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08/02/2019 | domtotal.com

Brejo das almas enlameadas

Retirar ânimo de onde?

Vamos para o brejo, aliás já estamos num imenso lodaçal.
Vamos para o brejo, aliás já estamos num imenso lodaçal. (Foto - José Roberto Bassul)

Por Eleonora Santa Rosa*

A lama física e simbólica que nos inunda e nos inundará por tempos a fio expressa o tamanho da cava, do buraco, de dejetos de todo os tipos, de irresponsabilidades de todos os jeitos, de rejeitos de ordens várias, de párias em frentes diversas, de corrupções históricas desenfreadas, de impunidades exacerbadas, de milícias apodrecidas, de esperanças fraudadas, de horizontes estreitos em meio a serras, morros, montanhas contaminados, de mares revoltos em lixo, de cerrados, planícies e planaltos incendiados e devastados por  pragas moralistas, por  preconceitos intoleráveis, por ressentimentos e criminalização de direitos consagrados, tudo em nome da ‘boa’ economia de mercado.

Retirar ânimo de onde? Cidades caóticas, dissolvidas por ventos e chuvas que não limpam e nem desanuviam os céus e cenários prenunciadores que pagaremos cada vez mais caro pela incúria, pelo despreparo, pela má gestão de recursos, pela incapacidade de ação, pela catatonia das autoridades, pela ilusão do armamento como saída da individual e coletiva da sociedade.

Vamos para o brejo, aliás já estamos num imenso lodaçal, que mistura profissão de fé com política, religião com bancadas parlamentares, chauvinismos histéricos com  obsessões sexuais, repressão e  com discriminação e ignorância.

Guinada para o domínio do medo, da ordem em progressão de censura, sociedade embarreirada e marcada por perplexidade crescente, ampla, geral e irrestrita.

Que país emergirá dessa lama toda? Que civilização será legada pelas almas enlameadas? Que cidadãos serão formados no imenso brejo lodaçal?

Vem, Drummond, ajuda-nos a refletir com seus sábios versos, de século atrás, de seu premonitório Brejo das Almas em seu Hino Nacional:

“Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.

....

Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.

Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.

Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões…
os Amazonas inenarráveis… os incríveis João-Pessoas…

Precisamos adorar o Brasil.
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos…
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos.

Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?


*Jornalista e produtora cultural.

Poema Hino Nacional, Carlos Drummond de Andrade, livro Brejo das Almas.

EMGE

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