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Estamos nos Habituando a Celebrar o Nada
Autor: Lucas Parreira Álvares
Período: Acadêmico do Curso de Ciências do Estado pela UFMG

 

 

Na noite de ontem, dia 30/06, os deputados e as deputadas do congresso nacional rejeitaram em primeiro turno a proposta de redução da maioridade penal para crimes considerados hediondos. A votação ocorreu em meio a grande turbulência no plenário e fora dele, onde diversos manifestantes contra a redução da maioridade penal foram impedidos de entrar na própria casa, ou em outras palavras, na “casa do povo”. Para que fosse aprovada, a PEC precisava de pelo menos 308 votos favoráveis, obtendo 303. Outros 184 deputados votaram contra, além das 3 abstenções no plenário.

Com o resultado, a comemoração no congresso e nas redes sociais foi imensa. “Uma verdadeira vitória do povo brasileiro”, diziam os deputados em entrevistas; “Conservadores, não passarão!”, os desabafos nas redes; “Mais uma derrota de Eduardo Cunha”, diziam os portais por toda internet – são exemplos de comentários que apareceram com frequência na noite de ontem. Estamos nos habituando a esse tipo de prática. O termo “hábito”, diz necessariamente a respeito daquele comportamento que se repete de maneira frequente. De tal modo, não é a primeira vez em que um “não” causou tanta comoção para nós: o veto ao dito “Distritão”, há alguns meses atrás, se deu da mesma forma: celebramos a inércia, a imobilidade, a fixidez.

Estamos nos satisfazendo com pouco: com a simples manutenção do status quo. Parece-me plausível que conservadores realmente “não passem” mesmo, entretanto não basta que eles apenas não passem, e sim, que possamos também ir para algum lugar. Estamos nos contentando com a quebra dessa “onda conservadora”, mas não estamos remando para lugar algum. Triste é esse tempo em que a não mudança é sinônimo de vitória, que a conservação das coisas seja sinônimo de orgulho. Que a nossa “conquista” seja fundamentalmente – e apenas - a derrota do outro.

Façamos também uma mea-culpa: a falta de um horizonte de mudanças reais está tão distante, que o apego ao simples “nada” adquire uma conotação emotiva. O capitalismo contemporâneo é tão cognitivo, que qualquer freio a esse fenômeno, é motivo de festejo. A “onda conservadora” capitaneada pelo neoliberalismo hoje é tão intensa, que uma simples maré baixa já faz desse um âmbito para se ancorar.

Parabéns a nós que viemos lutando cotidianamente contra a redução da maioridade penal. Mas, até então, não ganhamos absolutamente nada.