Brasil

20/11/2018 | domtotal.com

O estoicismo brasileiro

Se o Brasil é o país do Carnaval, o brasileiro é, sem dúvidas, o povo da resiliência.

'Entre o império dos maus e o reinado dos tolos, fico com a vida eremita'
'Entre o império dos maus e o reinado dos tolos, fico com a vida eremita' (Reprodução)

Por João Lucas Vieira Saldanha*

Não é fácil viver os seus dias à espera da próxima grande decepção. E nem devia ser, afinal, o exercício do patriotismo passa, muitas vezes, pela cegueira conveniente ou pela ignorância seletiva, ambas as modalidades, no caso do brasileiro.

Em menos de uma semana as notícias vão desde o assassinato de um jogador de futebol com os mais bizarros e novelísticos requintes de mistério e estranheza, até o fim do Ministério do Trabalho, retorno do Ministério do Trabalho, reajuste multibilionário para ministros do Supremo Tribunal Federal, e por aí vai.

Mas o que mais impressiona, hoje, não é o lodaçal infeccioso do cotidiano nacional, em si, mas sim, a mais absoluta naturalidade com a qual o brasileiro aprendeu a reagir diante de cada ceifada impiedosa.

O nosso mecanismo de enfrentamento eclipsaria até o mais iludido dos cultistas, já que, em última instância, o sentimento perene parece se entoar, sempre, no reconfortante hino do “tudo vai dar certo no final”, mas composto em fúnebres acordes de “nada nunca vai mudar”.

A verdade é que a noção de princípios morais, especialmente quando referente a uma postura ideal, muda de tempos em tempos, e, hoje em dia, vivemos uma era mais associada ao sentimento do que à realidade. Essa espécie de “Parábola da Caverna” ao contrário, na qual mais vale a interpretação da sombra do que o conhecimento acerca daquilo que a projeta, criou uma geração de contempladores contestadores, que observam, criticam e testilham as ideologias opostas, mas não as suas campanhas. Ou seja, somos rebeldes resignados, que lutamos a luta pela luta e não pela conquista.

A noção de que a resignação diante do sofrimento constitui nobre característica moral é um dos cernes do estoicismo clássico, e não distancia em nada da filosofia de Sêneca, que, mesmo havendo vivido há mais de dois mil anos atrás, seria contemporâneo ao pensamento brasileiro moderno.

Se Sêneca acreditava que a ataraxia era sinônimo de sabedoria, ele ficaria deslumbrado ao conhecer o povo brasileiro. Duzentos milhões de pessoas divididas em apenas dois grupos básicos: os adversos e os resignados. Não houve, na história da humanidade, povo mais capaz de se resignar diante de absurdos cotidianos do que o brasileiro, e faço aqui esta declaração aceitando os riscos que ela carrega.

Você pode até defender o contrário, afinal, estamos vivendo um momento de grande virada filosófica no que tange à postura do brasileiro diante dos próprios conceitos de cidadão e de protagonismo político. Mas mesmo assim ainda atuamos em esferas profundamente ideológicas, distadas da prática e majoritariamente debruçadas sobre a imensidão do conformismo.

A revolta existe, mas existe dentro do coração de cada um de nós. É no momento de manifestar a revolta que o brasileiro tropeça na cerveja gelada e naquela prainha em Santos no feriado. A revolta e a revolução divergem no aspecto prático, literalmente, no sentido de que a segunda pode ser ramificação da primeira, mas a primeira sem a segunda não faz discernimento, ao observador externo, de qualquer outra conformação.

O estoicismo do brasileiro deixaria Sêneca encabulado, nossa capacidade de engolir a seco os espinhos cotidianos sem se dar por vencido é digna de registro histórico, ao mesmo tempo que transparece cicatrizes de um povo chagado e malgrado, tão cansado de falhar que prefere nem tentar. Essa ataraxia corrompida vinha levando o Brasil a um caminho aparentemente sem volta, em que aqueles que se resignam são eternamente subjugados à condição de alimento à casta superior.

A brisa de alívio vem com a perspectiva de que, por mais elástica que fosse a paciência do povo brasileiro, até o nosso estoicismo parece ter limite, já que mais recentemente temos assistido, com orgulho e receio, o povo reconhecer seu dever de domínio político, ao passo que ou retoma o protagonismo democrático ou renova sua tolerância para mais décadas de postura estoica.

Nesta senda, aparenta que a resignação do brasileiro, aquela que, como dito, deixaria até Sêneca preocupado, pode estar chegando ao seu necessário fim, o que nos resta saber, agora, é quanto tempo durará a nossa ignorância, já que, superado um problema, mas já vislumbrando o seguinte, dentre o império dos maus e o reinado dos tolos, fico com a vida eremita.

*João Lucas Vieira Saldanha é formado em Direito pela PUC e pela Newton Paiva e pós-graduando em Advocacia Cível pela Escola Superior de Advocacia da OAB-MG.

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