Religião

12/07/2019 | domtotal.com

Liberdade e realização humana

Os seres humanos se realizam na liberdade e se realizam em comunidade: a humanidade é livre e comunitária.

Amor e partilha, em seu sentido verdadeiro, só podem acontecer na liberdade mútua, no relacionamento que fortifica e dá elementos para essa mesma liberdade.
Amor e partilha, em seu sentido verdadeiro, só podem acontecer na liberdade mútua, no relacionamento que fortifica e dá elementos para essa mesma liberdade. (Ban Yido/ Unsplash)

Por Daniel Couto*

“Querer ser livre é também querer livres os outros”
(Simone de Beauvoir, Por uma moral da ambiguidade, 1947)

A liberdade é um dos conceitos mais difíceis de definir, no que diz respeito à natureza humana, uma vez que estamos imersos nessa “experiência de liberdade”, ao mesmo tempo em que nos encontramos aprisionados à uma série de normatizações que, na vida ordinária, limitam nossas ações. Isso acontece porque a amplitude da liberdade se desdobra no entendimento que podemos ter dessa dinâmica humana abarcando a consciência, a espiritualidade, a corporeidade e a socialização. Os diretos universais dos seres humanos, bradados pelos estados modernos como o baluarte da civilização, estão no esteio dos alicerces da revolução francesa: “liberdade, igualdade e fraternidade”. Porém, ao nos depararmos com esse conhecido lema, podemos nos perguntar: para quem?

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Sabendo que a liberdade compreende um espectro grande de definições, trazemos três conceitualizações que nortearam a discussão deste tema na história da Filosofia. Em primeiro lugar, a liberdade foi entendida como “autodeterminação ou autocausalidade”. Neste entendimento os indivíduos racionais são livres para fazer suas escolhas e determinar suas ações, ser livre é ser “causa de si mesmo”. O ser humano seria “princípio de seus atos” e a liberdade consistiria nessa possibilidade de – ausente dos condicionamentos – fazer as escolhas que “julgasse melhor para si”.

Na segunda perspectiva, a liberdade está relacionada à necessidade e se aproxima do conceito anterior, porém esse “princípio de ação” está fundamentado na totalidade (seja o cosmo, a divindade, o absoluto, o estado, etc.). A liberdade, neste caso, consiste na autodeterminação de si com a ordem universal estabelecida. Esse caminho está ligado menos às vontades e mais à correspondência ao ordenamento, sendo uma ação livre quando propagadora dessa continuidade. É preciso que o homem inicie suas ações e, dicotomicamente, ele é capaz de agir em harmonia ou dissonância em relação à essa lei.

Por fim, a terceira abordagem do conceito entende a liberdade como “medida de possibilidade”, seja no âmbito da motivação pessoal, seja na perspectiva de uma ação condicionada. Nessa concepção, é livre quem pode escolher entre diversas as opções apresentadas, tendo em si o princípio de ação ou tomando consciência do seu condicionamento escolhendo uma opção sugerida por outrem. Seguindo essa interpretação, a liberdade está ligada ao número de possibilidades que se apresentam, aos motivos que levam à escolha e às possibilidades objetivas para escolher essa ou aquela alternativa.

Esses conceitos foram, no século XX, estudados por Isaiah Berlin que propôs uma dupla definição da liberdade. Segundo ele, podemos estabelecer uma liberdade negativa e uma liberdade positiva. A liberdade negativa acontece quando ninguém (em nível individual ou institucional) interfere na nossa capacidade de “agir como bem entendemos”. Essa ausência de interferência pode levar, se compreendida de maneira absoluta, à problemas no âmbito da convivência, uma vez que, para garantir o direito à liberdade, é necessário estabelecer limites para a ação.

A liberdade positiva, por outro lado, relaciona-se com a capacidade do indivíduo de alcançar os fins por si mesmo, em um movimento intrapessoal, onde as dimensões apetitivas (paixões e vontades) são guiadas pelo aspecto reflexivo (razão). Segundo o filósofo, a liberdade positiva seria “em um sentido político mais amplo, (...) vista como libertação das pressões culturais e sociais que, de outra maneira, impediriam o progresso em direção à autorrealização”. Diante deste grande número de conceitos, portanto, vamos utilizar a liberdade, neste artigo, com dois eixos: a liberdade da ação e a liberdade de possibilidades.

