SuperDom Fato em Foco

01/09/2020 | domtotal.com

Religião sem educação é barbárie

O estuprador da menina de 10 anos sequer foi acusado de crime hediondo

'O que esses grupos fundamentalistas fazem é naturalizar o estupro'
'O que esses grupos fundamentalistas fazem é naturalizar o estupro'

Nora Prado*

A última dos "cidadãos de bem" que montaram guarda na frente do Hospital Centro Integrado de Saúde Amauri de Medeiros, onde a menina de 10 anos foi internada para realizar o aborto legal, foi assunto bastante discutido através das redes sociais nas últimas semanas. De fato, é revoltante ver como fiéis ardentes se sentiram no direito de acusar uma vítima de abusos sexuais – estuprada pelo tio desde os seis anos de idade, culminando numa gravidez precoce e indesejada –como se ela fosse a culpada. Enquanto isso, o estuprador, um ex-fugitivo da justiça preso em Minas Gerais, sequer foi mencionado pelo seu crime hediondo. Sequer foi acusado de criminoso, tampouco foi perseguido pelos guardiões da moral e dos bons costumes.

O que esses grupos evangélicos neopentecostais e cristãos fundamentalistas fazem, na sua maioria, é distorcer a verdade naturalizando o estupro e amputando a culpa à menina e, ainda por cima, se achando no direito de interferirem na vida dela. Ora, como é possível pretenderem dispor do corpo e da vontade de uma menina de dez anos de idade para que leve adiante uma gravidez indesejada? Como é possível a perversidade de manter uma gravidez de alto risco, com perigo de morte para a criança e a mãe? Como podem admitir que a criança assuma o filho de um estupro? Como é possível que uma criança, que ainda brinca de boneca, sem maturidade física nem psíquica, transforme-se em mãe? Que aberração é esta? Talvez apenas mais uma das inúmeras aberrações desde que os pastores destes templos malditos se multiplicaram pelo país. Desde que a classe política se esqueceu de dar assistência social, educação e cultura para as populações carentes das periferias do país.

Para cada programa sócio cultural cancelado ou inexistente, uma igreja ocupada deu conforto espiritual e protagonismo para milhares de pessoas cuja fome de sentido e valorização da vida foi preenchida pelo evangelho tosco de rebanho. Onde esses mesmos pastores, além de cobrar dízimos abusivos, foram os cabos eleitorais da milícia e dos milicianos que se instalaram no poder. Os mesmos que pretendem taxar livros e liberar as armas para a população. Os mesmos que em nome de Deus tem estuprado a Amazônia e as nações indígenas, cavado as covas dos mais de 120 mil mortos pela Covid-19 e estão rifando o Brasil a troco de banana.

Inspirados pelo capitão oportunista que ora nos desgoverna, em nome de Deus e do falso moralismo, esses pseudo-defensores da vida atropelam tudo aquilo que antigamente seria tratado com lógica e bom senso. Não percebem que são massa de manobra para legitimar os abusos de poder e a ideologia perversa em curso no país. Onde a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, pastora evangélica sem nenhuma formação técnica para a função, ao contrário do que o cargo exige, trabalha justamente contra a mulher, a família e os direitos humanos. Além de tratar as questões de gênero e sexualidade como uma legítima inquisidora medieval, persegue toda e qualquer ação que visa esclarecer e lançar luzes para a população.

Por seu intermédio velado, a menina recebeu a visita de pastores evangélicos que tentaram dissuadi-la e à sua avó a desistir do aborto, assim como também a assediaram com discursos moralistas, inclusive dentro do hospital. Damares, com seu discurso grotesco e caricato, tem prestado um desserviço ao país no momento que se comporta como pastora no lugar de responder, de maneira responsável, à um problema que aflige crianças e jovens em situação de vulnerabilidade no país. Nunca escondeu sua ojeriza à ciência, bem como ao aborto legal, mesmo que respaldado pela lei e as garantias constitucionais brasileiras.

Esse frenesi moralista alimentado por ela, inclusive, parlamentares de extrema direita e seguidores ignorantes, transformou o que deveria ser apenas um caso de cumprimento legal de um expediente de justiça, num espetáculo deprimente. O Hospital do Espírito Santo onde o procedimento deveria ser realizado se negou a fazê-lo, alegando que o prazo da gravidez tinha excedido o tempo previsto para a intervenção. Diante da negativa, a menina e sua avó foram obrigadas a viajar para o Recife. Na chegada, temendo represálias, passaram pelo constrangimento de ocultarem a menina no porta malas do táxi e entraram pela porta dos fundos do hospital, fugindo do assédio dos fanáticos de plantão. Em vigília na frente da clínica onde seria feito o procedimento cirúrgico, a manada de bestas humanas, gritava em coro: "Assassina!" e "Assassinos!", respectivamente para a criança e para a equipe médica. Tudo porque Sara Winter, uma fascista bolsonarista, expôs o endereço do hospital e o nome da criança pelas redes sociais, estimulando que esse bando de hipócritas, apoiados por parlamentares fundamentalistas, se dirigisse para o local causando tumulto e atrapalhando a rotina da instituição. O caos instaurado só terminou quando policiais e também um grupo de feministas, a favor da menina, se opôs firmemente ao bando, obrigando-os a deixar o local.

