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14/05/2019 | domtotal.com

Game of Thrones na reta de chegada

Mesmo que o último bloco de episódios não esteja exatamente à altura de temporadas passadas, o conjunto da obra elevou consideravelmente o nível do que podemos esperar de uma série de televisão.

Chegaremos a ver a coroação do próximo ocupante do trono ou apenas o início de uma nova luta pelo poder?
Chegaremos a ver a coroação do próximo ocupante do trono ou apenas o início de uma nova luta pelo poder? (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

Assim foi o inverno. Demorou tanto para chegar e quando chegou passou por nós como um sopro.

Este 2019 é o ano escolhido para nos despedirmos das guerras, traições e assassinatos de Game of Thrones. Verdadeira avalanche na cultura popular de nosso século recém iniciado, o fenômeno terá o ponto final de sua narrativa apresentado na semana que vem (após uma apressada e escura última temporada) e sua excelência deixará marcas profundas na produção televisiva daqui para diante.

Mesmo que o último bloco de episódios não esteja exatamente à altura de temporadas passadas, o conjunto da obra elevou consideravelmente o nível do que podemos esperar de uma série de televisão.      

Cersei está morta. Viva Daenerys, a nova... Cersei. Sai tirana, entra tirana e pouca coisa há de mudar no horizonte dos sete reinos.  

Mas será mesmo que Jon Snow permitirá a ascensão ao trono de ferro da mãe dos dragões, após seu ataque de fúria e fogo contra Porto Real? Ou Tyrion, dando-se conta do erro cometido ao delatar a conspiração tramada por Varys a favor do verdadeiro herdeiro da coroa, conseguirá dormir tranquilo uma noite sequer enquanto a Khaleesi reinar sobre Westeros?

Não. O reinado de Daenerys será curto (se chegar a existir) e qualquer um poderá ser o novo monarca: Snow, na condição de neo Targaryen, apesar de não ambicionar o posto; Gendry, o bastardo de Robert Baratheon; o próprio Tyrion, o próximo na linha de sucessão dos Lannisters (com o justo Ser Davos a seu lado como mão do rei - ou o contrário, por que não?); Samsa, indicada por Snow e referendada pelo povo do Norte; ou até Arya, por ter matado o Rei da Noite ou simplesmente por ser a favorita de nove entre dez fãs da série.

Chegaremos a ver a coroação do próximo ocupante do trono ou apenas o início de uma nova luta pelo poder? A instalação de uma guerra dos tronos eterna, sem vislumbre de conclusão, seria um bom final para a trama, mas apenas o próximo domingo poderá trazer a resposta a esta pergunta.

E que ninguém faça cara de espanto para qualquer uma das opções sugeridas. Depois da morte de quem parecia ser o grande protagonista, já no final da primeira temporada, tudo mesmo é possível de acontecer em Game of Thrones.

A verdade é que qualquer um dos personagens sobreviventes pode conspirar ou reclamar o direito ao trono após o inevitável fim de Daenerys. Não é preciso ser vidente para entender que o genocídio cometido lhe abre apenas um caminho: a redenção pela morte. Talvez até a deixem morrer abraçada a Jon Snow, carregando-o junto para o além (como aconteceu com Cersei e Jaime). Amar é uma condição bem complicada e de altíssima periculosidade nas terras criadas por George R. R. Martin.  

É triste, mas necessário dizer: não termina bem a série. Com tanta expectativa em torno das batalhas prometidas para esta última etapa, é no mínimo estranho (e um mau sinal) que o grande destaque tenha recaído sobre outro lugar, bem mais tranquilo e intimista: o segundo episódio (Um Cavaleiro dos Sete Reinos).

Quase todo concentrado na longa madrugada de espera pelo ataque dos caminhantes noturnos e seu exército de zumbis, conseguiu reunir habilmente todos os personagens remanescentes da série (com exceção de Cersei) em Winterfell.  Grande momento de dramaturgia, com uma melancolia raramente vista nas oito temporadas do programa, é o ponto alto até aqui da linha de chegada de GOT.  

À espera da morte, qualquer conversa e toda palavra proferida ganha outra dimensão - pode ser a última conversa, podem ser as últimas palavras, pode ser a última vez para tudo.

Do reencontro dos irmãos Lannisters e dos três patrulheiros da noite remanescentes do grupo de novatos de Jon Snow, passando pela ordenação de Brianna como cavaleira, pelo oferecimento ao auto sacrifício de Theon Greyjoy e pela perda da virgindade de Arya, o capítulo foi um belo ensaio sobre os significados da vida, os companheiros que fazemos pelo caminho e os mecanismos da esperança.

O selvagem Thormund talvez sintetize tudo na frase dita à beira do fogo da lareira, enquanto compartilha memórias com novos e antigos irmãos de armas: "Vamos todos morrer, mas pelo menos morreremos juntos".

Esta calmaria antes da tempestade, com diálogos brilhantes e execução impecável por parte de elenco e equipe técnica, é um dos motivos pelo qual Game of Thrones merece o lugar que conquistou no Olimpo da TV mundial. Mesmo com tantos personagens e brasões de armas e clãs, tantos cultos e religiões, tantos reinos, exércitos e famílias reais, a história nunca se perdeu.

Além disso, o domínio do ritmo da narrativa, com pausas e acelerações intercaladas e alternâncias entre dramas pessoais e coletivos, conseguiu prender a atenção do público (fãs, melhor dizendo) durante todos os anos em que coabitamos Westeros com Starks, Lannisters, Baratheons, Targaryens e dragões. 

No fim do episódio, a bomba. Como prelúdio para a batalha iminente, ao revelar para Daenerys sua verdadeira árvore genealógica, Snow inicia o processo que pouco a pouco a consumirá em rancor e desconfianças, até que exploda em sangue e fogo na carnificina ilógica e desnecessária de Porto Real.

Ainda que Game of Thrones termine esta semana, o fenômeno sobreviverá, quer seja por meio do spinoff já em produção estrelado por Naomi Watts (cuja ação se passará milhares de anos antes das aventuras de Jon Snow e companhia limitada, focando em eventos que culminam na construção da muralha), quer seja pelos dois livros ainda não publicados da série Crônicas de Gelo e Fogo, de onde a série foi adaptada.

Tudo leva a crer que ainda seguiremos comprando muitos cadernos, camisetas, bonés, jogos e lancheiras com os brasões dos clãs de Westeros durante muito tempo.

Retiro o que disse no inicio do artigo. Este inverno veio para ficar.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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