Ao refletir sobre essas questões, percebemos que a liberdade se localiza no polo dos indivíduos e, nesse contexto, também afeta a dimensão social/convivial. A famosa definição de que a “sua liberdade termina onde começa a liberdade do outro” está fundamentada no direito dos indivíduos de seguirem suas inclinações e desejos, na medida em que esses não firam o direito de que os outros também o façam. O âmbito da socialização traz a liberdade como um dos fios da costura social, positivando esse direito com leis e normas que garantem uma “igualdade” de possibilidades para que os seres humanos, atores dessa malha social, possam fazer suas escolhas. Socialmente, inclusive, a punição mais comum para as transgressões contra a comunidade é a reclusão, isto é, a impossibilidade de exercer a sua liberdade (de locomoção e de escolhas, por exemplo). A liberdade de ação, eixo fundamental do ser humano, se confronta com a liberdade de possibilidades que busca um estabelecimento da garantia de direitos a partir da regulação.

Voltamos ao problema que apresentamos no primeiro parágrafo: liberdade para quem?

Mesmo que os conceitos de liberdade sejam muitos, os seres humanos são fundamentalmente criados livres, com o chamado, em sua natureza, à sua realização plena. Quando a sua ação é limitada, as mulheres e homens se afastam da sua gênese, em busca de uma outra natureza que é o âmbito relacional. Somos donos das nossas próprias escolhas, mas, na medida em que as camadas sociais se interpõem, vamos entregando a uma entidade superior (o estado, ou sociedade) a chancela sobre as nossas possibilidades de ação. Se no princípio os seres humanos eram totalmente livres para a ação (dependendo apenas da sua capacidade física) e livres em possibilidades (limitados apenas pelas leis físicas e biológicas), a convivência e a relação interpessoal estabelecem uma nova condição: a liberdade convivial. Os seres humanos se realizam na liberdade e se realizam em comunidade: a humanidade é livre e comunitária.

Essa liberdade ambivalente nos provoca uma reflexão sobre os impulsos, que não podem ser saciados de forma desmedida, pois convivemos com outros iguais a nós, e nos coloca dentro de um sistema de possibilidades colaborativas que não seriam possíveis se estivéssemos isolados e fechados em nós mesmos. A diferença fundamental entre os seres humanos e os outros animais, neste aspecto, é que a liberdade se constitui de um elemento apetitivo e um elemento racional que, equilibrado pelo convívio, proporciona a plena realização da natureza humana.

As comunidades primitivas do cristianismo, por exemplo, já nos apontavam esse caminho da “liberdade em Cristo” quando dizia que os “cristãos colocavam tudo em comum”, ou que “eles eram reconhecidos pela maneira como amavam uns aos outros”. Amor e partilha, em seu sentido verdadeiro, só podem acontecer na liberdade mútua, no relacionamento que fortifica e dá elementos para essa mesma liberdade. A liberdade deixa de ser “utópica”, como no lema da Revolução Francesa, para ser concreta, possibilitando que a partilha estabeleça condições, a partir da fraternidade, para os seres humanos compartilharem sua natureza de liberdade convivial.

As estruturas sociais, portanto, não devem “empurrar” os indivíduos para um caminho “determinado” com a intenção de favorecer o convívio, mas é o próprio convívio que constrói um “espírito” comum do qual partilham os homens e mulheres livres para se relacionar. Quando ouvimos as vozes primitivas dizerem que “é para a liberdade que Cristo nos libertou” (Cf. Gl 5, 1), entendemos que é na figura de um ser humano, realizado plenamente na sua vida e na carne, que a liberdade se pauta. O aspecto filial que Jesus assume é derramado na comunidade que, livres para conviver, entram na própria natureza da divindade (a pericorese trinitária) e se alegram ao partilhar a vida, deixando com que a liberdade convivial, plenitude da liberdade humana, seja a libertação dos condicionamentos impostos pela perspectiva intrapessoal e extrapessoal

Mas liberdade para quem?

Liberdade para todos, e com todos, aqueles que aprendem que a dignidade humana é um elemento universal e deixam suas limitações e aprisionamentos de lado para um convívio de respeito, fraternidade, justiça e paz. Liberdade que se constitui no âmago da humanidade, nas faces que se encontram, nas palavras que se tornam canções e nos corpos que, despidos das vaidades e [auto]idolatrias, se entregam, de mãos dadas, à dança fraterna da criação. Enquanto alguns caminhos querem levar a humanidade ao confronto armado, a verdadeira liberdade quer nos despir da violência em direção à realização plena do nosso ser: liberdade, dignidade e amor.

*Daniel Couto é mestrando em filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), com pesquisas na área de filosofia antiga, retórica grega, filosofia aristotélica e recepção da filosofia antiga. Trabalha, ainda, com a Liturgia, a Ritualidade Cristã, a Cerimonialidade e a Teologia Litúrgica e é membro da Rede Celebra.

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