Direito

12/04/2019 | domtotal.com

'Até quando vou esperar?', questiona paciente que acusa médicos da Santa Casa de terem sumido com rim

Há 14 anos, a esposa de Altamiro dos Santos retirou um de seus rins para doar ao marido. O órgão desapareceu e o casal, doente, ainda luta por respostas da Justiça.

Há 14 anos, senhor Altamiro tentar saber onde foi parar o rim doado a ele pela esposa
Há 14 anos, senhor Altamiro tentar saber onde foi parar o rim doado a ele pela esposa (Rômulo Ávila/Dom Total)

Por Rômulo Ávila
Repórter Dom Total

Enquanto se preparava para mais uma das três sessões semanais de hemodiálise, o mestre de obras aposentado Altamiro Máximo dos Santos, de 62 anos, recebeu a reportagem do Dom Total na tarde dessa quarta-feira (10) em sua casa, no Bairro Jaqueline, Região Norte de Belo Horizonte. “Eu e minha esposa construímos, mas hoje não consigo mais trabalhar”, diz ao mostrar, com orgulho, o acabamento de primeira do imóvel. 

Nas mãos, senhor Altamiro, personagem central de uma história real que parece um drama absurdo ou um conto de Kafka, segura o documento da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte, o recorte de jornal antigo e uma cópia do processo iniciado há 14 anos. 

Em 2005, após dois anos de resistência, Altamiro aceitou que a esposa e prima de primeiro grau, Jaqueline Patrício dos Santos, hoje com 45 anos, doasse o rim que ele tanto precisava para ter uma vida normal. O casal, que tem um filho, foi internado em abril daquele ano. O órgão foi retirado de Jaqueline, mas não foi transplantado em Altamiro porque desapareceu.

“Internamos de quarta para quinta. Às 6h30, cada um foi para uma sala de cirurgia. Uma funcionária que fazia residência ainda brincou comigo: 'Seu rim já está na mesa, está quentinho. Você vai querer bem passado ou mal passado?' Eu falei: 'Bem passado'. Deram a anestesia e não vi mais nada. Fui acordar sexta-feira, no CTI. Aí, o médico, não me lembro mais o nome, falou comigo que não deu para fazer o transplante. Eu, todo remendado e cheio de esparadrapo, comecei a chorar e perguntei: 'Cadê a minha mulher?' A partir daí, o médico se mandou”, narrou Altamiro à reportagem. Seus olhos lacrimejavam enquanto passava a mão na testa.

Altamiro conta que começou ali um pesadelo que dura até hoje. “Me levaram para a enfermaria na sexta-feira, onde minha esposa já estava. No sábado pela manhã deram alta para nós dois. Viemos remendados para casa.  Não deu transporte para trazer, não deu transporte para eu voltar para hemodiálise na segunda-feira. Nada”, relembra o paciente, que sofre de insuficiência renal crônica.

Com o rim doente e a esposa sem um órgão, Altamiro diz que os médicos envolvidos nas cirurgias sumiram. Sem respostas, ele e mulher entraram com um processo contra os médicos sete meses após a cirurgia. Conta, porém, do martírio que enfrentou para conseguir os nomes dos profissionais encarregados da operação. 

“Depois, a Santa Casa me deu a documentação, mas nós não encontramos com ninguém da equipe médica. Tudo foi o diretor da nefrologia que nos deu." Foi com os nomes dos médicos que entramos na Justiça. Não foi com o nome da Santa Casa”, ressalta.

Em 14 anos de processo, Altamiro conta que apenas uma audiência foi realizada, em 2011. “Foi um punhado de advogados, me parece que três de cada médico. Pediram uma segunda audiência, marcada para 2012, mas não teve. Processo entra e sai, entra e sai”, diz Altamiro, que toma nove comprimidos por dia, a maioria em razão do rim doente.

Documento da Santa Casa Documento da Santa Casa

O aposentado revela que o problema crônico o impede de ter uma vida normal. “Não posso nem viajar." A esposa, que, por trauma, não gosta de falar sobre o ocorrido, trabalha como auxiliar de escritório e tem uma rotina pesada. “Ela sai de casa às 5h45 e volta às 22h, porque fica esperando a hemodiálise acabar para me trazer”, conta. “A vida dela também é quase que médico todo dia. A diferença é que ela não trata pelo SUS, porque ela tem plano de saúde. Ela faz tratamento com nefrologista, mas não é pelo SUS. Eu trato pelo SUS. Faço hemodiálise três vezes por semana. A cada sessão, são quatro horas amarrado”, revela Altamiro, mostrando nos braços as marcas deixadas pelo procedimento. 

