Religião

17/07/2019 | domtotal.com

Por que desisti do meu trabalho na NASA para ser freira?

Conheça a jornada de uma engenheira aeroespacial até se tornar irmã religiosa, seguindo um cronograma semelhante ao de um lançamento de foguete.

Cientistas creem em teorias que ainda não podem ser provadas, como a teoria das cordas, e isso também é fé, algo que não é exclusividade de religiosos.
Cientistas creem em teorias que ainda não podem ser provadas, como a teoria das cordas, e isso também é fé, algo que não é exclusividade de religiosos. (Donald Giannatti/ Unsplash)

Por Libby Osgood
America

Dez. Nove. Oito. Sete. Eu estava na sala de controle do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, em Maryland, em 11 de junho de 2008, com meus colegas engenheiros e cientistas, contando os segundos finais até o lançamento do nosso satélite. "Por favor, Deus", implorei. "Que dê certo tudo!"

Seis. Cinco. Quatro. Vestindo saltos e uma saia preta trabalhada com apenas um detalhe rosa, aos 25 anos, eu era a pessoa mais jovem em uma sala cheia de calças e gravatas. "O que estou fazendo aqui?" Eu me maravilhei. "Como posso estar falando em um fone de ouvido para o Cabo Canaveral?"

Três. Dois. Um. Lançamento. Eu estava colada ao monitor do meu computador, observando simultaneamente os sinais vitais do satélite e um vídeo ao vivo da plataforma de lançamentos na Flórida. Como engenheira de sistemas, meu papel era encontrar e consertar problemas e ser um ponto de conexão entre os outros engenheiros. Suspirei de alívio quando a fumaça saiu dos motores e o foguete desapareceu da tela. Agora, o trabalho real pode começar: as operações no espaço que o satélite foi planejado para executar.

A maioria das pessoas só ouve os últimos 10 segundos da contagem regressiva antes do lançamento de um foguete. Na realidade, dura horas e requer vários dias de ensaio. Os poucos minutos estimulantes são precedidos por meses de trabalho tedioso. Minha jornada de engenheira aeroespacial até me tornar uma irmã religiosa seguiu um cronograma semelhante. Não há uma versão de 10 segundos da minha história de vocação. Incluiu anos de questionamento e trabalho de base, culminando em alguns minutos mágicos de clareza, seguidos pelas operações reais, até um milhão de “sins” que devem ser dados repetidamente após o compromisso inicial com a vida religiosa.

Osgood diz que sempre separou seu trabalho como engenheira e sua conexão com a Igreja.Osgood diz que sempre separou seu trabalho como engenheira e sua conexão com a Igreja.

Logo após o lançamento de 2008, eu me vi trabalhando em um ritmo mais lento com uma construtora que trabalha para a NASA em Phoenix. O ritmo era mais devagar, cheio de reuniões e cubículos. Comecei a me sentir inquieta e, depois de dois anos, decidi ir ao Quênia com uma organização chamada Mikinduri Children of Hope, para ajudar a fornecer serviços médicos, odontológicos e oftalmológicos em uma pequena aldeia. Nesse momento, estava certa de que, mesmo sem qualquer treinamento médico, estaria bastante ocupada; e depois de incontáveis horas olhando para um satélite de metal imóvel, fiquei ansiosa e comecei a querer trabalhar com as pessoas.

Eu me apaixonei pelo Quênia. O campo era exuberante e verde em alguns lugares; havia cores brilhantes pintadas nos edifícios simples de lata com anúncios das fraldas Huggies e de uma marca de preservativos. Eu vi no povo queniano o que significa irradiar o amor de Deus. Isso era algo que eu não tinha visto ou sentido em Phoenix. Antes de partir do Quênia, resolvi deixar meu emprego, desistir do salário confortável e cada vez maior e tirar um ano sabático para buscar alegria.

Depois de um ano de atividades em família, fotos, yoga e viagens de carro, comecei a trabalhar como professora de engenharia na University of Prince Edward Island. Por seis anos, orientei alunos na descoberta do design de engenharia, enquanto fazia meu Ph.D. Eu voltava ao Quênia todo mês de fevereiro e envolvi meus alunos nas viagens o máximo possível para que pudessem desenvolver suas habilidades enquanto ajudavam pessoas que realmente precisavam.

Tornei-me uma pessoa cada vez mais envolvida com a Igreja e ativa em um novo grupo jovens adultos de uma paróquia diocesana. Íamos à missa, participávamos das refeições e debatíamos questões teológicas. Mas eu via esse meu lado católico como algo que fazia apenas nos finais de semana. Considerava minha religião e minha profissão como duas partes distintas de mim, em vez de um todo integrado.

