordero, Néstor Luis. A invenção da filosofia: Uma introdução à filosofia antiga. 1. ed. São Paulo: Odysseus, 2011. 248p.

 

GOMPERZ, Theodor. Os pensadores da Grécia: História da filosofia antiga. Tomo III: Filosofia aristotélica. 1. ed. São Paulo: Ícone, 2014. 480p.

 

JUNIOR, Auterives Maciel. Pré-socráticos - A invenção da Razão. 2. ed. São Paulo: Odysseus, 2007. 169p.