‘Damares Alves trabalha contra a mulher, a família e os direitos humanos’'Damares Alves trabalha contra a mulher, a família e os direitos humanos'O procedimento foi realizado e a menina passa bem, recuperando-se no quarto acompanhada da avó, das duas pelúcias de brinquedo, um sapo e uma girafa, além de massinhas coloridas para modelar, presente do grupo de apoio das mulheres. O pior já passou e agora é tentar esquecer essa passagem pelo inferno. Porém, o trauma sofrido por ela durante os anos consecutivos de abusos sexuais, junto com a dor, o nojo, a vergonha, o medo e a culpa seguirão com ela. O pesadelo a acompanhará pelo resto da vida, prejudicando sua auto-estima e os seus relacionamentos futuros, bem como a sua visão do masculino. Além dos danos emocionais, nada garante que também não tenha, como sequela, distúrbios psíquicos.

O detalhe mais chocante desta história horripilante é que casos de estupro como o dessa menina, que ganhou destaque nacional, são muito mais comuns do que se imagina. A cada hora, no Brasil, 1 a 4 meninas entre 10 e 14 anos são estupradas diariamente. A média de internações diárias para o aborto legal chega a seis. Sem contar com os abortos clandestinos ou, o que ainda é pior, a maternidade na infância. Só nesta clínica, são realizados 50 procedimentos de interrupção de gravidez ao ano.

Além de se tratar de um imenso caso de saúde pública e de polícia, as estatísticas revelam também um caso de educação, ou melhor, da sua falta. Quando o Estado falha neste aspecto fundamental, o ciclo de abusos se torna endêmico. Educação sexual é uma questão de família, mas também da escola. Quanto mais se conversar abertamente sobre sexualidade, prazeres e riscos que envolvem esse assunto, maiores chances de esclarecimento para crianças e jovens. Uma das principais funções de uma educação sexual na escola é aprender a reconhecer e denunciar o abuso sexual. Como isso ocorre normalmente dentro da família, é no ambiente escolar que este comportamento pode ser devidamente abordado.

Ao contrário dos países desenvolvidos da Europa e Estados Unidos, onde não há criminalização do aborto nem da mulher e o estado apóia a sua interrupção, no Brasil a questão não foi devidamente tratada e elucidada pelo governo, nem interessa a classe política, na sua maioria homens conservadores e retrógrados, para avançar como pauta fundamental. Até a Itália, católica apostólica romana, garante esse direito às mulheres. Na América Latina, essa discussão ainda engatinha, com exceção do Uruguai, que prevê o aborto legal como política pública para suas cidadãs.

´Pastores evangélicos disseminam interpretações rasteiras e machistas da Bíblia´'Pastores evangélicos disseminam interpretações rasteiras e machistas da Bíblia'Nem bem digerimos a brutalidade com que esse caso foi tratado e já existe uma nova lei que altera o procedimento legal a ser adotado por médicos e profissionais da saúde no atendimento de vítimas de estupro e que queiram abortar. Na nova portaria será sugerido à gestante que veja imagens do próprio feto através da ultrassonografia e ela será submetida a um extenso questionário sobre o estupro. A equipe médica também deverá comunicar o caso às autoridades, independente do consentimento da vítima, registrando queixa ou identificando o agressor. No termo de consentimento, a menor terá de relatar em detalhes a violência sexual sofrida. Ou seja, ao invés de acolhimento e proteção a jovem, mais constrangimentos e manipulação de sua vontade pela força do Estado. Ao invés de solidariedade, criminalização e culpa.

O mais lamentável nisso tudo é perceber que as vozes da ciência e da medicina são desqualificadas por pastores fundamentalistas que disseminam, através de interpretações rasteiras e machistas da Bíblia, preconceito, ignorância e ódio generalizados entre os seus fiéis. Ao invés de informação, diálogo e compaixão, estimulam a aceitação incondicional de dogmas e obediência cega a eles. Quando isso acontece, percebemos o horror a que estamos expostos, pois esse comportamento intolerante e agressivo é o mesmo que persegue religiões diferentes da sua, destruindo imagens e queimando templos religiosos de matriz africana. Perseguindo devotos do candomblé, umbanda, espiritismo e qualquer outros  que destoem dos seus preceitos religiosos. O mais dramático, no entanto, é saber que esses milhões de doutrinados cristãos se relacionam politicamente da mesma forma estreita e mesquinha. Tratam a política como campo religioso e acreditam nos falsos messias de plantão com seus discursos medíocres e tatibitates.

Oxalá que as esquerdas unidas tomem para si o dever de separar religião da educação, ciência e política, restaurando o Estado laico que é a base fundamental para a tolerância e o progresso do nosso país. Está mais que provado que religião sem espiritualidade é fanatismo e religião sem educação é barbárie, combustíveis propícios para os regimes de exceção e os Estados fascistas. Ao que parece, cenário muito semelhante ao que enfrentamos nessa pandemia sanitária, política e religiosa.

*Nora Prado é atriz e poeta gaúcha. Sócia-fundadora da Cia Megamini, produz, ao lado do ator Gabriel Guimard, espetáculos infanto juvenis. É professora de interpretação para Teatro, Vídeo e Cinema. Publicou seu livro de poesias ‘A Espessura da Vida’ em 2017.

Comentários