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13/05/2019 | domtotal.com

Louca jornada vida afora

Os transexuais vivem no anonimato de um desencanto vizinho da morte.

Kim Pérez:
Kim Pérez: "Eu vivia numa sala de espera diante de uma porta que nunca se abria".

Por Marco Lacerda*
De Granada (Espanha)

Conheci o jesuíta e psicanalista espanhol Carlos Morano num jantar informal no Restaurante Cafetina, em 2004, em Belo Horizonte. Morano estava encerrando na capital mineira um ciclo de palestras sobre sexualidade que o levou às principais capitais brasileiras. Uma das palestras que realizara pouco antes em Granada, na Espanha, contara com a participação de um doutor em História de 63 anos, Joaquim Pérez Fígares, transexual às vésperas de fazer uma cirurgia para mudar de sexo.

O tema Kim Pérez, como ela é amplamente conhecida na Espanha, dominou a conversa naquele jantar no Cafetina, que contou com a participação de outros jesuítas e psicólogos. Depois de tentar explicar de todas as maneiras possíveis a incógnita da transexualidade, Morano concluiu seu raciocínio dizendo diante de uma plateia boquiaberta: “Como sacerdote e psicanalista, para mim é tão difícil compreender o mistério da Santíssima Trindade quanto o enigma da transexualidade”.

Uma semana depois daquele jantar no Cafetina, eu estava em Granada, sentado diante de Joaquim Pérez, na varanda do refinado restaurante El Mercader, com vista para La Alhambra, a monumental fortaleza erguida nos anos 1500 pelo imperador Carlos V, que abriga o que existe de mais apoteótico na arte muçulmana e hoje é uma das maiores atrações turísticas da Espanha.

“Com raras exceções, todo transexual carrega consigo uma dor só comparável às depressões mais fortes, que começa na infância ou na adolescência, misturando vergonha, humilhação e culpa”, diz Pérez, que já foi “ele” e hoje é “ela”. Esse sentimento, explica, nasce da incapacidade do transexual de compreender a si mesmo, de não ser capaz de responder a uma pergunta que a maioria das pessoas tem na ponta da língua: o que sou eu, homem ou mulher?

“A Igreja não me absolvia nem apontava caminhos”

Kim é o mais velho dos oito filhos de uma tradicional família de Granada, na Andaluzia. Os primeiros indícios de sua transexualidade apareceram aos 10 anos. A mãe, dona de casa, olhava tudo com o espanto próprio de uma época em que sequer existia a palavra transexual. O pai, coronel da Aeronáutica, nunca reprimiu o filho, tampouco o compreendeu. “Todos achavam que eu era homossexual”, lembra Kim.

O isolamento neurótico em que Joaquim passou a viver levou os pais a interná-lo numa clínica psiquiátrica, onde foi submetido a um tratamento chamado de “coma insulínico”, baseado em doses potentes de insulina que o induziam a longos estados de coma, seguido de doses de glicose para voltar à realidade. Três meses e 30 doses de insulina depois, Joaquim abandonou o tratamento da mesma forma como entrara, de coração e mente vazios. Movido por uma sólida fé cristã, o jovem Joaquim buscava conforto na religião, “mas a Igreja aos poucos ia me deixando doente, porque não me absolvia nem apontava caminhos”.

No final dos anos 60 concluiu o curso de História e começou a dar aulas na Universidade de Granada. Aos 30 anos, abandonou a profissão e a Igreja e mudou-se para a Inglaterra. Trocou a cátedra na Espanha por um emprego como lavador de pratos em Londres. De volta ao seu país, três anos depois, com a ajuda de tratamentos psicológicos, Joaquim retomou a carreira de professor universitário. Aos 50, ao fazer um balanço de sua história pessoal, sentiu-se diante de uma página em branco. “Era como se eu vivesse numa sala de espera diante de uma porta que nunca se abria”.

“Não vivi até agora, mas estou vivo”

Kim Pérez está em greve de fome contra a ascensão da extrema direita na Andaluzia. Kim Pérez está em greve de fome contra a ascensão da extrema direita na Andaluzia.

Foi em Madri, no começo dos anos 90, que a vida de Joaquim deu uma guinada. Numa boate gay, conheceu uma garota, ou, melhor dito, um garoto transformado em garota graças a uma intervenção cirúrgica. “Era uma mulher linda, exuberante, vivendo sua sexualidade em toda a plenitude, sem os medos que me marcaram”, recorda. Naquele dia, Joaquim se deu conta de que tinha desperdiçado sua vida, vítima de anos de repressão. Disse a si mesmo: “Não vivi até agora, mas estou vivo”.