Em 2015, fiz uma viagem de fim de semana com alguns amigos do grupo de jovens adultos da minha igreja, incluindo uma irmã da Congregação de Notre Dame. Passamos uma noite em cabanas rústicas em Meat Cove, Nova Escócia, sem eletricidade ou água corrente, rodeados por um oceano cheio de baleias e um céu cheio de estrelas. Sentada na varanda, tentando resolver os problemas do mundo, a discussão passou para o tópico do ministério. Mas eu nunca senti que essa palavra se aplicava a mim. Quando expressei minha frustração com a palavra, meus amigos olharam assustados.

"Sua vida é um ministério", disseram eles.

Eu recusei: "Eu ensino engenharia, isso é tudo."

Como se estivesse me vendo pela primeira vez, a irmã religiosa perguntou: "Você sabe o que fazemos?" Quando não respondi, ela explicou que a "educação libertadora", o carisma das religiosas de Notre Dame, encoraja irmãs a empoderar e educar em qualquer forma que libere o espírito humano.

Por alguns segundos estimulantes, vi toda a minha vida claramente integrada. Percebi que não precisava evangelizar ou mencionar Deus no trabalho, pois estava exercendo um ministério junto aos meus alunos e colegas simplesmente amando-os e tratando-os como pessoas dignas e santas. Esse foi o momento do lançamento.

A noção de educação libertadora e a potencial promessa que ela tinha para o meu futuro como uma irmã religiosa abalou todo meu mundo. Depois de quase duas semanas sentindo uma alegria intensa, entendi que esse sentimento era mais do que apenas isso. Apareci na porta da irmã e pedi que me "explicasse essa coisa de freira". Ela riu, conversamos, e eu fui embora com respostas às minhas perguntas. Quase quatro anos depois, estou chegando ao final do meu noviciado e farei meus primeiros votos neste verão.

É quando o trabalho real acontece, após os emocionantes segundos finais da contagem regressiva. Além de oração, aulas e ministérios, minhas tarefas foram atípicas: consertar banheiros, substituir pias, instalar pisos e pintar paredes. Antes disso, sentia vergonha quando estava na igreja (porque não estava fazendo mais pelo reino de Deus) e quando estava no trabalho (porque achavam que estava tentando fazer proselitismo).

Embora eu nunca tenha sido desencorajada a falar sobre religião no trabalho ou na escola, ninguém fazia isso e eu também não faria. Quando trabalhamos sem parar nos últimos meses antes do lançamento do satélite em 2008, nenhum dos outros engenheiros pediu folga aos domingos para frequentar a igreja, então eu também nunca fiz isso.

Minha censura auto imposta significava sacrificar o sono para encontrar uma missa durante minhas poucas horas de folga. Ao longo do meu último semestre no Ph.D., tinha que justificar minha ausência porque não estava conseguindo participar na conferência de pesquisa de estudantes - um pré-requisito para a pós-graduação. Estava muito envergonhada de dizer que estava indo em peregrinação a Medjugorje, então murmurei: “É uma coisa religiosa!”.  A religião era um tema tão tabu no departamento que a questão foi desconsiderada sem comentários.

O vazio onde a vergonha uma vez se assentou é agora um vaso aberto, preenchendo-se lentamente com buscas espiritualmente científicas, permitindo-me mergulhar na ciência desde uma perspectiva espiritual e na espiritualidade dentro de uma perspectiva científica. Teilhard de Chardin, S.J., Ilia Delio, O.S.F., e Kathleen Deignan, C.N.D., foram meus primeiros professores nessa integração e deram-me uma nova maneira de admirar o universo.

Ainda no noviciado, descobri cientistas que examinam suas crenças como se estivessem sob um microscópio, explorando como sua fé informa sua ciência e sua ciência informa sua fé. Li todos os livros que a biblioteca poderia oferecer sobre física quântica, para entender melhor o desdobramento do grandioso design de nosso Deus invisível, mas palpável.

Aprendi que a fé não é exclusiva daqueles que se consideram religiosos: acredito em um Deus de amor, e os físicos quânticos acreditam que sua teoria específica é verdadeira, seja a teoria das cordas ou a teoria dos laços quânticos, embora não tenham nenhuma evidência concreta.

Muitas vezes, as pessoas ficam intrigadas com a transição do trabalho nos satélites para o noviciado, mas a jornada pareceu natural para mim. Eu sempre confiei que Deus me deu a bússola e as ferramentas que preciso – e às vezes um empurrão na direção certa. Como aconteceu com o paleontólogo, Teilhard de Chardin, conforme ele disse: “Deus está na ponta da minha caneta, da minha pá, da minha escova, da minha agulha – no meu coração e nos meus pensamentos”. Eu agora posso confortavelmente atestar que Deus está na ponta do meu marcador de quadro branco, na minha barra de espaço, na minha chave inglesa, no meu fone de ouvido – no meu coração e sempre em meus pensamentos.


Publicado originalmente por America.


Tradução: Ramón Lara

EMGE

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