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26/05/2019 | domtotal.com

Manifestações pró-Bolsonaro defendem reformas e criticam Congresso e STF

Relacionamento do Executivo com o Legislativo já é desfavorável ao governo e o temor do Planalto é que as manifestações acabassem por tensionar ainda mais a relação.

Milhares foram às ruas neste domingo para apoiar o governo de Bolsonaro, vestidos com a camisa da seleção brasileira de futebol ou nas cores verde e amarelo.
Milhares foram às ruas neste domingo para apoiar o governo de Bolsonaro, vestidos com a camisa da seleção brasileira de futebol ou nas cores verde e amarelo. (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Por Rodrigo Viga Gaier e Maria Carolina Marcello

Manifestações pró-governo em todo o país defenderam a gestão de Jair Bolsonaro, as reformas propostas -- principalmente a da Previdência -- e dois de seus ministros, mas também centraram fogo no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal (STF).

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Em capitais como Rio de Janeiro, Brasília, Belém, Belo Horizonte e São Luís, assim como São Paulo e Natal, milhares foram às ruas neste domingo para apoiar o governo de Bolsonaro, vestidos com a camisa da seleção brasileira de futebol ou nas cores verde e amarelo, munidos de bandeiras do Brasil e faixas, além da presença de bonecos infláveis, em algumas cidades.

O presidente não participou das manifestações, mas seu perfil do Twitter divulgou imagens de pessoas se dirigindo à concentração no metrô do Rio de Janeiro, e dos protestos em São Luís, e Juiz de Fora, em Minas Gerais.

Depois, no fim da tarde, o presidente postou uma declaração na rede social em que afirma que as manifestações trouxeram demandas democráticas.

"Há alguns dias atrás, fui claro ao dizer que quem estivesse pedindo o fechamento do Congresso ou STF hoje estaria na manifestação errada. A população mostrou isso. Sua grande maioria foi às ruas com pautas legítimas e democráticas, mas há quem ainda insista em distorcer os fatos", disse, no Twitter.

Com expressiva atuação nas redes sociais, o governo pode ver sua força política aumentar ou diminuir, a depender do alcance das manifestações nas ruas deste domingo, justamente em um momento em que enfrenta dificuldades na sua relação com o Congresso Nacional.

Mais cedo, ao participar de cerimônia religiosa no Rio de Janeiro neste domingo, Bolsonaro avaliou que os atos representam uma defesa do futuro do Brasil e um "recado àqueles que teimam, com velhas práticas, em não deixar que esse povo se liberte".

No Rio de Janeiro, por exemplo, manifestantes traziam faixas críticas a ministros do STF e a integrantes do chamado centrão, mas o principal alvo do ato de apoio ao governo foi o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Um boneco inflável do deputado federal, batizado de "Nhonhozeco", segurava um símbolo de cifrão e vestia camiseta com logomarcas de empresas relacionadas a denúncias contra o presidente da Câmara, como a Gol e a Odebrecht, além de uma inscrição de Judas, traidor de Cristo, ao lado do já tradicional "Pixuleco", em alusão ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vestido de presidiário.

Em Brasília, no entanto, o personagem a ser inflado foi o ministro da Justiça, Sergio Moro, que emprestou o rosto a um grande boneco que trazia o corpo do Super-Homem.

O ministro foi alvo mais recente, junto com o governo em geral, de movimentação do chamado centrão, que retirou Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) das atribuições de sua pasta em votação na Câmara da medida provisória 870, que modifica a estrutura do governo, reduz o número de ministérios e precisa ser votada até o dia 3 de junho pelo Senado ou perde a validade.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, que recentemente ameaçou deixar o cargo caso o Congresso aprove uma reforma da Previdência pouco expressiva, também foi defendido nas manifestações deste domingo.

Manifestantes declararam apoio a medidas do governo, como as reformas da Previdência e tributária, além do pacote anticrime editado por Moro e da MP 870.

Procuradas, as assessorias de Maia e do presidente do Senado e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (DEM-AP), não puderam fornecer um posicionamento imediato.

