Pedro Paulo Cava: teatro e política

2011-07-01

Pedro Paulo Cava nasceu em Belo Horizonte em 1950. Diretor, ator, produtor, gestor cultural e professor, sua trajetória nas artes cênicas se destaca pelas encenações que realizou, como “Mulheres de Hollanda” e “A Era do Rádio”. Ele é fundador e diretor do Teatro da Cidade e idealizador da escola livre Oficina de Teatro, hoje incorporada à PUC-Minas.

Polêmico e bom argumentador, Pedro sempre teve papel crucial nas questões políticas relacionadas à cultura. Sua trajetória é marcada pelo envolvimento ativo nos movimentos pela anistia e pelo fim da censura no Brasil.

Em breve Pedro Paulo volta à cena com uma nova montagem de “Morte e Vida Severina”, peça baseada no poema épico de João Cabral de Melo Neto. É sobre isso e muito mais que Pedro Paulo Cava fala aos leitores do Dom Total.

Em entrevista ao jornalista Marco Lacerda, Pedro denuncia a falta de investimento em produções de qualidade e diz que o teatro não consegue mais sobreviver só de bilheteria, porque é caro e o público está interessado em mega eventos.

Uma das figuras mais expressivas do teatro mineiro, se não a mais expressiva, ele revela os segredos para dirigir atores e aponta o preconceito como o principal fator que impede os artistas mineiros de conquistar o eixo Rio-São Paulo.

Veja abaixo trechos da entrevista. No áudio acima, a entrevista completa:


Marco Lacerda: Você tem um longo currículo profissional na área de cultura, que inclui atividades como diretor de teatro, ator, produtor. Dá para você fazer uma síntese dessa trajetória que começa ainda na adolescência, quando você tinha tenros 13 anos de idade?

Pedro Paulo Cava: Nasci em 1950, isso foi em 1963. Naquele momento, o Papa João XXIII havia realizado a reforma da liturgia na Igreja. Eu, de família católica, ia à missa aos domingos, na Igreja São José. A esquerda católica no Brasil estava se formando, assim como as Comunidades Eclesiais de Base; JEC, JOC e JUC (Juventude Estudantil Católica, Operária Católica e Universitária Católica). Eu morava no centro, já começava aquela turma do Edifício Levy, que é de onde saiu o Clube da Esquina efetivamente.

Então, venho dessa geração que vai chegar à Igreja São José e construir a JEC. Ali cresce um grupo de teatro jovem, dirigido pelo Arnaldo Bresser, que era um estudante de medicina na época. Fomos sempre orientados pelos padres dessa renovação católica, a missa não era mais em latim, já tinha incorporado o violão, chamado os jovens para dentro da Igreja.

Essa esquerda católica cria, então, atividades paralelas à liturgia, que eram as atividades dos Grupos Eclesiais de Base, que mais tarde vão originar as ligas camponesas, essa coisa toda. Ali começa a minha vida teatral, digamos assim. De todo aquele grupo que começou comigo, provavelmente fui o único que fiquei no teatro. Os outros foram ser médicos, engenheiros, advogados e diversos tipos de atividades. Eu fiquei fazendo teatro, nunca parei, portanto são 46 anos.

Marco Lacerda: Por que essa opção preferencial pelo teatro?

Pedro Paulo Cava: Desejo de vencer alguma coisa que estava dentro de mim. Lembro claramente, estava subindo a escada do Instituto de Educação. Em 1963, havia dois teatros em Belo Horizonte: o Instituto de Educação e o Francisco Nunes. Esse último era para profissionais, que vinham de fora, e um ou outro grupo já muito bem estabelecido aqui na cidade.

Então estava subindo a escada, o Arnaldo Bresser me puxou pelo casaco (estava frio, era julho) e falou comigo: “você está entrando pela primeira vez num teatro. Posso te dizer que nunca mais vai sair. Ficará apaixonado, como eu, e nunca mais vai sair”. Como ele não foi possível, porque virou médico, nunca mais fez teatro, embora fosse de uma família de artistas - esses ‘Bresser’ têm uma história em Belo Horizonte dos anos 1940 de cantores líricos, artistas. Mas virou médico.

Eu continuei a minha trajetória. Dali pulei para a Escola de Tradutores e Intérpretes, onde estudava alemão e russo, e também tinha um grupo de teatro. De lá pulei para o Teatro Experimental, fui aluno do Jonas Bloch e do J. D’Ângelo, que considero meus pais teatrais, e o Helvécio Ferreira. O curso ministrado por eles foi muito interessante, porque aconteceu na Federação do Comércio, que era ali perto do Cine Palácio, hoje não existe mais. Aliás, não existe quase cinema de rua em Belo Horizonte.

Desse curso fui para o Teatro Experimental, de lá fundamos o Teatro Infanto-Juvenil Popular (TIP). Vou para a Faculdade de Filosofia (a Fafich, virei ‘faficheiro’), passei no vestibular de sociologia. Dentro da Fafich começo a dar aula para os meus companheiros de escola. Começo a dar aula também na Cultura Inglesa e na Aliança Francesa, vou criando cursos, agitando, e nunca mais sai.

Depois criei o Teatro de Pesquisa, que é essa entidade que existe até hoje, vou montando um espetáculo atrás do outro, criando oficinas, sou presidente do Sindicato dos Artistas, faço parte de todo esse movimento contra a censura, pela anistia, sempre esse engajamento político.

Daí tenho que voltar um pouquinho lá atrás, na época da esquerda católica, que eu largo e entro no ‘partidão’, com uns 15 para 16 anos. E também me torno um ateu, culpa do Carlos Heitor Cony. Quando li ‘Informação ao crucificado’, cheguei a conclusão que essa história de Deus, religião e Igreja não me interessava mais. E vou embora, tocando minha vida até hoje. Nunca mais sai do teatro, mas tenho outras atividades, como galerias de arte e outras coisas.


Marco Lacerda: Em sua opinião, qual foi o momento mais expressivo na história do teatro nacional? Por quê?

Pedro Paulo Cava: A regulamentação da profissão de artista em 1978, ainda no governo Geisel. A luta contra a censura, as passeatas de 1968. Esses dois fatos vão estabelecer uma ruptura dos artistas e uma capacidade de se organizarem, independente das diferenças estéticas, pessoais, e até do viés político. Se eles não se organizassem, não teria como sobreviver dentro do quadro que estava se formando.


Marco Lacerda: Pergunta de um internauta: porque que os artistas mineiros investem tanto em comédias de má qualidade?

Pedro Paulo Cava: Porque existe uma fatia muito grande de público que demanda essas comédias. Alguns artistas, não são todos, só investem nesse tipo de comédia de má qualidade porque tem um público muito grande que consome.

Acho que é um erro de duas partes: o artista considera que esse público vai manter isso funcionando por muito tempo ou pela vida inteira. Ledo engano. Em algum momento o público não se ilude mais. E principalmente não se ilude com a falta de produção, com a má qualidade do texto, das comédias.

O brasileiro gosta de comédia, somos seres extremamente felizes, o brasileiro gosta de rir, isso faz parte da história do teatro brasileiro. São os grandes comediantes que fizeram o teatro brasileiro. Percebendo isso, muitos artistas fazem coisas de péssimo gosto, mal acabadas, simplesmente com um olhar no cifrão. Mas ver uma boa comédia é muito bom! Quando tem grandes artistas, não é uma repetição de fórmulas. Quando o comediante se esmera para fazer você passar momentos agradáveis.