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26/05/2019 | domtotal.com

A palavra

Estudos recentes sugerem que o centro da linguagem humana é consequência de uma modificação de circuitos neurais existentes em todos os primatas.

A palavra tem energias que desconhecemos, sendo capaz de produzir efeitos psicológico e até mesmo físicos, que apenas superficialmente conhecemos.
A palavra tem energias que desconhecemos, sendo capaz de produzir efeitos psicológico e até mesmo físicos, que apenas superficialmente conhecemos. (Pixabay)

Por Evaldo D' Assumpção*

Palavra é um conjunto de sons articulados que expressa ideias, podendo ser grafada, usando sinais (letras) convencionadas para tal. Contudo, a palavra é parte inseparável da história da espécie humana, apesar de nenhum pesquisador ter conseguido, até hoje, determinar quando ela surgiu, nem quando surgiu a linguagem – conjunto de palavras – além de grunhidos sem sentido definido. 

Há quem diga que esse é um dos problemas mais difíceis da ciência, especialmente definir se a linguagem foi fruto de anos de evolução, ou se ela surgiu de uma vez. Toda essa situação fez com que, em 1886 a Societé de Linguistique de Paris banisse todos os estudos já existentes e proibisse estudos futuros sobre o assunto. Proibição que teve muita influência no mundo ocidental, até o final do século 20, segundo J.H. Stam em seu livro de 1976, Inquiries into origins of language

Apesar das dificuldades quase intransponíveis, há um certo consenso de que ela teria despontado há cerca de 50 a 70 mil anos, promovendo então um rápido desenvolvimento do Homo sapiens. Espécie que surgiu no Leste da África há cerca de 350 mil anos, descendente dos grandes primatas, que deram origem aos hominídeos, e esses, à família Homo, da qual somos hoje seu único representante vivo. 

Estudos recentes sugerem que o centro da linguagem humana é consequência de uma modificação de circuitos neurais existentes em todos os primatas. Acredita-se que esse centro é exclusivo dos humanos, que surgiu e desenvolveu depois da sua separação dos primatas chimpanzé e bonobos. Portanto, a linguagem e o uso das palavras é uma característica exclusivamente nossa, o que lhes dá uma importância inimaginável.

Sabemos que a espécie humana já esteve em condição de "em extinção", lá pelos anos 50 mil a.C. Foi a palavra, constituindo linguagem articulada, ainda que primitiva, que lhe proporcionou comunicações lógicas e a criação dos meios de autoproteção, permitindo sua sobrevivência. Portanto, podemos dizer que devemos nossa continuidade nesta vida à palavra, a base da linguagem, e como tal a precede. 

Uma só palavra tem a capacidade de expressar, por vezes, muito mais do que longas e rebuscadas frases. E, sendo assim, podemos vislumbrar o respeito que por ela devemos ter, tanto pelo cuidado como vamos usá-la, como, e especialmente, pela forma de pronunciá-la. Tudo para que expresse sempre e claramente nosso pensamento com fidelidade, evitando incompreensões e más interpretações do que dissermos. E que ela tenha sempre, força e credibilidade maior do que um documento registrado em cartório.

Com um simples fiat, Deus criou o universo; com um “eu sou”, Deus se identificou a Moisés; com um “levanta-te”, Jesus curou paralíticos; e aos cegos, somente dizendo “veja”. Com um “vai-te”, expulsou o demônio que o tentava no deserto; com um “vem”, retornou à vida seu amigo Lázaro, sepultado há vários dias. Com um “à guilhotina”, cabeças rolaram na revolução francesa, mudando a história do mundo; com um “fogo”, quantas pessoas morreram diante de um pelotão de fuzilamento. Com um “sim”, forma-se um casal, nasce uma família, surge uma nova história; com um “adeus”, uma história se acaba. A lista é praticamente interminável.

A palavra tem energias que desconhecemos, sendo capaz de produzir efeitos psicológico e até mesmo físicos, que apenas superficialmente conhecemos. Quando isso acontece, nos assustamos e quase sempre negamos o que vemos, pois isso é o que fazemos com o que não sabemos explicar. Possuindo respeitabilidade, já foi um selo indelével de compromisso (palavra que vem de “com promessa”), ou seja, algo que não se admite possa ser descumprido. Quando alguém precisava prometer algo que iria cumprir rigorosamente, dizia: “Dou a minha palavra!” E não havia nada de mais sagrado e confiável do que a palavra de um homem honrado.

Lembro-me, quando criança, de ouvir meu pai afirmar que teria de fazer isso ou aquilo porque dera a sua palavra. Que para ele, não tinha retorno. Ficou-me então a noção de que só se deve prometer alguma coisa – o que significa dar a sua palavra – quando se está decidido a cumprir aquilo, custe o que custar. Foi num ambiente assim, em minha casa e na casa dos meus amigos, cujos pais possuíam conceitos éticos semelhantes, que cresci. 

Os anos se passaram e hoje tenho muita dificuldade para lidar com pessoas que facilmente flexibilizam, e até ignoram suas promessas. E triste é ver como isso proliferou na sociedade em que vivemos, especialmente no Brasil. Aqui, diferentemente de outros países civilizados, as pessoas perderam totalmente o respeito pela palavra dada. 

Médicos, como alguns outros profissionais, fazem um juramento em sua formatura. Juramento é algo que se supõe muito mais sério do que a palavra empenhada. Contudo, tempos passados, agem como se nunca tivessem prometido nada, exceto a busca dos seus interesses pessoais. Há quem jure pela vida de seus filhos, não demonstrando por eles qualquer amor ou respeito. Juram, mas depois se esquecem. Simplesmente não cumprem o prometido, e se recebem agressivas reprimendas, dão de ombro, como dizendo: “prometi, mas não vou cumprir!” Com a maior desfaçatez. 

Prestadores de serviço são os mais useiros e vezeiros nessa prática. Com isso aumentam, e muito, o estresse das pessoas. Agressões e até homicídios acontecem pelo desrespeito à palavra empenhada. Sonho com o dia em que o povo brasileiro aprenderá que a palavra dada é compromisso assumido, e que seu descumprimento só gera desconforto, aborrecimento e prejuízos para os dois lados. Se não pretendemos, não podemos, ou não sabemos se será possível cumprir alguma promessa, não devemos fazê-la. É melhor ficar vermelho por alguns instantes do que amarelo pelo resto da vida.

* Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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