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09/11/2017 | domtotal.com

Negros enfrentam mais dificuldades que brancos no mercado de trabalho, diz MPT

Pesquisador da Unifesp aponta que negros sofrem três tipos de preconceito no ambiente de trabalho: ocupacional, salarial e de imagem.

A  média de salário do homem branco é R$ 2.507; a do homem negro, R$ 1.458.
A média de salário do homem branco é R$ 2.507; a do homem negro, R$ 1.458. (Marcello Casal Jr/Arquivo/Agência Brasil)

Os negros enfrentam dificuldade na progressão de carreira, na  igualdade de salários e são os mais vulneráveis ao assédio moral no  ambiente de trabalho, apesar da proteção constitucional contra o racismo  e a discriminação. A avaliação é do Ministério Público do Trabalho  (MPT).

 Segundo a coordenadora da Coordigualdade do MPT e  procuradora do trabalho Valdirene Silva de Assis, por causa do  preconceito, os negros têm também dificuldade de ocupar cargos de maior  exposição, como relações públicas, caixa bancário, secretários e  recepcionistas.

“Observamos que nosso texto constitucional traz  proteção – nós temos vários dispositivos, alguns específicos sobre a  questão trabalhista, que versam sobre os direitos sociais e que  mencionam expressamente a vedação de toda e qualquer forma de  discriminação, de diferenciação de salário, e o crime de racismo também é  tipificado pela Constituição Federal. Apesar disso, a sociedade nos  mostra que essa estrutura legal não consegue fazer com que se caminhe em  uma situação diversa [da discriminação e da exclusão racial]”, disse  Valdirene na tarde desta quarta-feira (8), ao participar do Seminário  Racismo no Mundo do Trabalho, na sede do MPT em São Paulo.

 A  procuradora destacou que o percentual de negros na população brasileira é  superior a 50%, embora o índice não se reflita em uma representação no  ambiente de trabalho.

O professor Cleber Santos Vieira, da  Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que é membro da Associação  Brasileira de Pesquisadores Negros, apontou três tipos de discriminação  frequentes no ambiente de trabalho: a primeira é a ocupacional, que  questiona a capacidade do negro de desempenhar tarefas mais complexas,  mesmo que este profissional seja capacitado para tais funções.

 A  segunda é a discriminação salarial, com o desrespeito à equiparação na  remuneração de brancos e negros, sugerindo que o trabalho feito pelo  negro tem menor valor. E a terceira é a discriminação pela imagem, na  qual a pele escura e os cabelos crespos são alvo de preconceito e deixam  os negros de fora de diversas oportunidades de trabalho.

 Problema histórico

 “O  trabalho foi inicialmente usado no país como ferramenta de opressão e  aprisionamento da população negra. A invisibilidade dos trabalhadores  negros resulta diretamente da forma como a divisão social do trabalho  foi constituída entre nós”, afirmou Cleber Vieira. Segundo o professor, o  sistema escravista “racializou” toda a estrutura da sociedade  brasileira, e a permanência do racismo é um traço estruturante  fundamental.

 “No Brasil escravista, os papéis dados aos  indivíduos eram determinados pela cor da pele. Enquanto o trabalho na  administração pública, política, justiça, nas atividades comerciais, era  reservado à população branca, o trabalho manual das matas, fazendas e  minas era realizado por por negros”, disse Vieira. Ele acrescentou que  os trabalhos mais qualificados, considerados nobres, eram exercidos por  uma minoria branca. Já o trabalho braçal e mal remunerados cabia aos  negros, primeiramente os escravos e os negros chamados livres após a  abolição da escravidão no papel, enfatizou.

 A representante da  Organização Internacional do Trabalho (OIT) no evento, Thaís Faria,  apresentou dados que mostram a continuidade desse modelo de  discriminação e racismo. “Quando olhamos os dados sobre salários e sobre  informalidade, vemos como a situação é extremamente real e cruel. A  média de salário do homem branco é R$ 2.507; a da mulher branca, R$  1.810; a do homem negro, R$ 1.458; e a da mulher negra, R$ 1.071”, disse  Thaís, que é  oficial técnica em princípios e direitos fundamentais no  trabalho da OIT.

 Quando o recorte é o trabalho informal, a mulher  negra tem a maior taxa de informalidade no mercado de trabalho no  Brasil. “Vemos, por exemplo, que, na categoria das trabalhadoras  domésticas, quase 90% são mulheres negras”, ressaltou a representante da  OIT. Ela acrescentou que grande dessas mulheres é chefe de família e  que a categoria das domésticas é uma das que mais sofrem de depressão,  inclusive pela instabilidade no trabalho.

 “Porque, se ela é chefe  de família, tem filhos para criar e está na informalidade, se adoecer,  não recebe dinheiro. Como é que cria sua própria família? Qualquer crise  que a pessoa tenha e perca o emprego, como é que vai criar a família?  São pessoas que têm um número muito grande acidentes de trabalho e que  também estão envolvidas em casos de assédio sexual e outros tipos de  violência”, disse Thaís.

 A representante da OIT destacou que não  existe desenvolvimento econômico sem justiça social. “[É preciso]  promover a justiça social e a diminuição da pobreza. Não se diminui a  pobreza sem dar condições iguais a  todas as pessoas, para que possam  produzir, ter um trabalho decente, um trabalho digno. Por fim, é um tema  de desenvolvimento social e econômico, porque estamos falando de força  de trabalho de igual valor. E quando excluímos essa juventude [negra] de  participar da força de trabalho e produtividade do Brasil, perdemos  dinheiro, perdemos na economia, perdemos no desenvolvimento econômico,  perdemos na promoção da justiça social.”

 Setor bancário

 A  discriminação, como mostra a história do Brasil, ocorre em diversos  setores, inclusive no bancário, destacou a secretária-geral do Sindicato  dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Neiva Santos. O sindicato  realizou dois censos, em 2008 e 2014, para avaliar a discriminação de  gênero e cor no setor bancário. “No topo da pirâmide [cargos mais altos]  não tem mulheres, não tem negros nem mulher negra. De forma alguma.  Porque não haverá ascensão enquanto não quebrarmos o preconceito e o  racismo no setor financeiro”, afirmou a sindicalista.

 Segundo as  informações mais atualizadas, do censo de 2014, as mulheres no setor  bancário ganham 77% da remuneração dos homens. “Melhoramos esse  indicador desde 2008 em 1,5%. Conforme cálculo do Dieese [Departamento  Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos], se a cada seis  anos conseguirmos melhorar 1,5%, vamos demorar 88 anos para ter salários  iguais aos dos homens, se continuar neste ritmo.”

 “Se olharmos o  rendimento médio dos bancários por cor, a média mensal dos negros é 84%  em relação ao dos brancos. No mesmo ritmo [considerado entre 2008 e  2014], nós demoraríamos 23 anos para ter equiparação salarial entre  negros e brancos”, acrescentou Neiva.

 Para a sindicalista, outra  questão grave é que as mulheres negras recebem o equivalente a 68% do  rendimento dos homens brancos. “Se você olhar o setor financeiro, é  muito raro você ver uma gerente negra. Então os bancos, vão contratar  [negras] para áreas invisíveis.”

No censo de 2008, os negros  representavam em torno de 18% da categoria dos bancários. No último  levantamento, em 2014, o percentual passou para 24,7% (21,3% pardos e  3,4% pretos), o que ainda não reflete o presença dos negros na sociedade  brasileira. Apesar desse aumento na participação em cargos no setor  bancário, Neiva afirmou que a ascensão na carreira continua difícil.


Agência Brasil

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