Não muito depois iniciou um tratamento hormonal como primeiro passo para a troca de sexo. Em 1995, aos 54 anos, depois de uma cirurgia de quatro horas, estava consumada a transição. Nascia Kim. Depois da mudança, Kim passou de uma situação quase desumana, de verdadeiro inferno, a outra, radicalmente diferente, cheia de esperança. Como professor universitário, terminou um semestre letivo de terno e gravata e voltou para o semestre seguinte de saia e blusa.

Kim admite que a cirurgia não o transformou em mulher. “Continuo sendo um transexual, só que agora mais sereno, equilibrado, forte”. Um mundo novo descortinou-se para ela. Novos amigos e amigas começaram a aparecer e surgiu na vida de Kim um sentido de missão, de servir a outros transexuais, de pavimentar o caminho para que a transição para a sexualidade à qual pertencem não seja tão traumática como foi a sua.

“É como se a natureza tivesse pregado uma peça”

Apesar dos avanços, a realidade enfrentada pelos transexuais ainda é cruel. A maioria – calcula-se que são 200 mil em todo o mundo – vive da prostituição, mesmo sendo dotados de talentos que, não fosse a discriminação, os permitiriam escolher outra forma de sobrevivência. Muito disso, diz Kim, “se deve àqueles pesados anos de disciplina católica baseada nas teorias naturalistas de São Tomás de Aquino, segundo as quais extirpar um órgão sadio é considerado uma aberração”.

Em meio à entrevista, Kim desaba num pranto convulsivo provocado pelas memórias de um passado ainda à flor da pele. Imediatamente me dou conta de que estou diante de uma celebridade. Garçons e frequentadores engravatados aproximam-se da nossa mesa olhando para mim com severa atitude de repreensão, ao mesmo tempo em que tentam proteger a ilustre frequentadora de um possível oportunista. Kim intervém com firmeza: “Não se preocupem. Este senhor é um jornalista do Brasil. Estou dando uma entrevista”.

Transexualismo não é perversão, obsessão ou transtorno mental. Tampouco é uma doença. Portanto, do ponto de vista científico, não há o que curar. A explicação é do cirurgião plástico italiano Marco Loiácono, 45 anos, que tem curso de especialização em cirurgia de mudança de sexo na Universidade de Groningen, na Holanda. Mesmo não havendo o que curar, a transexualidade pode ser geradora de sofrimentos insuportáveis. “O pior deles é a pessoa ter um aspecto físico – masculino ou feminino – que lhe parece estranho, como se a natureza lhe tivesse pregado uma peça”, diz Loiácono.

O caminho até uma operação de mudança de sexo não é fácil. Na Espanha, por exemplo existem apenas três especialistas no assunto. A psicóloga Lola Izquierdo faz parte desse reduzido grupo. “O objetivo é evitar que alguém que não seja transexual chegue a um ponto sem retorno”, explica Lola. Daí a importância da terapia psicológica preparatória. Uma pessoa que queira mudar de sexo deve estar continuamente sob observação desde o momento em que começa o tratamento hormonal. Se alguma coisa vai mal nesta fase, ainda é possível voltar atrás. A última etapa, chamada de “teste da vida real”, dura um ano. Neste período, espera-se que a pessoa viva com desenvoltura no sexo que deseja. A operação só é feita em quem supera esta fase com êxito”, diz. Uma das clientes de Lola, a transexual Mercedes Camacho, é um exemplo bem sucedido. Sua vida mudou depois de operar-se aos 19 anos. “Hoje, aos 32 anos, sou casada e muito feliz”, comemora Mercedes em conversa por telefone.

“A hipocrisia dos fariseus de hoje”

Graças à militância orquestrada por Kim Pérez desde Granada, com repercussão nacional, o governo do então presidente José Luiz Zapatero submeteu ao Congresso um ousado projeto de direitos humanos que inclui o direito à identidade sexual. O projeto, aprovado pelo Parlamento Europeu, permite aos espanhóis mudarem de sexo inclusive nos registros civis. A medida completa uma outra, conquistada há mais tempo, concedendo o direito de mudar de sexo a todas as pessoas que, desde a juventude, advertem que não pertencem ao sexo em que estão registradas em cartório. “Nosso próximo passo é estender a gratuidade da cirurgia (que pode custar R$ 100 mil) a toda a Espanha”, promete Kim com a segurança de quem já se tornou uma figura de projeção nacional.

