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24/09/2010 | domtotal.com

Um fetiche dos brasileiros

O carro no Brasil é como a roupa. É a forma como o dono se apresenta para a sociedade

Por Carlos Campos

"O carro é mais ou menos como a roupa. É a forma como o dono se apresenta para a sociedade. Está presente no dia a dia e revela um pouco da personalidade do proprietário", analisa Carlos Campos, Consultor de montadoras, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Eis a entrevista:

Por que o carro exerce tamanho fascínio entre os brasileiros?

O carro é mais ou menos como a roupa. É a forma como o dono se apresenta para a sociedade. Está presente no dia a dia e revela um pouco da personalidade do proprietário.

Os congestionamentos infernais diminuem a demanda por carros?

Não há relação. É mais fácil o consumidor mudar seus hábitos na cidade. Mora mais perto do emprego, sai para o trabalho mais cedo ou põe o filho em escola vizinha.

Qual o reflexo do aquecimento das vendas em São Paulo?

Fora os congestionamentos, vemos novas tendências. Duas delas são as concessionárias e estacionamentos verticais, que começam a surgir por falta de espaço.

Menos carros, outra cidade

O empresário Oded Grajew é um dos idealizadores do Movimento Nossa São Paulo: Outra Cidade, que reúne integrantes de 250 organizações da sociedade civil e difunde o Dia Mundial Sem Carro na capital paulista, a ser marcado por diversas atividades.

Grajew é um dos fundadores da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente e do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. Foi assessor especial do presidente Lula em 2003 e é um dos idealizadores do Fórum Social Mundial. Em entrevista para a Revista do Brasil - edição número 16, setembro de 2007, ele alerta sobre os perigos de um modelo de mobilidade urbana que prioriza o carro a qualquer custo. Eis a entrevista:

Para o cidadão de São Paulo deixar o carro em casa mais vezes por ano, o que precisa mudar?

Numa cidade dessa magnitude, é evidente que o transporte público deveria ser priorizado, com metrô, ônibus e lotações. Mas a mobilidade urbana envolve muitas outras coisas que também precisam ser melhoradas, como andar a pé e de bicicleta. As calçadas são de baixa qualidade e a faixa de pedestres não é respeitada. A idéia do Dia Mundial Sem Carro é justamente essa, discutir o modelo como um todo.

Que problemas a cidade tem ao priorizar o carro como meio de transporte?

A qualidade de vida das pessoas diminui, perde-se tempo demais parado no trânsito e a poluição aumenta. Em média morrem dois pedestres e um ocupante de carro por dia, envolvidos em acidentes. Fora a perda de espaços públicos, em parques e praças de esporte, para a construção de estacionamentos.

Passado o Dia Mundial Sem Carro, o que fica para a cidade?

A idéia é que as pessoas fiquem mais conscientes. Também preparamos uma emenda à Lei Orgânica do Município. Queremos que os próximos prefeitos, 90 dias depois de assumir, apresentem metas a ser cumpridas, as quais poderão ser fiscalizadas a partir de indicadores que serão criados, de congestionamento, poluição, acidente, saúde. Com isso, a sociedade poderá acompanhar ano após ano a evolução desses números e cobrar os administradores públicos. Em princípio, o atual prefeito, Gilberto Kassab, e os vereadores apóiam o projeto.

Como o senhor reduz os danos causados pelo trânsito em sua vida?

Moro no Pacaembu e meu escritório fica em Pinheiros, dois bairros próximos. Eu gosto muito de cultura, teatro, cinema, e costumo andar a pé até eles. De vez em quando uso metrô e táxi, e, quando preciso, pego o carro.

Brasil precisa quebrar a ‘cultura de que ônibus é para pobre’...

Ao contrário da Europa, Ásia e América do Norte, o uso do transporte público no Brasil se vincula à falta de dinheiro. Quem tem carro dificilmente troca o conforto e, sobretudo, a segurança do transporte individual pelo ônibus. Isso acontece pelo fato de os benefícios ofertados pelo transporte coletivo ainda não compensarem a mudança.

Em Nova Iorque, Tóquio ou Paris, os deslocamentos levam menos tempo. Especificamente em Curitiba, os sistemas não convencem a deixar o carro em casa: são lentos e não oferecem segurança. Para mudar o panorama, cabe aos gestores municipais inverter a lógica de investimento: mais para ônibus e menos para carros. Na avaliação do superintendente da Associação Nacional dos Transportes Públicos, Marcos Pimentel Bicalho, os gestores públicos temem encarar a pressão da sociedade caso deem preferência aos ônibus.

“Existe muita resistência, porque os formadoras de opinião usam automóveis”, afirma. Por esse motivo, a lógica equivocada na aplicação de recursos das prefeituras persiste. “O prefeito acredita que vai se sair bem se melhorar as condições para os carros, asfaltando as ruas ou ampliando as avenidas”, opina o professor do Departamento de Transportes da UFPR, Garrone Reck.

Incentivo federal

Não existe cultura estadual e federal de incentivo ao transporte público, na avaliação de Bicalho. Durante a crise econômica, o governo federal baixou o IPI (Imposto sobre Produto Industrializado), multiplicando o número de carros nas ruas. Para Reck, a medida era necessária à época para manter a economia estável. Agora, no entanto, é o momento de “mudar a chave”. “No curso normal da economia, não pode haver privilégio para a indústria automobilística. A infraestrutura deve ser pensada para privilegiar o transporte público, em todas as esferas”, diz o professor da UFPR.