Thiago de Mello: o clamor de um poeta

2011-07-08

Thiago de Mello nasceu há 85 anos na pequena cidade de Barreirinha, no Amazonas. Cedo foi pro Rio de Janeiro, onde trabalhou como ajudante de cozinha em troca de comida e estudos. Sua atividade como poeta, que completou 55 anos, o projetou mundialmente. Uma poesia sempre combativa e humanista, marcada pela simplicidade, alheia a modismos e experimentação.

Em entrevista ao Dom Total, Thiago recorda o período de 1961 a 1964, quando trabalhou como adido cultural em Santiago do Chile, mas foi afastado do cargo por acolher refugiados políticos brasileiros em sua casa, contrariando a orientação dos militares. Foi preso na época em que as ditaduras militares se apoderaram de toda a América Latina, por participar ativamente na Organização Revolucionária do Chile, quando se tornou amigo íntimo do poeta Pablo Neruda, Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1971.

De volta ao Brasil, Thiago retornou à sua Barreirinha para uma vida marcada pela simplicidade em contato com a natureza. Mas mesmo afastado dos grandes centros, sua poesia ainda ecoa em todo o planeta, principalmente sua obra-prima, Os Estatutos do Homem, uma ode à liberdade e aos direitos humanos.

Durante sua vida, Thiago ameaçou várias vezes abandonar a poesia, mas a poesia nunca o abandonou. E ele segue escrevendo uma obra que hoje, acima de tudo, traz o clamor dirigido aos quatro cantos do mundo, chamando a atenção do Brasil para a devastação do planeta, a começar pela floresta Amazônica.

Confira abaixo trechos da entrevista, realizada pelo jornalista Marco Lacerda. No áudio acima, a entrevista completa.


Marco Lacerda: Você é um poeta conhecido em toda parte, sua poesia vale para o mundo inteiro. No entanto, você escolheu a pequena Barreirinha, no Amazonas, para viver. Por quê?

Thiago de Mello: Na verdade, foi uma opção. Eu decidi voltar do exílio um ano antes da anistia, circunstância pela qual fui preso quando cheguei do Brasil. Aprendi, no meu exílio na Europa, muito sobre devastação, o perverso desmatamento da floresta, a vida de seu povo. Professores e alunos da Universidade Gutenberg sabiam muito mais do que eu. Quando disse que eu era Amazonense, eles que queriam informações. Mas aprendi muito.

E quando cheguei ao Brasil, já trazia a idéia de morar lá. Não queria estudar a floresta amazônica em Harvard, que até tinha convite. Muitos dirigentes do IBAMA e cientistas no Brasil nunca entraram na floresta, sabem muito porque estudam fora. O povo da floresta é tão abandonado, tão esquecido! Cada vez mais, esse povo só existe quando chegam os políticos para comprar os votos.

Então, contrariei a opinião de meus amigos mais queridos, companheiros de tanto tempo, editores. Eles diziam que lá na floresta ninguém tem o costume de ler. “Eu é que vou aprender com eles, não vou ensinar nada não”, respondia. Acho que acertei. Estou buscando agora meu sexto livro em defesa da vida na floresta, que está sendo mais uma vez ameaçada com esse código florestal, que está sendo discutido. Foi a opção certa, enriqueci muito convivendo com o povo da floresta, brasileiros que vivem na floresta e da floresta.


Marco Lacerda: De que maneira o tempo, o passar dos anos, pesam na vida de um poeta?

Thiago de Mello: O tempo pesa na vida de qualquer pessoa, né? Aliás, há quatro ou cinco dias, conclui um poema que reúne o homem, o pássaro, a vida, a morte e o tempo. A morte se zanga porque colocam a culpa nela. Por sua vez, fala: “não, a culpada de tudo é a vida, que acaba com o sujeito e entrega para morte”. Mas a vida coloca a culpa no tempo, que faz durar uma pessoa que já não tem condições de viver.

Eu não tenho culpa de ter chegado com tanta juventude nesse aniversário que acabo de fazer, de 85 anos. Mas já faz tempo aprendi a diferença que existe entre mocidade e juventude. Tenho encontrado nas universidades onde vou fazer palestras - tanto no Brasil, quanto América Latina e Europa - muitos mestres e doutores que estão terminando seus estudos, com 25 anos, 30 anos, e já envelheceram. Perderam as esperanças, não se importam mais com a mudança, um egoísmo muito grande, só pensam no futuro deles.

A vida me abençoou muito me dando amizades, frequentei a intimidade de pessoas admiráveis, luminosas, bem mais idosas que eu e muito mais jovens também, como o Lúcio Costa, Drummond, Bandeira, José Lins do Rego, grandes escritores estrangeiros, como Neruda. Encontrei na Índia e Japão pessoas idosas com uma juventude enorme.
No Brasil, guardo sempre dois exemplos: o Alceu Amoroso Lima, que se foi com 91 anos. (...) Grande líder católico, já tinha chegado à conclusão de que o capitalismo nunca redimiria a miséria humana. E ele tinha razão, acreditava que o socialismo poderia ser o caminho. “Se eu não encontrar caminho melhor, eu mudo outra vez”.

O Barbosa Lima Sobrinho, outro exemplo formidável. Oscar Niemeyer, que pessoa de juventude, meu Deus! Querendo a cada dia. Por exemplo, quando eu acordo e trabalho como hoje de manhã, vejo que é possível a construção de uma sociedade humana solidária, que haja uma conscientização, mas eu sei que isso é difícil. Pelo meu poema “Os Estatutos do Homem”, acham que sou muito utópico, que eu trabalho com utopia.


Marco Lacerda: Aliás, é sobre isso que gostaria de falar. Em várias ocasiões, a crítica te reduziu à figura do poeta engajado, confundindo sua poesia combativa e humanista (de cunho popular), com ideologia e sectarismo.

Thiago de Mello: Houve mesmo esse equívoco, não só a meu respeito. A influência dos concretistas (eu não sou contra, nada mais livre do que a criação artística, cada qual faz como quer). Mas o concretismo veio com força nas universidades de São Paulo e se alastrou pelo Brasil. O problema é que eles queriam eliminar o sentimento e o verso da poesia. Coisas impossíveis. Ficar só com a palavra?

Lembro que, quando lancei meu livro sobre Borges, na chácara da Hilda Hilst, muitos papas do concretismo diziam: é engraçado, todo mundo entende os poemas do Thiago, eu gostaria de escrever um poema que ninguém entendesse. Eu disse: “nem tu mesmo?” (...)

A inquietação social faz parte da história da poesia desde o começo da humanidade, a poesia nasce do povo, por isso digo “aqui está a minha vida pronta para ser usada”. Por causa dessa pergunta que me fizestes, me dei ao trabalho paciente - e até gostei - de ver esse livro que o Ênio Silveira lançou, com poemas concebidos pelo autor e seus leitores. Há trechos de poemas que não são da chamada poesia de resistência. Poemas líricos, sobre a criança, poemas de amor, sobre a morte. Fizeram, inclusive, poemas metafísicos. O Thiago de Mello, este rapaz com quem está falando.