O ativismo político de Kim Pérez não tem limites. Aos 77 anos, ela acaba de dar mais um passo em favor da comunidade LGBTQ ao declarar-se em greve de fome. Seu temor é um retrocesso nas conquistas alcançadas até agora com a chegada ao poder, no Parlamento da Andaluzia, do partido Voz, de extrema direita, com 400 mil votos. No momento, além dos partidos de esquerda, os transexuais espanhóis contam com o apoio de organizações médicas e dos movimentos feminista e ecológico – uma força que representa 10% da população do país, com influência no resultado de qualquer eleição. Mesmo assim, ainda são rechaçados pela Igreja. “O Vaticano proíbe o nosso ingresso na vida religiosa. À primeira vista, o veto pode parecer normal e até divertido. Já pensou eu, Kim, de monja carmelita? O que me espanta, porém, é a hipocrisia. Como podem condenar a sexualidade alheia homens que renunciaram à própria sexualidade”?, pergunta.

O caso dos irmãos gêmeos transexuais

Os irmãos gêmeos Jack e Jace Grafe depois da cirurgia que os transformou em homens Os irmãos gêmeos Jack e Jace Grafe depois da cirurgia que os transformou em homens

Pais e jovens transexuais de todo o mundo desembarcam em Granada em busca da orientação e da experiência de Kim Pérez. É o caso dos irmãos gêmeos Jack e Jace Grafe, 23 anos, da Geórgia, nascidos como Jaclyn e Jennifer mas que, com o passar do tempo, começaram a sentir-se mais confortáveis como homens. A transição sexual foi feita em setembro do ano passado.

“Sinto-me feliz como nunca na vida”, diz Jack em entrevista por e-mail, “aquela sensação de desconforto comigo mesma desapareceu completamente”. Jace lembra que quando crianças, “ambas íamos dormir chorando na esperança de acordar homens no dia seguinte”. Os meninos cresceram numa família religiosa onde o pai é um pastor evangélico. Nunca tinham visto ou ouvido falar de coisa parecida. “A família desses rapazes nunca havia tido contato com gays ou transexuais”, acrescenta Kim Pérez.

“Ser integrante de uma dupla de gêmeos nos dá a certeza de que não estamos sozinhos e de que pelo menos uma pessoa está vivenciando sentimentos idênticos aos seus. Isto nos deu força e coragem para seguir em frente”, diz Jack. Os dois rapazes atualmente trabalham como policiais na Geórgia.

O anonimato de um desencanto vizinho da morte

O que mais impressiona o psicanalista jesuíta Carlos Morano é o fato de Kim não ser apenas uma pessoa em busca da aceitação de sua condição sexual, mas de um ser humano comprometido com sua fé. Para Morano, “o problema da Igreja, ao longo dos séculos, não é com hetero, homo ou transexualismo, mas sexo. O que a hierarquia católica prega sobre o assunto é fruto de dedução filosófica, não de experiência pessoal. Jesus sequer menciona sexo em seus ensinamentos, a não ser para desmontar preconceitos”.

Por causa de preconceitos ostensivos, Kim Pérez rompera com a Igreja, prometendo não mais voltar. Mas não tardou em perceber, como católica, que sua luta deveria ser travada dentro da Igreja. “Um transexual rompe com o esquema da lógica da maioria das pessoas, mas quem mais nos discrimina são os católicos à moda antiga, os fariseus de hoje”. Por isso, o compromisso de Kim passou a incluir, também, “a luta por uma Igreja cujos atos sejam mais coerentes com os ensinamentos de Jesus. Hoje em dia entro em qualquer igreja, segundo as minhas necessidades. Se alguém quiser me expulsar, que chame a polícia”, conclui.

No Brasil, só se toma conhecimento dessa realidade amarga quando ela é apresentada, via show business, de forma confeitada, carnavalizada e personificada em tipos como Pablo Vitar, Roberta Close, Rogéria e tantos outros. A maioria dos transexuais, porém, atravessa a vida sem contar sequer com o aceno de uma mão amiga, chorando pelos cantos, no anonimato de um desencanto vizinho da morte.

*Esta reportagem só foi possível graças ao apoio financeiro e logístico da Dom Helder Escola de Direito e sua política de defesa dos direitos humanos e da diversidade sexual.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total.

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