Religião

17/04/2019 | domtotal.com

Por que o medo da santidade?

A santidade não é algo etéreo e pode ser vivida por qualquer pessoa. Ela se expressa na vida de quem é aberto ao próximo e, assim, está também aberta a Deus.

Quando se fala de santidade não se pensa, normalmente, em alguém do cotidiano. Entretanto, podemos conviver com santos e não percebermos.
Quando se fala de santidade não se pensa, normalmente, em alguém do cotidiano. Entretanto, podemos conviver com santos e não percebermos. (Jacek Dylag/ Unsplash)

Por Fabrício Veliq*

São diversas as pessoas que se dizem cristãs e possuem uma relação ambígua com a questão da santidade. Ao mesmo tempo em que desejam ser santas, também pensam fortemente que isso é impossível para pessoas comuns, sendo somente para uma casta de humanos, tais como Francisco de Assis, Jesus, Agostinho, Madre Teresa de Calcutá, Atanásio etc, que são considerados como estando a léguas de distâncias de uma pessoa comum, que vive no dia a dia.

Esse tipo de visão, por sua vez, é sempre fomentada pelos diversos filmes e séries que são produzidas, principalmente, a respeito da vida de Jesus, em que o colocam como um super homem, que não sente dor, nunca ia ao banheiro, nunca ficava bravo com as situações, estava sempre sorrindo e parecia que caminhava sobre nuvens para não tocar as ruas de Jerusalém contaminadas com o pecado.

Com isso, pensa-se um Jesus totalmente diferente do ser humano e a santidade como algo que não é tangível no dia a dia. Ligar santidade com reclusão ou abstinência é tão comum que, na maioria das vezes, quando se pede para imaginar um santo ou uma santa, não se pensa em alguém do cotidiano, mas, sim, em alguma espécie de asceta vivendo nas montanhas e contemplando as coisas espirituais.

No entanto, é preciso entender que a santidade está totalmente ligada ao conceito de encarnação, de maneira que compreender este é imprescindível para se compreender aquela, o que implica estar atento ao fato de que por meio da encarnação o santo entra no profano, santificando o que antes era chamado assim. Dessa forma, a encarnação vem nos mostrar que a santidade é algo que deve ser feita e vivida no cotidiano de cada um, uma vez que não há mais separação entre um Deus que vive no céu e os seres humanos que estão aqui embaixo aguardando para serem ouvidos. A encarnação mostra que Deus se faz presente conosco, na vida hodierna e, assim, demanda daqueles e daquelas que dizem ser seus seguidores, que vivam uma vida como a que Jesus viveu.

Ver Jesus como homem que se abriu inteiramente ao próximo e como alguém que se abriu inteiramente a Deus é imprescindível para compreender que a santidade vivida por ele é também possível de ser vivida por nós. Tirar a humanidade de Jesus, colocando sobre ele um plus que o permitia viver em santidade é, automaticamente, negar a própria encarnação como evento em que Deus assume inteiramente a humanidade.

Ser santo, que quer dizer ser separado, não é algo intangível ou somente para algumas pessoas. Retirar dessa palavra a aura de intangibilidade que foi colocada sobre ela é necessário caso se queira que as pessoas que se dizem seguidoras de Jesus possam realmente compreender que ser santo é se abrir para o que tem fome, sede, ou qualquer tipo de necessidade humana, revelando a ela o amor de Deus pelo qual fomos alcançados e que se reflete numa ação efetiva para com os que sofrem.

Abrir-se inteiramente para o próximo é um reflexo direto de que essa pessoa também se abriu inteiramente a Deus, não podendo o segundo ser verdadeiro se o primeiro for mentira, como bem disse João em uma de suas cartas: “Se alguém afirmar: "Eu amo a Deus", mas odiar seu irmão é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. (1 Jo 4:20).

Desmistificar a ideia de santidade é algo urgente em nossos dias, principalmente em ambientes em que se crescem os discursos fundamentalistas que ligam santidade a cumprimento de ordens. Assim, podemos dizer que amar continua sendo a maior prova de santidade para o mundo e somente por meio do amor é possível que o mundo reconheça que somos discípulos de Jesus Cristo (cf. Jo 13,35).

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE) e Doctor in Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven). E-mail: fveliq@gmail.com

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