Saúde

24/05/2019 | domtotal.com

Consumo de peixes contaminados pela lama da Vale pode causar até depressão

Estudo mostra que rejeitos da barragem da Vale rompida em Brumadinho tornou água do Rio Paraopeba tóxica, com possibilidade de causar anomalias graves em peixes.

Peixe do rio Paraopeba morto pela lama da Vale que tornou água tóxica
Peixe do rio Paraopeba morto pela lama da Vale que tornou água tóxica (Douglas Magno/AFP)

Por Rômulo Ávila
Repórter Dom Total

O consumo de peixes do Rio Paraopeba contaminados pela lama de rejeitos da barragem da Vale, em Brumadinho, representa sérios riscos à saúde humana, podendo causar doenças no tubo digestivo e no sistema neurológico. O alerta é do médico Gilmar Reis, coordenador do curso de Medicina da PUC Minas. Trata-se de mais uma consequência do crime socioambiental da Vale em Brumadinho, na Grande BH, que completará quatro meses neste sábado (25). 

Estudo recente do Instituto Butantan, da Universidade Estadual Fluminense e da Universidade Federal do Rio de Janeiro mostra que a água do Paraopeba tem 720 vezes mais mercúrio e 100 vezes mais ferro que o permitido. O efeito imediato é refletido nos peixes. Os que conseguem sobreviver podem apresentar defeito na boca, nos olhos, nas nadadeiras e ter hemorragia. Contaminado pela lama, esse peixe passa a representar riscos para a saúde de quem o consume. De acordo com o médico, os metais pesados acumulam no organismo progressivamente, principalmente no tubo digestivo e no sistema neurológico.

“Com isso, a pessoa pode desenvolver irritabilidade, insônia, alteração de humor, depressão, perda de memória, agressividade e pode ter distúrbios mais graves de locomoção. No tubo digestivo pode causar dor abdominal persistente e cólicas. E isso pode persistir por meses e até anos”, alertou Gilmar Reis em entrevista ao Dom Total.

Dependendo da quantidade ingerida, o médico diz que a pessoa pode desenvolver lesões no rim e no fígado. “São situações complexas. Esses peixes não podem, definitivamente, ser consumidos. Não podem ser usados nem como fertilizantes, porque isso vai tudo para solo”, acrescenta.

Crianças

Conforme o médico, a saúde de crianças pode ser ainda mais afetada em caso de ingestão de peixes intoxicados pela lama lançada no ambiente pela ruptura da barragem da Vale. Isso porque o sistema neural está em desenvolvimento.

"Imagina uma criança, com menos de 2, 3 anos tendo ingestão de quantidade absurda de chumbo e mercúrio. Isso é muito grave porque atrapalha, inclusive, o desenvolvimento neurológico, a parte orgânica do cérebro, o desenvolvimento dos nervos. Além disso, compromete a questão óssea. Realmente é uma situação muito complexa”, concluiu.

Mauro Pimentel / AFPMauro Pimentel / AFP

Sobre o estudo

Pesquisadores responsáveis pelo estudo reforçam que as consequências a longo prazo para a saúde humana e animal devem ser acompanhadas com extremo rigor. O estudo incluiu dosagem de poluentes, quantificação de microrganismos potencialmente perigosos e testes ecotoxicológicos.

A análise dos efeitos da água e da lama presentes no Paraopeba foi feita com embriões do peixe popularmente conhecido como paulistinha. O teste começou com o embrião e foi até o momento em que se tornou larva, estágio que apresenta todas as características que o animal adulto tem.

As amostras de água e lama da Vale foram coletadas em seis pontos diferentes do Paraopeba, alguns próximos ao local do rompimento e outros distantes até 150 quilômetros do ponto da tragédia.

Em entrevista à Rádio USP, Mônica Lopes Ferreira, doutora em Imunologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e pesquisadora do Instituto Butantan, ressaltou que a água se tornou tóxica, com “uma quantidade extremamente elevada de mercúrio, de 720 vezes a mais do que é permitido, e uma quantidade 100 vezes superior de ferro, além de muitos microrganismos presentes”.

Para a pesquisadora, a conjuntura é de extrema preocupação. “É muito difícil que isso que está presente na água, em teor tão elevado, saia rapidamente da água e do solo. O efeito cumulativo disso tudo para esse solo, para fauna e para flora é muito difícil de ser eliminado rapidamente. O quadro que nós estamos demonstrando é de extrema preocupação para todo ecossistema daquela região. Estamos dando um alerta e (mostrando) que medidas precisam ser tomadas”, disse a pesquisadora.


Redação Dom Total

EMGE

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