‘Não quero mais’

Dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) apontam que mais de 30 mil brasileiros estão cadastrados na lista de espera para um transplante. A maioria, mais de 20 mil, aguarda um rim. O tempo de espera passa de dois anos.

Altamiro explica que a dor que sente, causada pelo transplante malsucedido, não é apenas física. Angustiado e traumatizado, não quer tentar outro transplante. “Foi uma prova de amor que minha esposa deu. E eu deixar ela sem um rim... não quero fazer mais. Assinei um documento lá no Hospital São Francisco dizendo que eu não iria fazer o painel (cadastro para entrar na fila). Até minha sogra queria doar um rim, mas não quero de jeito nenhum."  

Ele e esposa recorreram a um acompanhamento psicológico, uma vez por mês. “Se falar sobre o transplante, a gente começa a chorar”, declara Altamiro, que tem na Justiça a última esperança de ter a resposta para a pergunta que o atormenta há mais de uma década: Onde foi parar o rim?.

“Quero saber até quando vou esperar, porque ninguém de nós tem expectativa de vida. Não sei se vai sair enquanto eu estiver vivo, para eu saber o que aconteceu.”

Altamiro mostra cicatriz da cirurgia (Rômulo Ávila)Altamiro mostra cicatriz da cirurgia (Rômulo Ávila)

Réus

Ricardo Guimarães, advogado que defende os interesses do casal, disse ao Dom Total que a morte de um dos réus, a dificuldade de citar os herdeiros e o número de médicos (dez) envolvidos são problemas que atrasam o andamento do processo.

“Já requeri diversas vezes a citação por edital (comunicado publicado em órgão oficial e jornais de grande circulação, quando o citando não é encontrado), mas foram indeferidas”, disse.

Ricardo conta que várias diligências foram feitas por oficiais de Justiça na tentativa de citar os herdeiros. “Recentemente, encontramos um novo endereço. Acredito que, se este falhar, a Justiça autorize a citação por edital."

“Tecnicamente não há sumiço de órgão”

A reportagem do Dom Total também ouviu o advogado Guilherme Del Giude, especializado em Direito da Saúde. Sem comentar diretamente o processo do senhor Altamiro, por questões éticas, ele explicou que um transplante renal exige exame para garantir a compatibilidade do órgão transplantado com o receptor. “Assim, em tese, é muito difícil se descobrir, apenas na hora da cirurgia, que o órgão não é compatível."

De acordo com o advogado, estatísticas apontam que, a cada 20 transplantes, pode haver complicação em apenas um no ato cirúrgico. “Dito isso, e dizendo de modo geral, quando o órgão não é utilizado por complicação, ele tem que ser devolvido à família ou ao doador, se vivo, para o descarte. A realização de transplante, fora desse padrão, pode ser apenada pela Lei 9.434, de 1997. Tecnicamente, não há sumiço de órgão”, reforça.

Procurada pela reportagem, a assessoria do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) não se posicionou até o fechamento da reportagem.

Santa Casa

Em resposta ao Dom Total, a Santa Casa BH informou que determinou, em 4 de abril deste ano, a revisão dos documentos e dos procedimentos assistenciais da época.

“Importante ressaltar que não há nos registros institucionais de qualquer ação judicial movida pelo denunciante ou familiar do mesmo. Caso o paciente tenha movido ação judicial contra terceiros – supostamente relacionados ao fato divulgado por ele – também serão objeto de apuração por parte da instituição”, diz a nota.

“A Santa Casa BH reafirma que presta serviços hospitalares com objetivo de melhorar as condições de saúde dos seus pacientes e nunca o contrário, obedecendo aos direitos fundamentais constitucionais – notadamente aqueles que garantam a dignidade da pessoa humana. Também reforça que, tão logo tenha concluído as apurações, prestará os devidos esclarecimentos”, finalizou.

Assista ao relato (imagens Rômulo Avila):


TAGS


EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!



Outras Notícias

Não há outras notícias com as tags relacionadas.

Comentários