Religião

16/05/2019 | domtotal.com

Horrendamente dura, cruel, atroz: Essa economia mata!

Segundo Pio XI, a economia não deve se prestar ao enriquecimento de poucos, mas estar subordinada aos princípios de justiça e solidariedade sociais.

A Quadragesimo anno veio à luz durante a maior crise do capitalismo, sistema marcado por exclusões.
A Quadragesimo anno veio à luz durante a maior crise do capitalismo, sistema marcado por exclusões. (AFP)

Por Élio Gasda*

Atualmente, os mercados servem prioritariamente à minoria mais rica do mundo e dão ênfase ao lucro. No entanto, “há quase cem anos, Pio XI já previu a afirmação de uma ditadura global da economia, à qual ele chamou ‘imperialismo internacional do dinheiro’ (QA, 109). Palavras duras, mas justas. Toda a Doutrina Social da Igreja e o magistério dos meus predecessores se revoltam contra o ídolo do dinheiro, que reina ao invés de servir, tiraniza e aterroriza a humanidade” (Papa Francisco, II Encontro mundial dos movimentos populares, 2015, Bolívia).

Francisco se referia à primeira encíclica da Doutrina Social da Igreja do século 20: Quadragesimo anno (QA). Foi escrita por de Pio XI (1875-1939) para comemorar os 40 anos da primeira encíclica social, a Rerum novarum, de Leão XIII, de 1891. Em 15 de maio completou 88 anos, ainda tão atual.

O magistério social de Pio XI foi um dos mais fecundos. A Quadragesimo anno veio à luz durante a maior crise do capitalismo. No período intermediário entre as duas guerras mundiais, o acontecimento central é a “crise de 29”, cujo símbolo máximo é a quebra da Bolsa de Valores de Nova York. A crise causou a falência de milhares de empresas de todos os setores e uma quebradeira geral do sistema bancário. Levou milhões de pessoas ao desemprego e ao desespero. A economia entrou em colapso. “Apregoa-se, que por fatal lei econômica pertence aos patrões acumular todo o capital, e que a mesma lei condenava e acorrentava os operários a perpétua pobreza e vida miserável” (QA, 54).

Uma situação gerada por um capitalismo fortemente concentrador de riqueza. Controlado por grandes monopólios que destruíam a concorrência. Surgiram corporações que se unem em oligopólios a fim de aumentar seus lucros. A primeira fase da crise é marcada pela queda abrupta do PIB, declínio da produção industrial e falência de centenas de bancos. O sistema tornou-se ingovernável. Os ricos não se importam com a democracia, só querem ganhar dinheiro.

Para a DSI, se trata de um despotismo econômico do imperialismo do dinheiro: “Nos nossos tempos não só se amontoam riquezas, mas acumula-se um poder imenso e um verdadeiro despotismo econômico nas mãos de poucos, que as mais das vezes não são senhores, mas simples depositários e administradores de capitais alheios, com que negociam a seu bel-prazer. Este despotismo torna-se intolerável naqueles que, tendo em suas mãos o dinheiro, são também senhores absolutos do crédito e por isso dispõem do sangue de que vive toda a economia, e manipulam de tal maneira a alma da mesma, que não pode respirar sem sua licença” (QA, 105). Neste contexto, apenas sobrevivem os mais violentos competidores e os que não têm escrúpulos de consciência (QA, 107). Este acúmulo de poder gera três tipos de luta: uma para alcançar o predomínio econômico; outra para obter controle do Estado a fim de instrumentalizar a seu favor; e a luta entre os Estados mais fortes para garantir as vantagens econômicas para si (QA, 108).

As consequências são desastrosas: “a avidez do lucro seguiu-se a desenfreada ambição de poder; toda a economia se tornou horrendamente dura, cruel, atroz. Acrescem os danos gravíssimos originados da confusão do papel dos poderes públicos: a degradação da autoridade do Estado, antes a serviço do bem comum e da justiça, se vê feito escravo, entregue e acorrentado ao capricho de paixões desenfreadas; imperialismo econômico e internacional bancário, não menos funesto e execrável, cuja pátria é o lucro” (QA, 109).

A livre concorrência dos mais fortes é uma fonte envenenada da qual brotam todos os erros da ciência econômica individualista. Ignorando que a economia é juntamente social e moral. “A prepotência econômica, tanto mais que, indômita e violenta por natureza, precisa, para ser útil a humanidade, de ser energicamente governada com prudência; ora não pode enfrear-se nem governar a si mesma” (QA, 88). Urge sujeitar e subordinar de novo a economia a princípios mais nobres e elevados de justiça e solidariedade sociais. É preciso que esta justiça penetre completamente as instituições dos povos e toda a vida da sociedade (QA, 88).  

A situação no tempo de Pio XI era tão sombria que gerou a II Guerra mundial. Períodos de graves crises sociais favoreceram a ascensão de nacionalistas autoritários e o avanço de ideologias totalitárias: Hitler, na Alemanha; Mussolini, na Itália; Franco, na Espanha; Salazar, em Portugal. Apesar das ameaças que sofria por parte de seus inimigos dentro e fora da Igreja, Pio XI não se omitiu. Em Quadragesimo anno mostrou sua firmeza contra uma economia “horrendamente dura, cruel, atroz”. Contra o fascismo, publicou Non abbiamo bisogno (1931) e condenou o nazismo em Mit brennender sorge (1937). Em Divini Redemptoris (1937), foi implacável contra o comunismo bolchevique ateu (stalinismo).

Pio XI, papa Francisco e toda a Doutrina Social da Igreja se revoltam contra a idolatria do dinheiro e de um mercado divinizado cujos interesses são a regra absoluta (Evangelii Gaudium, 56). Qualquer semelhança não é mera coincidência!

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016).

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