Convocadas em várias cidades do país pelas redes sociais após os grandes protestos realizados em 15 de maio contra o bloqueio de verbas no Ministério da Educação que ganharam ares de atos contrários ao governo Bolsonaro, as manifestações inicialmente tinham como centro as críticas ao STF e ao Congresso, mas incorporaram a defesa da reforma da Previdência, do pacote anticrime, e da MP 870.

Apesar de inicialmente o governo ter dito que Bolsonaro analisava participar dos atos, posteriormente decidiu ficar distante das manifestações e também orientou seus ministros a não participarem. O PSL, partido do presidente, também decidiu não apoiar institucionalmente os atos, liberando seus parlamentares a tomarem parte, se quiserem.

A possibilidade de os manifestantes expressarem críticas ao Judiciário e ao Legislativo -- com o possível surgimento de reivindicações como o fechamento do STF e contrárias a parlamentares e ao chamado centrão -- explica a cautela do governo em relação aos atos.

O relacionamento do Executivo com o Legislativo já é desfavorável ao governo e o temor do Planalto era que as manifestações acabassem por tensionar ainda mais a relação, prejudicando a agenda legislativa de Bolsonaro, encabeçada pela reforma da Previdência, apontada como crucial para reequilibrar as contas públicas e para a retomada do crescimento econômico.

O líder do governo na Câmara, deputado major Vitor Hugo (PSL-GO), por exemplo, anunciou na sexta-feira que pretendia participar das manifestações. O deputado também enfrentou uma crise na Câmara nesta semana, que culminou com o anúncio, por parte de Maia, de um rompimento de relações. Na quinta-feira, no entanto, os dois se reuniram.

'Articulação satânica'

Um avião sobrevoou o mar de Copacabana puxando uma faixa em que se lia "Mito Mito Mito", forma como os apoiadores mais fervorosos se referem ao presidente. Perto dali, um grupo na faixa dos 50 anos vestindo uniformes militares e boinas vermelhas fazia uma série de flexões, gritando em cada uma delas.

Um destes manifestantes, o ex-paraquedista Geralmir dos Santos, compareceu ao ato "para apoiar os projetos do governo": "Faz cinco meses que o país não progride, é porque Maia (Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados), com sua articulação satânica, não deixa nada ser aprovado. Ele tem que entender que o Brasil não é deles", criticou.

Bolsonaro, que comparece neste fim de semana ao casamento de um dos seus fillhos no Rio de Janeiro, anunciou esta semana que não participaria da manifestação em Copacabana, e aconselhou seus ministros a não participarem dos atos. No entanto, compartilhou fotos e vídeos dos mesmos.

 'Ajudemos nosso presidente'

Alguns assessores do presidente temiam que Bolsonaro fosse associado a lemas extremistas das manifestações, depois que grupos ultraconservadores pediram nas redes sociais o fechamento do Congresso e do Supremo.

Em Copacabana, um veículo exibia um cartaz em que se lia "Intervenção Militar Agora", exigindo um golpe de Estado como o de 1964, que deu início a duas décadas de ditadura. Outros cartazes exibiam mensagens mais moderadas, como "Ajudemos nosso presidente a reconstruir nosso Brasil".

"Estou aqui pela nova Previdência, que vai ser boa para o pobre. Aqueles que não querem essa reforma é porque estão roubando", acusou a funcionária pública Janelsa Salomão, 59. "Obrigada aos brasileiros por lutarem pelo meu futuro", dizia o cartaz exibido por sua neta, 5.

Os grupos que convocaram as manifestações são heterogêneos e incluem os seguidores de Olavo de Carvalho - "guru" de Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos - pequenos grupos de extrema direita e sindicatos de caminhoneiros.

"A ideia dos manifestantes é defender o governo. Para eles, o sistema está podre", explica Sylvio Costa, fundador do site especializado Congresso em Foco.

Para André César, da consultoria Hold, a situação poderia se complicar, embora as manifestações sejam um sucesso: "Seria um êxito aparente. Não se pode governar no Brasil sem o Congresso."

(Reportagem de Rodrigo Viga Gaier, no Rio de Janeiro, e Maria Carolina Marcello, em Brasília; Reportagem adicional de Eduardo Simões, em São Paulo)


Reuters, AFP e DomTotal

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