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29/04/2019 | domtotal.com

A era da pornodependência

Homens e mulheres estão cada vez mais submissos à pornografia via internet.

A pornografia cumpre o requisito das drogas viciantes: recompensa imediata.
A pornografia cumpre o requisito das drogas viciantes: recompensa imediata.

Por Marco Lacerda*

Poucos admitem, mas todo mundo (ou quase) adora pornografia de vez em quando. As estatísticas de 2017 da plataforma Pornhub comprovam que a libertinagem é uma das atrações que os internautas mais gostam de pesquisar nas redes.

No ano passado, a plataforma de vídeos eróticos contabilizou 81 milhões de visitantes por dia, com 28,5 bilhões de visitantes no ano, fazendo mais de 24 bilhões de pesquisas. Isso significa 50 mil buscas por minuto, ou 800 a cada segundo!

O serviço contou ainda mais de 4 milhões de vídeos disponibilizados ali em 2017, reunindo nada menos do que 595.492 horas de visualização. Se você decidisse fazer uma super-maratona pornográfica somente com o conteúdo do Pornhub em 2017, seriam necessário 68 anos para terminar de assistir a tudo na íntegra.

Ainda de acordo com o relatório, a cada cinco minutos o Pornhub transmite uma quantidade de dados maior do que conteúdos inteiros da biblioteca pública de Nova Iorque, que tem 50 milhões de livros em seu acervo.

Entre os termos mais buscados no ano passado, estão "pornô para mulheres", "Rick and Morty" e "Fidget Spinners", mostrando que os consumidores de pornografia têm gostos bem variados. Já quanto às buscas de pornografia para mulheres, isso mostra que elas estão buscando conteúdos eróticos feitos para o público feminino, aqueles que não colocam mulheres em posições degradantes e que, de alguma forma, ‘empoderam’ o gênero.

No topo do ranking de acessos ao Pornhub, com tempo médio de 9 a 13 minutos, estão Estados Unidos, Canadá, México, Colômbia, Paraguai, Venezuela, Austrália e a maioria dos países da África.

O Brasil está na categoria de usuários que passam de 7 a 9 minutos nos portais adultos. Está acompanhado de uma grande parte da Europa e da América do Sul.

Viciados em pornografia

A pornografia pode agir como uma droga. Cada vez mais pessoas procuram terapeutas com problemas ocasionados por consumo exagerado do tema. Mas também pode ajudar a resolver uma fase de apatia casais.

Os terapeutas tratam cada vez mais problemas derivados do consumo habitual de pornografia. “A saturação de sexo com muito impacto provoca um desencanto com a companheira, que não pode oferecer a imagem e o grau de excitação que um consumidor de pornografia precisa, acostumado a um nível altíssimo de imagens fabricadas para seu estímulo, com mulheres escolhidas a dedo”, diz o sexólogo e terapeuta espanhol Pedro Villegas.

A pornografia cumpre os requisitos das drogas viciantes: há uma recompensa imediata —masturbação e orgasmo— e pode ser repetida quantas vezes quiser de maneira fácil, privativa e gratuita. O começo é com cenas mais leves, suficientes no princípio ao estímulo e à liberação de dopamina. Com o tempo, para que se produza a excitação e esse neurotransmissor seja liberado, é preciso um impacto cada vez mais forte, um estímulo maior, ver cenas mais explícitas.

Villegas lembra quando a simples visão de um corpo provocava uma ereção: “Nessa época se via pornografia para acabar com um transtorno, normalmente a dificuldade para se excitar com a companheira e a solidão. Agora esses transtornos não são a causa da pornografia e sim sua consequência”.

De fato, o consumo de pornografia está muito relacionado à solidão, de acordo com os especialistas. “Existem homens de 30 a 40 anos que preferem ficar sozinhos, sem ninguém, porque a pornografia oferece sexo sem problemas. O homem tem um desejo finalista, seu objetivo é ejacular, e com a pornografia tem sexo rápido e sem problemas.

O medo de falhar provoca ansiedade, e sem uma companheira não precisa satisfazer uma mulher e se arriscar a que ela não queira fazer sexo em determinada noite”, afirma o especialista. “Ideias como a de que a mulher só existe para dar prazer estão causando essa solidão cada vez maior e uma falta de compromisso com a companheira, em troca de uma sexualidade que consiste somente em ver, sem outros sentidos e sem enxergar as consequências dessa vida solitária no futuro”.

Quando o sexo fica chato frustrante

O consumidor requer cenas cada vez mais explícitas para se excitar e para que o corpo possa liberar dopamina. Segundo Villegas, isso está provocando um aborrecimento sexual por insatisfação nas mulheres: no pornô, geralmente, a mulher é um objeto sem outro desejo e prazer a não ser satisfazer o homem. “Essa bobagem de querer que todo mundo faça sexo o tempo todo, mesmo sem vontade, está transformando o sexo em algo chato e frustrante para a maioria, especialmente mulheres que pensam que se não sentem prazer com isso é porque são reprimidas e não sabem fazê-lo”.

Apesar da afirmação anterior, é indubitável que a pornografia, dependendo do gosto de cada um, é excitante, desinibe e desperta o desejo. E isso pode resolver uma fase de apatia entre o casal. As condições para que estimule e fortaleça a relação são claras: que seja uma decisão acertada entre os dois e que compartilhem o momento. Villegas acrescenta uma precaução: “Evitar que se transforme em costume, que o casal não consiga se excitar sem essas imagens”.

Para o casal que não vê esse momento chegar, Villegas recomenda uma sugestiva terapia alternativa ao batido vídeo: “Eu proponho que leiam um ao outro passagens de literatura pornográfica. Aí entram a voz, os sentidos, a imaginação de cada um. Escutar coisas fortes, mais explícitas, do outro, isso é muito mais prazeroso e excitante do que ver uma tela”. A literatura, afinal, sempre é um salva-vidas que nos resgata do vácuo e dá sentido ao prazer.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total.

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