Brasil Cidades

12/06/2019 | domtotal.com

Brasil, o país do passado?

O Brasil racista se revelou até na escolha dos seus heróis.

É verdade que a Lava Jato empolgou grandes setores da classe média 'branca' e mesmo das áreas mais pobres, com sua proposta de 'limpar o país'.
É verdade que a Lava Jato empolgou grandes setores da classe média 'branca' e mesmo das áreas mais pobres, com sua proposta de 'limpar o país'. (Pixabay)

Por Reinaldo Lobo*

Devemos desistir do nosso país? Ir embora para Portugal, França ou Uruguai? Questões como essas podem estar passando pela cabeça de muitos brasileiros civilizados. Digo civilizados porque os mais cultos, sensíveis e de bom gosto são os que estão mais chocados com o retrocesso civilizatório entre nós nos últimos meses.

O governo Bolsonaro levantou o recalque que represava os piores preconceitos, as maiores mentiras e as intenções mais retrógradas que se abrigavam no interior da sociedade brasileira. É como se uma barragem maior do que a de Brumadinho ou de Mariana rompesse e jogasse seus rejeitos sobre todos nós.

Estamos afundados na lama da vergonha diante do mundo, onde os cuidados com o meio ambiente e os direitos humanos são, pelo menos, respeitados simbolicamente e, em muitos países democráticos, levados a sério. O atual governo brasileiro ignora tudo isso e está agora recheado de “militares pragmáticos”, como definiu um deles do grupo que foi ao Haiti, onde reprimiu favelados e “garantiu a paz”. Tem também políticos de extrema direita e grupos de apoio suspeitos de constituírem milícias paramilitares – estes, bandos meio marginais, parecem considerar a lei e as instituições apenas como penosas obrigações. Estão prontos para passar por cima delas.

O principal elo que une esses grupos em torno do governo é o secular autoritarismo de nossa sociedade desigual, hierárquica, herdeira de uma ordem escravocrata. Surge o pior dos setores do lumpen e da própria periferia desamparada pelo Estado, que lhe tira o pouco que resta de direitos e a pune com tiros aleatórios sobre as favelas.  A violência crescente é a resposta à ameaça de mais violência por parte dos “agentes da ordem”.

Devemos desistir?

É verdade que a Lava Jato empolgou grandes setores da classe média “branca” e mesmo das áreas mais pobres, com sua proposta de “limpar o país”. Hoje, vemos que a própria Lava Jato não tem as mãos tão limpas como a mídia apregoava. O escândalo das gravações entre procuradores e o ex-juiz Moro está corrigindo a imagem de combate impoluto e de segurança jurídica. O herói branco, que substituiu em larga escala a popularidade do juiz negro Joaquim Barbosa como a esperança das elites, caiu na vala comum dos acordos políticos, no mínimo, suspeitos. O Brasil racista se revelou até na escolha dos seus heróis.

Devemos sair daqui para outras terras?

Se fossemos jovens negros e pobres, deveríamos correr rápido para algum outro lugar, se tivéssemos as condições mínimas para isso. As nossas chances na atual sociedade brasileira são mínimas fora do tráfico de drogas ou dos assaltos. A probabilidade de morrer como analfabeto funcional antes dos 25 anos ronda todo jovem negro e pobre. A estatística macabra garante que cerca de 60% dos mortos pela violência no país são dessa faixa populacional.

Existe esperança nessa nossa terra?

Algumas mudanças indicam que não devemos fugir, apesar do quadro sinistro. Por exemplo, o governo Bolsonaro, ao atacar tantos setores da sociedade e da vida brasileira, gerou uma curiosa solidariedade entre pobres, jovens de classe média e excluídos em geral. Ao agredir minorias e grandes massas trabalhadoras, despertou em várias áreas o interesse comum de defender a educação, a ciência e a ecologia. A pretensa política de “austeridade” do neoliberalismo uniu na desgraça diferentes frações e categorias nos protestos e na disposição para a resistência.

Os próprios grupos de ecologistas, que antes viam sua atividade isolada dos partidos políticos e das outras causas sociais, com evidente miopia política e uma espécie de separatismo, perceberam que algo mudou. Antes, não viam a ligação indissolúvel entre os problemas ecológicos e os da sociedade em geral e tendiam a formar um lobby ambientalista. Hoje, perceberam o que um governo reacionário pode fazer com os agrotóxicos, as florestas virgens e a demarcação de terras. Não está excluída até mesmo a ameaça de regressão a um passado semelhante ao “capitalismo selvagem” do início da Revolução Industrial, quando a fumaça das chaminés, atualmente vista no mundo como poluente, era saudada como um progresso.

Desistir ou não do Brasil dependerá de nossa capacidade de resistir em defesa da democracia, evitar as torrentes de ódio e o oportunismo imediatista de grupos de centro.

Ainda que a destruição das redes sociais de proteção ao emprego e aos trabalhadores estejam sendo eficazes, restam pontos de contato entre os movimentos estudantis e as hordas de desempregados e sindicatos revoltados pelo seu encolhimento. Sobram também as mulheres saturadas com o machismo e as mães preocupadas com o futuro de seus filhos em escolas precarizadas e destruídas.

A classe média “branca” ,inclusive, está um pouco preocupada com o monstro que criou ao evitar a vitória do PT a qualquer custo. Busca um caminho fora da extrema direita para seguir, talvez algo como uma “centro direita ou centro esquerda” que tire o país da recessão e da repressão.

Há uma contradição evidente entre as maiorias conservadoras e frações da classe média que apostam em algumas decisões democráticas e avançadas do STF, como a condenação da homofobia e a tendência pela descriminalização de algumas drogas. Entre os políticos, diminuiu um pouco o terror diante dos torquemadas da Lava Jato e do Ministério Público. Esperemos que a desmitificação de personagens como Moro e Dallagnol contribua para isso.

Devemos desistir do Brasil?

Não, pelo menos enquanto formos uma maioria que apoia a democracia (68%, segundo as pesquisas de opinião) e ainda sobrarem as armas do protesto, da greve e do voto.

*Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista. Tem um blog : imaginarioradical.blogspot.com e uma página pública no Facebook: www.facebook.com/reinaldolobopsi

TAGS


EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!

Comentários


Outros Artigos

Não há outras notícias com as tags relacionadas.

Instituições Conveniadas