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04/03/2019 | domtotal.com

Lá em cima, em Pacaraima

Quis o destino quase erradio desse cronista que beira a terceira idade que eu desse com os costados em Roraima no ano de 2002 e depois recentemente no ano passado.

Superficial ou não duas fortes impressões ficaram na minha memória sobre essa viagem
Superficial ou não duas fortes impressões ficaram na minha memória sobre essa viagem (AFP)

Por Ricardo Soares*

E, de repente,um ponto ermo do território brasileiro ganha visibilidade. Pacaraima, lá em cima no nosso mapa, na fronteira com a Venezuela, última cidade do estado remoto de Roraima que, infelizmente, só entra no noticiário quando o assunto é corrupção, invasão de terras indígenas, funcionários fantasmas e políticos da pior extração possível como Romero Jucá.

Quis o destino quase erradio desse cronista que beira a terceira idade que eu desse com os costados em Roraima no ano de 2002 e depois recentemente no ano passado. Na primeira passagem pelo estado fiquei três meses a trabalho e pude levar comigo gente amiga e competente para uma faina calorenta, trabalhosa e divertida que nos levou à tal fronteira que hoje é inserida no mapa geopolítico mas que até então era apenas um ponto irrisório no mapa.

Pessoalmente estive na fronteira Pacaraima - Santa Elena de Uairén três vezes. Dois bate-voltas de Boa Vista até lá (cerca de 200 kms) e uma terceira incursão onde rompi Venezuela adentro ruma a Isla Margarita num Palio branco cruzando a belíssima savana da Gran Canaíma.

De Santa Elena, na época citada, me lembro das cervejas geladas (marca Polar), dos bons restaurantes a bons preços e das risadas dos amigos impressionados com o então baixíssimo preço da excelente  gasolina venezuelana. O trajeto Boa Vista - Pacaraima era bonito de fazer cruzando sobre o rio Uraricoera, aquele do romance "Macunaíma" de Mário de Andrade que aliás tirou o nome do livro da tribo "makunaimi"que habita ali os entornos do Uraricoera e não gosta de ser fotografada.

A exuberância dessa viagem contrastava com a feiura da cidade fronteiriça brasileira cheia de taperas de madeira, casas de comércio mulambentas, contrabandistas e vendedores de pedras pseudo-preciosas. Pacaraima não tinha os atrativos que ficavam com Santa Elena na ocasião mais graciosa. Aliás não vi nenhuma menção a essa viagem Boa Vista até a fronteira feita por qualquer um dos muitos "repórteres" que percorreram  esse trecho. Como se ele não existisse e os tais "profissionais" da notícia simplesmente se materializassem na fronteira. Sinal dos tempos onde as impressões-sensações do entorno parecem cada vez mais irrelevantes para a tal "notícia" geralmente manipulada. Pois eu cruzei essa fronteira acompanhado há 16 anos, andei mais de 1700 kms Venezuela adentro, contornei Caracas e cheguei a Puerto Ordaz e dali até Puerto la Cruz onde uma gigantesca balsa me levou até Isla Margarita.

Superficial ou não duas fortes impressões ficaram na minha memória sobre essa viagem. A primeira é que quando cheguei a Margarita vi pela primeira vez na vida uma manifestação-carreata de gente rica,"diferenciada" que paralisava o trânsito- num lugar chamado Pampatar- protestando contra o fim de alguns dos seus privilégios promovido pelo governo de Chavez.  Ao verem o Palio branco, modesto entre tantas Suvs mas com placa do Brasil, me pararam e entupiram de prospectos contra o regime bolivariano . Aí então tive a certeza de que algo que a mídia não havia me mostrado até então acontecia na Venezuela e que mais dia menos dia não terminaria bem. E olha que ainda estávamos na época de ouro chavista.

A segunda impressão forte que me ficou foi ter entrado numa modesta salinha de uma casa na beira da estrada e ver o retrato de Chavez colocado num altar ao lado da Virgen de los Remédios .Depois vi a mesma cena, com pequenas variações, em quiosques comerciais,borracharias. Chavez era visto como um santo não pelas farmácias populares ,as cestas básicas gratuitas e outros benefícios. Já era claro em 2002 que se esticassem demais a corda entre ricos e pobres na Venezuela a cobra ia fumar.

Entre trancos e barrancos Chavez foi, morreu, entronizou Maduro que obviamente não tem nem as manhas e manias e muito menos a inteligência do seu criador. Somado a isso seus erros foram turbinados por um atroz boicote econômico dos EUA e seus aliados e hoje estamos nessa insanidade sobre um mar de petróleo  que é o que interessa ao fim e ao cabo a Trump e a seus baba-ovos como Bolsonaro e o patético Ivan Duque, presidente da Colômbia.

Os amáveis leitores podem argumentar que minhas "impressões venezuelanas" são datadas. Sim, mas dão a dimensão de ter sentido de perto o povo daquele país via e vivia o chavismo fenômeno discutido e abordado de maneira superficial e generalista pela mídia tradicional.

Outro dia, numa rede social, um bolsonarista ao me ler defendendo uma cobertura isenta para a crise venezuelana me perguntou se eu conhecia o país. Ao responder que sim ele amuou e bem ao estilo dos "minions" disse que eu devia conhecer desde dentro de um hotel de luxo, não no meio do povo. Errado "minion" querido.Andei bastante pelo país . Suei pra burro andando nas ruas, vi praias lindas,tomei muito rum,dancei e comi arepas e quase fui morto por um tenente corrupto perto de San Ignácio quando não parei o carro num posto policial que só indicava que eu deveria reduzir a velocidade. Pelo meu "erro" , rifle engatilhado em punho, o tenente ladrão- com seu  bigode de bandido de filme mexicano-  e seus asseclas  me tomaram uma grana maior do que paguei por uma semana de hospedagem em um bom hotel de Margarita. Era o exército de Chavéz.

Isso posto e para aqueles que acham que ainda assim faço uma defesa do regime bolivariano digo que aprendi viajando que nenhuma viagem pode ser generalista. E a regra se aplica como luva nessa patética cobertura que fazem da crise venezuelana onde colocam Maduro como o vilão valentão e Guaidó como  o bom moço. Eu, quase velhote, só queria mesmo que me dessem uma cobertura isenta do que se passa por lá e não apenas essas poucas emoções baratas e raciocínios imperfeitos que o nosso sofrível jornalismo oferece. A Venezuela meus caros é muito mais que um mar de petróleo meus caros.É uma esfinge que em poucos tentando decifrar. E eu fiquei com vontade de tentar estando de novo lá em cima, em Pacaraima.

*Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

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